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Escrito por Henrique Costa   
Sexta, 10 de Abril de 2015
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A narrativa messiânica em que se enfiou o PT e muitos de seus militantes e adeptos nos últimos anos teve como resultado a incapacidade do partido em diferenciar seus méritos de seus equívocos. Este é o atual paradoxo petista. Tivesse feito realpolitik por pura manutenção do poder, talvez conseguisse manter seu condomínio feito à base de governabilidade conservadora e seu verniz de defensor dos pobres lhe garantiria muitos anos de governo devagar e sempre.

 

O messianismo petista é composto pelas suas raízes católicas, uma liderança carismática e um nacionalismo neogetulista fomentado na última década, cujo símbolo são as mãos de Lula sujas de petróleo. Com o lulismo fazendo sua reforma em ritmo lento mas constante, e com um PSDB que nunca conseguiu se livrar de sua essência classista, o caminho parecia livre. Mas o petismo se deixou contaminar pela ideia de que estava predestinado a algo maior e a ideia lhe subiu à cabeça como um foguete em partida para a lua. A realidade mostrou que o PT há muito não é tão diferente dos demais: burocratas, neopopulistas e caricaturas de chavistas se espalham pelo partido como veias gangrenadas.

 

Esperar que estes dirigentes, substitutos de segunda categoria da antiga cúpula (que também fez das suas peripécias), priorizassem outra coisa que não sua permanência e acomodação na estrutura partidária e governamental é ingenuidade. Ser alegremente fisgado pelo messianismo, por outro lado, denuncia que a responsabilidade pela atual situação do partido, pelo contrário, está também na sua antiga base militante e de esquerda que continua a negar o óbvio – muito melhor que manter seus burocratas sob rédea curta e impulsionar a democracia interna é dar todo o poder real a poucos iluminados e soltar pílulas de esquerdismo na internet.

 

Lula decidiu sozinho praticamente todos os candidatos que passaram pela urna eletrônica sob o número 13 em mais de uma década. Não foi uma imposição da cúpula, mas uma decisão deliberada de grupos internos deixar que o ex-presidente fizesse tudo por sua conta, enquanto tiravam das próprias costas a responsabilidade pelos rumos do partido. Foi também uma decisão consentida deixar que os negócios do partido e o financiamento privado por bancos e empreiteiras irrigassem candidaturas com conveniente oposição de ninguém.

 

Hoje, não há mecanismos internos de aferição de responsabilidades e o que se pensava sobre o PT ser maior do que seus iluminados dirigentes se mostrou falso. O partido é refém de Vaccaris e Delúbios e nem jogo de cena consegue fazer, culpando um “ódio” de quem mal se sabe apontar - pois a narrativa messiânica justifica tudo, mas toda ideologia precisa ter um pé na realidade para que pareça crível. A opção pela acomodação se impôs conforme as finanças do partido inflavam, as apostas de Lula davam bons resultados eleitorais e colocavam uma imensa quantidade de quadros de diferentes correntes em bons empregos estatais, de ministérios e fundos de pensão a secretarias municipais, coisa que Francisco de Oliveira já havia notado em 2003.

 

A construção do messianismo enquanto ideologia serve para que burocratas mantenham fiéis mesmo bons militantes da base do partido. O deslumbre com o poder veio dar sentido ao messianismo. Na política, a ideia de predestinação fez o PT cuspir na cara daqueles que garantiram até aqui sua condição de síndico do condomínio de poder e acreditar que os votos do lulismo lhe davam direito divino a, por exemplo, dispensar o PMDB - macunaíma da política brasileira que, goste-se ou não, está aí e vai permanecer por muito tempo. Este é só um dado da realidade.

 

Apostou na imprudência e em projetos extravagantes, como usar o BNDES para financiar Eikes e as “campeãs nacionais”. Com a Petrobras, embarcou na exploração do pré-sal contando com o melhor cenário possível em relação ao preço do barril de petróleo (que fez água), subsidiárias geridas como quintal e gente corrupta que hoje se volta contra o governo. Erros primários que só podem ser explicados por deslumbres de grandeza de alguns ingênuos e de interesses escusos de uns outros.

 

Os últimos eventos mostraram um fato que só o petismo não sabia: com a economia na descendente, o PT não governa o país. No máximo coordena uma gama de interesses que vão do velho coronelismo ao neopopulismo das periferias e subúrbios do país infestados por políticos financiados por tráfico, milícias etc. Administrando esse cenário e em condições econômicas favoráveis, conseguiu com muitas concessões os bons avanços do lulismo, mas que trouxe consigo outra ilusão: acreditar que as conquistas do modo de regulação alinhavado pelo ex-presidente estavam garantidas. O desengano vem a galope e o desemprego volta a dar as caras.

 

Esta soma de fatores levou à situação atual. Reformas graduais são, naturalmente, mais fáceis de serem revertidas, sobretudo quando o dinheiro das commodities já não jorra como antes. Basta uma faísca para que os “aliados” do projeto lulista se coloquem imediatamente em alerta ao menor sinal de impacto em seus interesses.

 

No espaço, ninguém ouve você gritar

 

Buracos negros, como diz a teoria da relatividade, têm um irresistível poder de atração, inclusive em partículas que se movam na velocidade da luz. Eles nascem pelo colapso gravitacional de uma estrela, e começam a partir de uma superfície denominada “horizonte de eventos”, que marca a região a partir da qual não se pode mais voltar. Como buracos negros dragam tudo ao seu redor, até grupos que viajam na velocidade da luz embarcaram na conversa do golpismo.

 

Quando se ouve de um ministro de Estado que ajuste fiscal recessivo visa gerar emprego e distribuir renda, quase nada é capaz de surpreender, desde que você não tenha optado em embarcar na Enterprise petista rumo ao desconhecido. Se o espaço-tempo pode ser distorcido em um buraco negro, é possível mesmo que alguém acredite no que disse Lula, por exemplo, em evento recente com movimentos sociais em defesa da Petrobras sobre ser o brasileiro “mais indignado com a corrupção”.

 

O ex-presidente também acha que “canalha já nasce canalha. Bandido já nasce bandido”. Talvez ele não soubesse disso quando nomeou Paulo Roberto Costa diretor de Abastecimento da Petrobras – seria um argumento bastante apropriado para os defensores da redução da maioridade penal, já que bandidos vêm de berço. Quem sabe não tivéssemos prendido Paulinho quando ele tirava doce dos colegas ainda na pré-escola, e a Petrobras estaria salva. O problema seria o que fazer com alguns dos companheiros de Lula.

 

O Brasil vive uma crise econômica já identificada por todos os setores da sociedade e já é realidade sobretudo na casa dos mais pobres. Dentro da narrativa do messianismo petista, já está claro que o inferno são os outros. Para os demais, a corda bamba ideológica não permite buscar as raízes da crise, cuja implicação é negar o ajuste fiscal em curso, mas não ter a menor ideia de qual seria a alternativa na prática. Este é o problema lógico: a atual crise econômica é decorrente da política anterior, e não da atual.

 

Lula defende o ajuste, portanto imagina-se que, para ele, o problema econômico tem a ver com o malsucedido desenvolvimentismo de Dilma, e essa conclusão é inescapável diante das próprias iniciativas tomadas por ela desde que seu mandato foi renovado. O atual cenário de recessão, aumento do desemprego, da inflação, dos juros e das tarifas de energia não pode ter outra causa que não as escolhas da equipe econômica de Dilma 1.0. Pouco importa agora se a política que precedeu o arrocho atual seja mais ou menos de esquerda e se preservou o emprego naquele momento ou só jogou o problema para frente.

 

Das duas, uma: ou Dilma erra ao conduzir um ajuste fiscal neste momento, ou errou na política anterior, um desenvolvimentismo que não desenvolveu, de modo que não faria sentido mudar se a aposta tivesse dado certo. Isso é ainda mais notável quando o governo efetivamente aceitou cumprir o ajuste defendido pelo mercado ao invés de confrontá-lo, como fez João Goulart – a comparação, aliás, se encerra neste argumento.

 

Esquerda unida

 

O momento é ainda mais curioso quando se nota que o assunto impeachment sumiu dos noticiários. Para quem está no topo da pirâmide, instabilidade implica perder dinheiro e o “golpe branco” não teria outro resultado. “Desinvestimento”, como o que está sendo proposto em subsidiárias da Petrobras, não é anagrama de desenvolvimentismo, mas é eufemismo para privatização, enquanto apoiadores do governo fazem atos “em defesa” da estatal. Mais um exemplo de como a narrativa está descolada da realidade.

 

À esquerda, o vácuo é semelhante, e ideias desconexas flutuam como em gravidade zero. Fazer do Imposto de Renda mais progressivo e usá-lo para distribuir renda faz muito menos estardalhaço do que taxar grandes fortunas ou auditar a dívida pública – medidas importantes, mas mais simbólicas do que eficientes. Ninguém vai fazer abaixo-assinado pela progressividade. Assim, aumenta-se a suspeita de que a esquerda socialista não tenha debate econômico desde o fracasso da planificação soviética. Não dá para reclamar do público quando o espetáculo repete sempre a mesma montagem, e assim a tal “avenida aberta” vai sendo ocupada por projetos autoritários.

 

Mas as viagens pelo espaço não são apenas venturosas, são sobretudo solitárias e, por vezes, aterrorizantes, que o digam os tripulantes da espaçonave de Alien – O oitavo passageiro. Assim, nossos amigos da burocracia gritam contra o golpismo enquanto a popularidade do governo Dilma evapora como água na fervura da economia que dá sinais de recessão e aumento do desemprego. Mas como eles não estão mais no planeta Terra, cada vez menos gente lhes dá atenção. Como diz o cartaz do filme, “no espaço, ninguém ouve você gritar”.

 

Popularidade em queda livre

 

Havia também os adeptos da ideia de que o Brasil caminhava para uma polarização entre ricos e pobres. Era fácil fazer essa previsão em 2010, quando o lulismo turbinado pelo preço das commodities colocava a parcela majoritária do segundo grupo na base social do PT. Agora, com 13% de popularidade, segundo o Datafolha, e sem dinheiro para inflar políticas públicas, ninguém se atreve a fazer teleologia com a política de classes no país. Toda narrativa messiânica tem o seu fim.

 

Perdido no espaço, o governo acusa o golpe. Estão todos “perplexos” com a queda no apoio entre a sua base eleitoral – paralelos com a reação diante das manifestações de junho de 2013 não são mera coincidência. Entre o eleitorado geral, a taxa de preferência do partido despencou. Apenas 9% preferem o partido da presidente, segundo o Datafolha – esse percentual era de 30% em março de 2013, antes das manifestações daquele ano. Pior: o PSDB já empata tecnicamente com o PT na preferência dos jovens entre 16 e 24 anos, com 6% para o primeiro e 5% para o segundo. 75% não se identificam com nenhum partido. O arrocho adotado pelo governo e que atinge especialmente os mais jovens só tende a agravar a situação.

 

Para quem não afunda como avestruz a cabeça no messianismo petista e nem viaja por buracos negros, a constatação está na marca do pênalti. Michel Temer assume a articulação política do governo, Joaquim Levy comanda a economia, e quem apostou no golpe agora escreve análises sobre o corajoso Lulinha enfrentando moinhos de vento.

 

Se correr o bicho pega, se ficar...

 

Vivemos às vésperas da aprovação da redução da maioridade penal pelo Congresso. Corretamente, o ministro da Justiça afirmou que colocar menores na cadeia não vai resolver problema algum. Mas o que o atento ministro Cardozo considera que resolveria a questão da segurança pública no país e um dos sistemas carcerários mais bárbaros do mundo? Pois é, o PT teve doze anos para responder, mas preferiu apoiar as ‘revolucionárias’ UPPs – e depois de um jogo de cena em 2014, o PT fluminense voltou para o colo do governador Pezão.

 

Em 2010, Lula queria, inclusive, expandir o programa para todo o Brasil. Mas como apostou nas unidades, e hoje elas são mais conhecidas como centros de tortura, não tem nada para se contrapor a elas. Segue também o projeto de lei que estende a terceirização às atividades-fim, que caminha a passos largos para a aprovação pelo parlamento, e outros projetos retrógrados podem ser desengavetados a qualquer momento. O governo federal não tem mais poder de agenda, e a perplexidade geral se adorna da questão: foi para isso que elegemos esse governo? Foi, mas tem gente que se contentou com a dilminha coração valente e não prestou atenção aos “detalhes”.

 

Entre um setor crescente da população que está fora do “nós contra eles”, abre-se um espaço imenso para o antipetismo. O que alguns não entendem é que a “autocrítica” não é um favor que o PT faria para a esquerda, mas uma necessidade estratégica para que não seja devastado e arrastado para o inferno, como ocorreu com os partidos italianos na sequência da operação Mãos Limpas. Mas o partido está atado, e a dura realidade para os adeptos do dirigismo é que não são as mesmas cabeças que explodiram a estrela que vão restaurá-la, porque elas são parte do problema.

 

Girando na órbita do partido, todos querem a unidade, mas ninguém sabe como alcançá-la, pois em 90% dos casos ela não passa de retórica e mecanismo de autopreservação de grupos cada vez mais atomizados e no resguardo do seu purismo. Note-se ainda que, para o PT, nunca interessou unir a esquerda e os movimentos sociais em um projeto, como se viu em três mandatos consecutivos - e se quiser isto agora, não será mais do que um paliativo em causa própria. Já afundar junto é até aceitável, como diz um manifesto divulgado pelo partido.

 

“Não foi a minha espada, mas o seu passado que o desarmou, Mondego”, disse Edmond Dantès para o catalão que o traiu em O Conde de Monte Cristo. Se a debacle do PT e da esquerda que o orbita se concretizar, não será pela espada da mídia ou da elite branca, mas por conta do messianismo que se construiu em seu entorno. Aos que dizem que aparelhar a Petrobras era uma necessidade do “presidencialismo de coalizão”, basta a frase de Dantès.

 

 

Henrique Costa é mestrando em ciência política na USP.

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Última atualização em Quarta, 15 de Abril de 2015
 

A publicação deste texto é livre, desde que citada a fonte e o endereço eletrônico da página do Correio da Cidadania




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