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O mito nosso de cada dia Imprimir E-mail
Escrito por Dejalma Cremonese   
Terça, 06 de Novembro de 2007
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O mito é histórico. Resultado de uma criação coletiva da própria sociedade, os homens, desde os primórdios, o têm utilizado para explicar o enigmático, o desconhecido. O mito serviu e ainda serve para abrandar e acalmar os temores da existência humana. Ele traz consigo uma resposta e, também, uma esperança para os problemas da vida. No entanto, pode conduzir, ditar valores e comportamentos em uma sociedade. Assim, o mito não é mera ilusão ou fantasia, ele precisa ser examinado, desafiado e refletido. Só a reflexão pode explicar o mundo e entender a vida. Ao contrário, crenças e estereótipos, costumes e hábitos passarão a ser considerados naturais, aceitos e justificados como algo imutável ou incontestável.

 

A modernidade emergiu da superação do mito religioso medieval (razão teológica), para o mito da razão instrumental. A razão desvelou e transformou o mundo. O homem passou da “idade das trevas” para a “idade das luzes”, do pensamento único, para o pensamento diverso, plural e múltiplo. A razão impulsionou o pensamento científico e, este, a técnica e o progresso.

 

O homem moderno acreditou que a ciência poderia resolver todos os problemas da humanidade. Tornou-se um mito a salvação pela ciência e pela tecnologia. Entretanto, a promessa não pôde ser cumprida. O certo é que as conquistas modernas passam, em nossos dias, por um esgotamento e uma crise acentuada. O conceito de progresso passa a ser questionado na medida em que, por um lado, avançamos, por outro, pagamos um alto preço pelo consumo de boa parte dos recursos minerais e naturais, além da degradação do meio ambiente. Vive-se como se esta fosse a última geração a habitar o planeta Terra. O progresso fugiu do controle. A ciência que emancipou o homem pode destruí-lo a qualquer momento: o perigo nuclear é iminente. Além disso, o progresso veio para uma pequena parcela da população na medida em que cresce, a cada dia, o abismo entre ricos e pobres.

 

O mundo tornou-se uma “aldeia global” (comunidade única), graças às novas tecnologias da informática. No entanto, os homens vêem-se cada vez mais isolados, fragmentados, órfãos de esperanças. Não se tem um projeto de “Comunidade” (projetos comuns). Vive-se literalmente em uma sociedade sem consenso. As soluções tendem a ser individualizadas (pessoas, instituições, países), como se o problema também fosse localizado e particularizado. Prevalece o individual em detrimento do coletivo. Com o ceticismo em relação à ciência e ao progresso, o homem pós-moderno procura preencher o vazio com novos mitos.

 

Apesar de todo o avanço dos últimos séculos, vê-se aumentar a angústia, a ansiedade e a insegurança, juntamente com inúmeras perguntas que carecem de respostas convincentes. Ninguém pode fugir do peso da própria existência humana. Para tentar preencher este vazio surge, a cada dia, uma nova droga, uma nova crença, seita religiosa, ou uma nova terapia que promete a “salvação” e a “solução” dos problemas espirituais e existenciais de uma forma rápida e segura.

 

Nunca as clínicas médicas de cirurgia plástica tiveram tanta procura. Lutando contra a natureza, ou contra a lei da gravidade, milhares de pessoas estão na lista de espera por uma cirurgia que lhes faças sentir melhor (mais jovem), ou parecer com aquela modelo ou atriz famosa. Se os meus heróis são belos, tenho que parecer com eles, por isso a padronização de narizes, seios e bumbuns. O ser da pessoa foi substituído pelo “aparecer”, pois a “imagem é tudo”. Por isso, “todos para a academia”. Não para formar e moldar o cérebro e a razão, como faziam os gregos (embora também cultuassem o corpo belo), mas para malhar e moldar os músculos. O que importa é a massa muscular, um corpo turbinado em detrimento dos neurônios.

 

Ao comprar objetos e bens supérfluos, espera-se comprar a própria felicidade. Precisamos de uma nova roupa, um novo carro, uma nova casa. Quando não podemos consumir nos sentimos fracassados e inúteis. Se paga caro pelo lazer, mas sem jamais descansar. O que importa é o hedonismo (prazer a qualquer custo), curtir a vida o máximo possível, pois só temos o “hoje”, o amanhã é uma incógnita.

 

Urge, então, a construção de um novo paradigma que restabeleça as relações entre os homens, com a natureza e com o próprio universo. Não uma razão mitológica, nem mesmo uma razão instrumental individualizada. Precisamos de uma nova razão que se possa definir para além dos mitos e da instrumentalidade.

 

 

Dejalma Cremonese é cientista político. E-mail: dcremo(0)hotmail.com.br Web Site: www.capitalsocialsul.com.br

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Última atualização em Sexta, 07 de Dezembro de 2007
 

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