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Israel, Arábia Saudita, EUA e Irã diante da nova conjuntura política e estratégica no Oriente Médio Imprimir E-mail
Escrito por Achille Lollo, de Roma para o Correio da Cidadania   
Sexta, 10 de Abril de 2015
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No dia em que, em Lausanne, o secretário de Estado dos EUA John Kerry se reuniu com o ministro das Relações Exteriores do Irã, Mohammed Javad Zari, para definir as normas do acordo sobre as limitações das atividades dos centros de pesquisas nucleares do Irã e, consequentemente, fixar os termos para a gradual revisão das sanções econômicas, a Arábia Saudita, com o apoio político do Egito, Bahrein, Emirados Árabes Unidos, Jordânia e Sudão, e o suporte logístico de Grã Bretanha, França e Turquia, deslocou 12.000 soldados ao longo da fronteira com o Iêmen, enquanto seus caças-bombardeiros atacaram repetidas vezes a capital Sana’a e outras cidades controladas pelos rebeldes Houthi.

 

Depois de uma semana, dia 1 de abril, o presidente do Iêmen, Abd Rabbo Mansur Had, fugiu na Arábia Saudita enquanto as milícias Houthi acabavam de conquistar o estratégico porto da cidade de Áden, no sul do país. Mesmo assim, a aviação da Arábia Saudita intensificou os “bombardeios a tapete” utilizando os pilotos egípcios, paquistaneses e jordanianos, que se revezavam com os sauditas, na guia dos sofisticados F-15 e F-16 da Força Aérea Saudita, monitorados por oficiais da US AIR Force (estadunidense), estacionados nas bases aéreas de Woomern, Dhahra, Taif e Ryiad. Por sua parte, os planos de voo eram preparados na base secreta que a CIA criou na Arábia Saudita em 2011 para nortear as missões dos aviões telecomandados “Drones”, contra os acampamentos de Al-Qaeda da Península Árabe (AQPA).

 

Segundo a agência da ONU para as questões humanitárias (OCHA), os bombardeios da primeira semana provocaram a morte de 361 pessoas e o ferimento grave de 1.345. Porém, no dia 7 de abril os mortos já eram mais de 600, enquanto 2.200 pessoas haviam sido hospitalizadas com ferimentos graves. À causa dos contínuos ataques aéreos o pessoal da OCHA estimava o número de refugiados em uma dezena de milhares.

 

Imediatamente, o New York Times, a CNN, a TV Al-Jazeera e o diário Al Sharq al Awsat, (publicado em Londres), interagindo com as “excelências da inteligência” da Casa Branca e da Casa Real saudita, conseguiram nortear 90% da imprensa mundial, criando a fábula da “intervenção armada da Arábia Saudita para impedir a aproximação do Irã no estratégico Iêmen e assim defender a liberdade de circulação no Mar Vermelho, em particular dos petroleiros destinados aos países da União Europeia”.

 

Uma fábula que na realidade é o complemento midiático de uma série de ações políticas e militares que os EUA, a Arábia Saudita e, sobretudo, Israel praticaram nos últimos trinta anos para realizar seus projetos estratégicos e assim manter sob seu direto controle a conjuntura política do Oriente Médio.

 

Entretanto, essa conjuntura, nos últimos quatro anos, sofreu inúmeras modificações – algumas delas traumáticas do ponto de vista humanitário e também institucional –, tanto que hoje no Oriente Médio temos:

 

1) uma guerra confessional, movida pelo ISIS (Estado Islâmico) no Iraque e na Síria;

 

2) uma guerra tribal na Líbia, onde a Arábia Saudita financia o Egito para defender o governo de Tobruk, enquanto a Turquia e o Catar financiam o governo islâmico de Trípoli e as milícias jihadistas;

 

3) Uma guerra fundamentalista no Mali e na Nigéria;

 

4) uma guerra de agressão na Síria promovida e alimentada pela Turquia, o Catar, a Arábia Saudita e a OTAN;

 

5) uma “guerra de libertação” no Afeganistão, movida pelos talebans contra a presença de tropas dos EUA e da OTAN;

 

6) uma guerra de baixa intensidade no Bahrein, com um perene estado de sítio não declarado, onde a oposição xiita reclama reformas institucionais e econômicas, contra um governo monarquista que sobrevive graças à “cobertura” da inteligência da Arábia Saudita;

 

7) uma guerra de libertação na região do Curdistão da Turquia, promovida pelo PKK, que propõe, também, a formação de uma confederação de Estados curdos, formada com parcelas de territórios da Turquia, da Síria, do Iraque e do Irã;

 

8) Uma guerra de libertação na Palestina e em Gaza, fortemente reprimida por Israel com o apoio dos EUA e da OTAN, com vista a evitar a criação do Estado da Palestina;

 

9) Uma rebelião generalizada no Iêmen, onde o movimento rebelde dos Houthi (que representa 40% da população de religião xiita) derrubou o corrupto presidente, Abd Rabbo Mansur Had, sustentado pela Arábia Saudita e, por motivos religiosos, reconhecido pela maioria sunita;

 

10) Uma guerra policial no Egito (financiada pela Arábia Saudita), onde o exército, após o golpe de Estado contra o presidente Morsi, persegue impiedosamente os membros da Irmandade Muçulmana e das seitas salafitas.

 

Foi com base nesse cenário que o presidente dos EUA, Barack Obama, autorizou a abertura das negociações com o Irã, em Lausanne, na Suíça, para definir a transformação dos centros de pesquisas nucleares militares do Irã em centrais nucleares para uso civil, porém, sob o controle da Agência Internacional da Energia Atômica. Acordo que os técnicos dos EUA e do Irã, com a supervisão de membros da Rússia, da China, e da Grã Bretanha, França e Alemanha representando a União Europeia, deverão finalizar em junho. Depois, o acordo será ratificado em Washington e em Teerã, para entrar em funcionamento em 2016. Altura em que também as sanções econômicas começarão a ser gradualmente retiradas.

 

Após 12 anos de inúteis tentativas, o acordo, assinado finalmente em Lausanne, fez explodir as contradições, políticas e geoestratégicas, que a diplomacia e oportunismo político dos EUA, de Israel, da Arábia Saudita e da Turquia haviam conseguido manter ocultadas e silenciadas com o beneplácito da “grande mídia”.

 

Atuação pragmática dos EUA

 

Antes de entrar nos pormenores do acordo e das questões conjunturais do Oriente Médio, é necessário considerar um elemento novo: a exploração massiva nos EUA dos depósitos de xisto betuminoso, com a técnica do fracking, mesmo destruindo o meio ambiente de inteiras regiões, garantirá aos Estados Unidos a autossuficiência energética, livrando-se, assim, da dependência do fornecimento de petróleo e de gás da Arábia Saudita e de outros produtores do Oriente Médio.

 

Porém, os trabalhos de prospecção e de extração do shale-gas e shale-oil são economicamente vantajosos somente quando os preços do Arabian-light, do Iran-Light e do Brent Oil oscilam nos mercados entre os 90 e os 120 dólares o barril.

 

Entretanto, é necessário lembrar que a perspectiva da autossuficiência energética dos EUA esvaneceu-se com a queda do preço do barril de petróleo, que baixou até 50 dólares. Um acontecimento que, segundo Thomas Friedman, o colunista Prêmio Pulitzer do The New York Times, “tem muito a ver com a Arábia Saudita, cujos bancos estariam por trás das operações de rebaixamento do preço do barril e do gás no mercado, com vista a provocar uma crise financeira na Rússia, responsável pela irredutível resistência do presidente Bašhār al-Assad na Síria, após quatro anos de sangrenta guerra civil e pelo crescimento da influência política do Irã no Oriente Médio”.

 

O célebre colunista do NYT não disse que a eminência parda desse jogo ao rebaixo, que quase acabou com a economia da Venezuela, é o poderoso ministro do Interior da Arábia Saudita, príncipe Mohammed bin Nayef, nomeado no passado mês de fevereiro vice-príncipe herdeiro, isto é, segundo na linha de sucessão ao trono do rei Salman. Também a “grande mídia” não diz que os preços do barril baixaram logo após Barack Obama ter recusado o apelo do poderoso príncipe Mohammed bin Nayef para invadir a Síria e, assim, derrubar definitivamente o regime do presidente Bašhār.

 

Esse fato estimulou as excelências da Casa Branca e o próprio Barack Obama a avançarem na complexa conjuntura do Oriente Médio, utilizando mais as armas do pragmatismo geopolítico, no lugar dos rígidos conceitos das alianças estratégicas com Israel e a Arábia Saudita. Um pragmatismo necessário, também, para cancelar a ilógica e às vezes inconcebível teimosia de Hillary Clinton, bem como o intervencionismo de George W. Bush.

 

Foi nesse âmbito que o Secretário de Estado dos EUA, John Kerry, apoiou a reivindicação do presidente da Autoridade Nacional Palestina, Abu Mazen (originariamente Mahmud Abbas), provocando uma dura reação em Israel. Em segundo lugar, a Casa Branca autorizou os generais do Pentágono a planejar o fortalecimento dos Pasdaram (guerrilheiros) do Curdistão, a rápida reorganização do exército iraquiano e a formação de um corpo de intervenção aero-tático para começar a bombardear as posições do ISIS no Iraque e na Síria.

 

Além disso, foi dado um beneplácito oficioso para permitir que o general iraniano Qassim Suleimani se deslocasse na região de Tirkut, com um importante destacamento de tropas especiais da Guarda Revolucionária, para quebrar a resistência dos homens do ISIS. Também esse fato provocou duras reações em Riad, sobretudo por parte do príncipe Mohammed bin Nayef, ministro do Interior, segundo o qual “desta forma o Irã vai aumentar sua esfera de influência no Oriente Médio”.

 

A seguir, os EUA se afastaram definitivamente do caos da Líbia, vetando qualquer intervenção por parte de países da OTAN. Uma atitude que enraiveceu o ministro do Interior da Arábia Saudita, o príncipe Mohammed bin Nayef, visto que o rei Salman havia, finalmente, oficializado a ajuda financeira para custear a sobrevivência do governo de Abdullah al-Thani, refugiado em Tobruk, com a intervenção do exército egípcio e a sustentação das operações das milícias do ex-general Khalifa Haftar na região de Benghazi.

 

Em seguida e sem pedir a opinião dos governantes da Arábia Saudita, de Israel e da Turquia, a Casa Branca reconheceu que para derrotar definitivamente o ISIS era preciso estender o raio de ação dos caças-bombardeiros F-15 e F-16 no centro e no norte da Síria. Esse fato reabilitou a colaboração tática com o exército de Bashar al-Assad, apesar de dever bombardear os acampamentos da maioria dos bandos de rebeldes sírios, que haviam desertado do ELS (financiado desde 2012 pela CIA) para se juntar ao ISIS.

 

Nesse contexto, também os combatentes xiitas do Hizbollah libanês (Partido de Deus), empenhados em conter o avanço do ISIS em direção do Líbano, tal como o general iraniano Qassim Suleimani, foram momentaneamente retirados da lista dos grupos terroristas procurados pela ONU. Por isso, o líder da direita sionista Benjamin Netanyahu criticou duramente o presidente Barack Obama que, em resposta, no dia 17 de março, se recusou de encontrá-lo em Washington.

 

A explosão de raiva do sionista Benjamin Netanyahu e do saudita Mohammed bin Nayef, diante dos microfones dos jornalistas após a assinatura do acordo em Lausanne, estimulou ainda mais o espetáculo midiático, no qual Barack Obama se saiu vencedor jogando o papel do bom pacifista, enquanto Netanyahu, seu ministro da Defesa, Moshe Yaalon, e o antigo diretor da IDI (Israeli Defense Inteligence), o Major-General, Amos Yadin, ficaram desqualificados por terem ameaçado bombardear os centros de pesquisa nuclear iranianos. Não satisfeito, Yadin revelou que Israel havia planejado o ataque ao Irã em 2005 e, agora, o mesmo mereceu o apoio da Arábia Saudita, que autorizou o uso de um especial corredor aéreo para permitir aos aviões israelenses sobrevoarem o território saudita e atacar o Irã.

 

Mas a raiva midiática de Netanyahu desapareceu quando o presidente Barack Obama declarou: “Os Estados Unidos sempre defenderão Israel e as sanções econômicas contra o Irã serão retiradas somente quando os responsáveis da Agência Internacional da Energia Atômica confirmarem que o Irã implementou todo o processo de desmilitarização dos seus centros de pesquisa nucleares, conforme estabelecido em Lausanne”. Declarações que acalmaram os dissabores do líder sionista Benjamin Netanyahu, mas enfureceram ainda mais o poderoso príncipe Mohammed bin Nayef.

 

Os próximos três meses serão determinantes para o destino político do presidente Barack Obama e, sobretudo, o futuro do Partido Democrático, que pretende candidatar Hillary Clinton para as eleições presidenciais de 2016. Por isso a assinatura do Acordo Transatlântico para o Comércio e os Investimentos (TTIP) com a União Europeia, a continuação das negociações para a definição do Acordo Transpacífico para o Comércio e os Investimentos (TPIP) com os países asiáticos (excluindo China, Vietnã, Coréia e Índia), o fechamento do Acordo Geral sobre os Serviços Públicos (TISA), a campanha para a derrota do ISIS no Iraque e na Síria, bem como a ratificação do Acordo com o Irã, serão os elementos políticos fundamentais da atividade política de Barack Obama no seu último semestre na Casa Branca, quando, por lei, não poderá mais apresentar decretos ou tomar iniciativas sem a aprovação do Congresso.

 

Com relação ao Tratado com o Irã, é necessário dizer que as “excelências” da Casa Branca, desta vez, optaram confiar totalmente nos estudos estratégicos pormenorizados dos analistas do Pentágono, sem, por isso, consultar os governos de Israel e da Arábia Saudita. De fato, para os generais estadunidenses, nesse momento, o inimigo principal não é mais o Irã ou a Síria, mas, sim, o ISIS. Foi nessa ótica que o Pentágono antepôs três condições para poder aniquilar os batalhões de Al-Bagdabi:

 

1) na retaguarda iraquiana e síria, os movimentos e os partidos xiitas e curdos devem aceitar o papel da Coligação anti-ISIS liderada pelos EUA, bem como a função do suporte aéreo estadunidense e organizativo ao exército iraquiano (xiita) e ao curdo;

 

2) o governo do Irã vai participar da campanha contra o ISIS, enviando “voluntários” à região de Tirkut, ao lado das unidades do exército regular do Iraque;

 

3) os combatentes xiitas do Hizbollah libanês (aliados do Irã) deverão defender a fronteira sírio-libanesa, juntamente aos batalhões do presidente sírio Bašhār al-Assad.

 

Além disso, os analistas da CIA apresentavam vários relatórios sobre a oportunidade de promover, já no início de 2015, a negociação com o Irã, pelos seguintes motivos:

 

a) se os esforços diplomáticos dos EUA e da União Europeia não conseguem congelar os projetos nucleares iranianos, nos próximos cinco anos o Irã estará em condição de construir pequenas bombas atômicas;

 

b) Se durante o governo do moderado Hassan Rouhani – que foi eleito em 4 de junho de 2013 com apenas 52,7% -, as relações com os EUA e o Ocidente não forem normalizadas, em 2018 os conservadores recolocarão na presidência Mahmud Ahmadinejad e, com ele, o Irã poderá ter a bomba atômica, criando uma situação dificílima para Israel, a Turquia e a Arábia Saudita;

 

c) a burguesia iraniana, que votou em massa por Rouhani, espera que o acordo com o Ocidente sobre a reciclagem dos projetos nucleares possa finalmente liberar os fundos iranianos bloqueados nos bancos europeus e estadunidenses, além de poder voltar a exercer no Irã um importante papel político e econômico;

 

d) o governo iraniano precisa de um acordo com os EUA e a União Europeia para voltar a explorar todos os seus reservatórios de gás e de petróleo, que atualmente reduziram sua produção em quase 65% por causa das sanções econômicas.

 

O resultado das negociações de Lausanne deu razão a Obama, que ganhou a confiança (e o voto) do influente eleitorado dos judeus liberais estadunidenses, conseguindo dividir a frente dos conservadores republicanos, do momento em que o próximo presidente dos EUA deverá escolher entre a manutenção do tratado, ou correr o risco da explosão de uma guerra nuclear entre Israel e Irã a partir de 2018.

 

O blábláblá eleitoreiro, mas eficaz, de “Bibi”

 

O primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, notoriamente alcunhado de “Bibi”, após a quarta vitória eleitoral à frente do partido da direita sionista, Likud, pode ser considerado o principal renovador das campanhas eleitorais israelenses que, desde 1996, se tornaram mais estadunidenses no estilo coreográfico, no desempenho financeiro e, sobretudo, em termos de conteúdos políticos. De fato, com “Bibi” o sionismo virou projeção política e institucional do povo judeu no Oriente Médio. Consequentemente, a histórica lógica teocrática dos sionistas, “o povo hebreu é um povo eleito por Deus”, foi transformada em um específico mandamento geopolítico, segundo o qual “o Estado de Israel deve ser absolutamente forte para impor ao mundo o fato de ser o povo eleito por Deus”.

 

Isso explica, claramente, por que o Exército de Israel sabe que pode massacrar livremente os palestinos em Gaza e segregá-los na Cisjordânia, visto que no Ministério da Defesa, mas também nos aconchegantes condomínios judaicos construídos nas terras desapropriadas ilegalmente aos palestinos, todos sabem que os EUA e os países da União Europeia nunca permitirão que “o povo eleito de Israel” sofra com sanções ou inquéritos do Tribunal Penal Internacional de Haia.

 

Por isso, desde 2002, o Mossad e a IDI (Inteligência Militar) mantêm em aberto a possibilidade de realizar um bombardeio seletivo no Irã para destruir todos os centros de pesquisas do projeto nuclear (Natanz, Isfahan, Kom e Fordo) e as centrais de Bushehr e Arak. Aliás, algo parecido já aconteceu com o Iraque quando governava Saddam Hussein.

 

“Bombardeios seletivos preventivos” que voltaram a ser atualizados logo após os primeiros contatos do Secretário de Estado dos EUA, John Kerry, com o ministro das Relações Exteriores do Irã, Mohammed Javad Zari. Ao mesmo tempo, o primeiro-ministro sionista, Benjamin Netanyahu, autorizava o Mossad a contatar o príncipe saudita Mohammed bin Nayef, para selar com a Arábia uma aliança secreta com vista permitir à aviação sionista e aos foguetes Jerico I e Jerico II sobrevoarem tranquilamente o espaço aéreo saudita, e assim permitir aos F-15 e F-16 israelenses cumprirem as operações de bombardeio no Irã sem dever efetuar um demorado reabastecimento no ar.

 

Neste clima de alarmismo midiático, o “Huffington Post” reaproveitou o “scoop” que o site “Ynet”, do jornal israelense “Yedioth Ahronot”, publicou em 2012, revelando os pormenores de um possível ataque aéreo ao Irã. Por isso, muitos comentaristas falaram de “um concreto esfriamento das relações entre Israel e os EUA em 2015”. E foi nesse clima que a “grande mídia” contou muitas fábulas, chegando até a inventar uma ruptura entre Israel e os EUA por causa do Tratado com o Irã.

 

Fábulas que foram desmentidas quando os EUA garantiram ao governo israelense a incolumidade de sempre e a manutenção do acordo para o fornecimento anual de 3,7 bilhões de dólares em equipamentos para o exército sionista. Um contexto que o animal político chamado “Bibi” explorou sabiamente na campanha eleitoral, jogando a carta da pretensa traição e abandono por parte do Ocidente, para depois jurar diante dos jornalistas que, ao ser reeleito, “impedirá a farsa do Irã”, além de prometer “a construção de mais colonatos judaicos nas terras palestinas”, sublinhando que ele “nunca aceitará a proclamação de um Estado Palestino”. Palavras que fizeram babar os “eleitos por Deus” que voltaram a sonhar com a Grande Israel como nos tempos de Sharon e seus tanques de guerras em Beirute.

 

Na realidade, o objetivo principal do blablablá enraivecido de Benjamin Netanyahu não era Barack Obama ou a Casa Branca, mas os eleitores sionistas de Israel. Uma massa amorfa que precisa ficar muito impressionada para motivar sua opção eleitoral. Praticamente é o que “Bibi” fez nessas últimas eleições, demonstrando que os EUA e Israel são como o gato e a raposa na novela de Pinocchio.

 

O poderoso príncipe Mohammed bin Nayef

Na Arábia Saudita, a política internacional, a luta antiterrorismo e as exportações de hidrocarbonetos são os elementos chaves do trabalho do Ministro do Interior, o poderoso príncipe Mohammed bin Nayef, também desde fevereiro nomeado vice-príncipe herdeiro do rei Salman. Portanto, é ele que decide o rumo político da Arábia Saudita, e não os 600 príncipes da corte.

 

Apesar de ter recebido uma formação ocidental na universidade Lewis & Clark, de Portland, no estado do Oregon (EUA), o príncipe Mohammed bin Nayef não se atreveu em querer modernizar o fundamentalismo do wahabismo, em função do qual a casa real saudita pretende continuar a ser o “guia espiritual” de todos os sunitas do Oriente Médio.

 

Aliás, é com base nesta concepção política e teocrática que o príncipe Mohammed bin Nayef está tentando impor a supremacia geoestratégica da Arábia Saudita no Oriente Médio, intervindo, direta ou indiretamente, em sete países: 1) na guerra civil da Síria; 2) promovendo o golpe de Estado no Egito; 3) exigindo a repressão da Irmandade Muçulmana nos países do Magreb e da Península Árabe; 4) intervindo na guerra tribal da Líbia; 5) planejando a desestabilização do Líbano; 6) invadindo o Iêmen para impedir os rebeldes xiitas Houthi de consolidar o poder em Sana’a e Áden; 7) multiplicando as artimanhas diplomáticas para minimizar a influência política do governos xiitas do Irã no Oriente Médio.

 

É necessário dizer que a lógica fundamentalista do wahabismo fez com que a monarquia saudita rejeitasse os programas e as manifestações da juventude em favor das reformas políticas e socioeconômicas nos países árabes e contra as quais o rei Salman e, sobretudo, o príncipe Mohammed bin Nayef decidiram travar uma guerra infinita até as últimas consequências.

 

O moderado Hassan Rouhani e o rumo da burguesia iraniana

Para os homossexuais, o Irã é um Estado fascista e homofóbico, por reprimir gravemente a comunidade gay, mas, para os analistas políticos liberais, a nação persa é um Estado onde o fundamentalismo xiita se modernizou para conviver com uma burguesia ocidentalizada, mas também nacionalista. Este conúbio fez com que os aiatolás continuassem a exercer um papel de estreito controle sobre essa burguesia, reconhecendo-lhe, porém, um importante papel dirigente no desenvolvimento econômico da sociedade iraniana.

 

De fato, nos últimos vinte anos, o equilíbrio entre as aspirações da burguesia e o controle político dos aiatolás garantiu uma efetiva estabilidade política, que permitiu aos governantes iranianos modelarem um tipo de desenvolvimento nacionalista para a sociedade iraniana. Assim, ela foi capaz de resistir e se adaptar às restrições econômicas e financeiras impostas pelos EUA e a União Europeia.

 

Por isso, o acordo com os EUA apresenta três leituras diferentes:

 

1) a burguesia liberal acredita que, após o acordo, voltará a gerenciar o fluxo de investimentos das transnacionais, parte interessadíssima em reativar o import-export com o Irã, que é uma nação com 80 milhões de consumidores;

 

2) a nova burguesia, que se formou e enriqueceu criando alternativas às sanções, está inquieta e com medo de perder as prerrogativas e os privilégios que os governos dos aiatolás lhes concederam;

 

3) os conservadores mais intelectualizados têm a suspeita de que a abertura econômica e o retorno das transnacionais ocidentais poderá enfraquecer os valores da Revolução komeneísta;

 

4) os setores populares esperam que com esse acordo o governo possa finalmente reabrir as fábricas, investir nas reformas infra-estruturais e, consequentemente, elevar o nível de vida dos camponeses, do operariado e de uma massa enorme de trabalhadores desempregados.

 

É necessário dizer que quase todas as transnacionais europeias, sobretudo as alemãs e as francesas, mesmo com os efeitos das sanções econômicas, mantiveram no Irã todas as suas filiais. Por sua parte, os bancos europeus e estadunidenses esperam o fim das sanções para poderem lucrar com a movimentação dos 155 bilhões de dólares iranianos, atualmente congelados por efeitos das sanções. Além disso, o mercado acredita que, com a volta do Irã à produção de 4 milhões de barris de petróleo por dia, e outra quantidade imensa de gás, os preços dos mesmos alcançarão uma estabilidade definitiva, do momento que o volume do potencial produtivo do Irã será o antídoto contra os caprichos das monarquias da Arábia Saudita, do Catar e do Kuwait.

 

O processo de reciclagem dos centros de pesquisa nucleares militarizados foi um dos elementos centrais do programa eleitoral de Hassan Rouhani, que ganhou as eleições por um milimétrico 2,70%. Porém, é bom sublinhar, essa proposta não foi uma proposição do marketing eleitoral. Pelo contrário, com esse acordo o Irã poderá, finalmente, ter sua indústria nuclear civil, com a qual produzirá energia elétrica para mover seu parque industrial, alimentará a demanda dos centros urbanos, além de desenvolver a eletrificação rural. Por outro lado, proporcionará ao Estado iraniano uma dúplice poupança, por não dever mais investir no processo de enriquecimento clandestino do plutônio e do urânio e, também, poupar o petróleo e o gás que hoje são destinados às centrais termoelétricas.

 

Neste contexto, a presença do general Qassim Suleimani e das tropas especiais da Guarda Revolucionária na região de Tirkut foram uma “jogada de mestre” do presidente Hassan Rouhani, porque será com esse tipo de soldados, profissionalizados e motivados do ponto de vista religioso, que a coalizão anti-ISIS liderada pelo Iraque e os EUA poderá acabar de vez com os batalhões jihadiistas de Al-Bagdahad. De fato, não foi casual que nas últimas semanas, após a chegada dos “voluntários” iranianos, os combatentes jihadistas do ISIS foram expulsos da cidade de Tirkut, após violentos combates onde... não houve prisioneiros!

 

 

Achille Lollo é jornalista italiano, correspondente do Brasil de Fato na Itália, colunista do Correio da Cidadania e editor do programa TV “Quadrante Informativo”.

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Última atualização em Qui, 16 de Abril de 2015
 

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