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A vontade do senhor Imprimir E-mail
Escrito por Plinio Gentil   
Quarta, 08 de Abril de 2015
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O pensamento autoritário está enraizado nas mentes da sociedade brasileira. Ele se explica, entre outras coisas, pela forma como o país foi colonizado: segundo o modelo da grande propriedade, da monocultura e do trabalho escravo. Da dualidade “senhor-serviçal”. Os do andar de cima e os do andar de baixo. Dessa maneira, aquele que tem propriedades é sempre o senhor. Os outros lhe devem o emprego e a subsistência e transformam essa gratidão em subserviência.

 

O senhor manda nas instituições do Estado porque escolhe os governantes. Quer que o Estado, suas instituições e sua leis o protejam e, especialmente, protejam os seus direitos enquanto proprietário. Como proprietário, o senhor dispõe de coisas pouco acessíveis aos outros: boa escola, serviços médicos, transporte, moradia, eletrodomésticos de qualidade. O senhor, mesmo quando frequenta a igreja, não sonha em compartilhar um milímetro de seus benefícios com os demais.

 

Afinal, essa sua diferença com os outros é que faz dele o senhor. Por isso ele se irrita quando vê que esses outros, os do andar de baixo, subiram um degrau, estão tendo facilidades pra ter uma casa ou um carro, financiamento para fazer faculdade, um salário que volta a comprar o que o avô comprava 50 anos atrás. Aí o senhor conclui que o governo não administra o Estado como deveria, ou seja, de um modo que garanta os seus direitos de senhor e a diferença entre ele e o serviçal, que também pode ter direitos, mas nem tanto.

 

E reclama da corrupção, como se ela fosse alguma novidade. Reclama da falta de segurança, esquecido de que a desigualdade é a maior culpada da violência. Pede a volta da ditadura, sem lembrar que tinha muita corrupção naquele tempo (pesquisem sobre os escândalos da Lutfalla, Capemi, Delfin, Banco Econômico e outros que a censura não deixava noticiar). Pede que a polícia desça o pau em grevistas, socialistas, sem teto, sem terra, a turma do passe-livre e todos os simpatizantes destes.

 

É que eles afrontam o poder do senhor, questionam a sua propriedade e os seus benefícios, julgam-se com direito a isso também, ora... Então é preciso enquadrar essa gente. E nada melhor do que ameaçá-los com pancada e prisão. Vão mal na escola, não arrumam bons empregos, não fazem três refeições por dia, daí partem pro crime? Pau neles! Menores de dezoito anos barbarizam por aí, dão rolezinho em shopping, vendem drogas pra classe média, roubam e dá muito trabalho aplicar o ECA? Abaixa a maioridade penal e cana neles! Já que podem votar, podem ir pra cadeia.

 

Polícia e penitenciárias, eis a solução. O senhor vai se sentir mais seguro assim, com o serviçal enquadrado. Serviçal é serviçal, tem que saber o seu lugar. E se começar a ter o mesmo que eu, “quem vai trabalhar pra mim?”, pergunta o senhor. O senhor pensa de um jeito autoritário, afinal, ele é o senhor. Foi desde o tempo do pau-brasil, do engenho de cana, das minas de ouro, dos cafezais – e continua sendo nas fábricas que utilizam trabalho escravo de africanos e bolivianos.

 

Para o pensamento autoritário, o mundo se divide entre bons e maus, gente de bem e gentinha, pessoas responsáveis e marginais, esforçados e vagabundos, inteligentes e burros. O pensamento autoritário acha que dizer “eu tenho mais dinheiro que você” é um bom jeito de encerrar uma discussão. O pensamento autoritário, que o rico educa o pobre (que ele chama de “humilde”) a também ter, ensina que alguém, por seu título, suas propriedades e sua pose, tem todo o direito de ser atendido melhor numa loja, num banco, num hospital. Aí esse “humilde” fica pensando que ter um pouquinho mais de recursos do que o pai dele teve, embora continue sendo explorado, significa que é possível, ralando muito e se lixando pros outros, se dar bem no sistema e que sucesso resume-se a isso. E que é a coisa mais natural do mundo alguém ser chamado de doutor, mesmo que não o seja, pelo manobrista do estacionamento, dependendo do preço do carro que esteja dirigindo.

 

A desigualdade é uma droga, é a mãe da discriminação, mas é o que assegura que o senhor continue senhor. Então, quando se sente em perigo, o senhor organiza uma passeata, querendo mudar as leis e o governo e usa a corrupção como pretexto. Claro que sem aprofundar muito, porque ele bem que aceita uma vantagenzinha naquela licitação, um favorzinho do fiscal, o guarda fingindo que não vê a infração, uma assessoria pro filho... E por aí vai. E se o serviçal está dando trabalho, roubando pra ter aquilo que a TV diz que ele precisa ter, e fazendo isso cada vez mais jovem, o senhor pede pra reduzir a idade com que esse jovem pode ser mandado para uma penitenciária.

 

Para o senhor, a questão não é a idade, não é a maturidade, e sim que o jovem está roubando e tirando o seu sossego. O jovem que rouba faz parte daquela gentinha. Se as crianças também começarem a roubar, o senhor vai querer abaixar a maioridade até níveis uterinos. O senhor não vai pra rua se manifestar, mas dá as palavras de ordem, fornece os recursos, anuncia pela mídia, faz a propaganda da coisa. Quem vai pra rua são os admiradores do senhor, os aspirantes a senhor, os que querem manter as regras do jogo pra um dia também virarem senhor, achando sinceramente que conseguirão.

 

E é preciso afugentar quem atrapalha esse sonho, daí essa gente de bem pede renúncia da presidente e passagem só de ida pra Cuba para os cinquenta e tantos milhões de brasileiros que votaram nela. Como se coubessem lá. Pede não, exige. E também é preciso deixar de lado aqueles assuntos desagradáveis que envolvem os seus aliados. Daí fingem não lembrar o escândalo dos trens, do HSBC, a falta de água, um certo aeroporto em Minas e a proliferação da dengue. Abraçam policiais, não quebram nada. São bons moços com amnésia.

 

Essa gente boa tem aquele pensamento autoritário, acha que sabe das coisas e que, como quase sempre aconteceu, pode impor a sua vontade, na lei ou na marra. Amanhã vão exigir a privatização da água e, se não ficar chato, dos raios de sol. O senhor, na verdade, não precisa das manifestações, porque ele já está no governo, no Ministério da Fazenda, no da Agricultura. No fundo, ele não quer, nem precisa, tirar a presidente. As manifestações funcionam como uma espécie de festa motivacional para os seus admiradores, um hapenning dominical, e demonstração de força para os não admiradores, um alerta do tipo ó, tamos aí. É isso e só isso. E pelo jeito vamos ter mais do mesmo.

 

O senhor diverte os seus amigos e deixa que estes escrachem os serviçais. É tudo parte do jogo e daquele pensamento autoritário, temperado em séculos de poder quase absoluto: o senhor do engenho, ou da tecelagem que escraviza estrangeiros, não cede nada, não divide nada, não se sente igual aos outros, odeia a proximidade com o serviçal e morre de medo que o garoto da periferia seja colega de faculdade de sua filha. Os admiradores do senhor e os aspirantes a senhor aprendem tudo isso com ele e reproduzem a lição até melhor do que o professor. E la nave và.

 

 

Plínio Gentil é professor universitário de Direito e procurador de justiça do Ministério Público de São Paulo.

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Última atualização em Sexta, 10 de Abril de 2015
 

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