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A corrupção num esquema de poder Imprimir E-mail
Escrito por Lucio Flavio Pinto   
Sexta, 27 de Março de 2015
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Mário Vargas Llosa completará 78 anos no próximo dia 28. É um dos maiores intelectuais vivos do mundo, no singular quando situado no continente latino-americano de hoje e com poucos companheiros para ombreá-lo, se visto da perspectiva histórica. Teria direito a essa posição singular se tivesse vencido a eleição para presidente do Peru, em 1990?

 

Talvez seja por puro preconceito responder que não. Se um intelectual é o valor exponencial da cultura humana, por que mantê-lo afastado da atividade humana mais decisiva, que é a política? Ora, que os melhores atuem onde sua presença é mais necessária.

 

No entanto, a história ensina que quanto maior a proximidade dos intelectuais em relação ao poder, maior a tentação de abusarem dos instrumentos de decisão colocados à sua disposição. O poder multiplica os efeitos danosos de um componente comum entre os intelectuais: a vaidade. Podendo passar do pensar ao fazer, fazem o que não deviam. Frequentemente, contradizem o que antes pregavam.

 

Ficou célebre a frase atribuída a outro poderoso intelectual, este, sim, que chegou ao topo do poder no seu país, muito maior e mais importante do que o Peru. Diz-se que Fernando Henrique Cardoso mandou seus contemporâneos esquecerem o que ele escrevera como intelectual. Podia não coincidir com o que passaria a fazer como presidente. Ou ser exatamente o oposto.

 

É muito fácil apontar a contradição, mas os dois casos, concretamente, são muito mais complexos do que uma condenação inquisitorial admite. Llosa podia ter preservado sua invejável face de escritor da sua militância política, que, visando ao poder, foi providencialmente efêmera. Dez anos depois de derrotado na disputa presidencial, ele recebeu o prêmio Nobel de literatura “por sua cartografia de estruturas de poder e suas imagens vigorosas sobre a resistência, revolta e derrota individual”.

 

Se conseguiu criar ficção com um conteúdo tão real de lucidez política e solidariedade humana, não teria aplicado esses valores como presidente da República? Não teria agido com mais lucidez do que um político de carreira, com formação convencional, restrita, limitada? Sem dúvida, Llosa seria exceção numa tradição desfavorável aos poucos intelectuais que conseguiram atravessar o fosso do mundo cultural para a arena política, mas o Peru ganharia com essa excepcionalidade. E talvez Llosa não perderia como artista, que tanto nos fascina por sua inteligência e criatividade.

 

No caso de FHC, parece que a vaidade foi mais insinuante e cruel. O intelectual que ele foi (e continua a ser) antes de chegar à presidência da República no Brasil não tinha o direito de violar a constituição federal para: 1) criar a nefanda instituição da reeleição para todos os cargos elegíveis do executivo: 2) aplicar a si essa inovação, que clama por revogação – para o bem de todos e felicidade geral da nação.

 

Mas se lê com prazer e proveito tudo o que o sociólogo paulista (embora carioca) tem dito desde que voltou a ser apenas (e felizmente) intelectual, inclusive sobre ele mesmo, a despeito de tanta vaidade. Em entrevista que a Folha de S. Paulo publicou nesta semana, FHC faz, dentre várias outras, uma observação profunda e pertinente:

 

“É importante mostrar a natureza do que estamos discutindo hoje. Não é corrupção usual. É uma forma organizada de manutenção do poder utilizando dinheiro público. Aumentaram os preços (das obras) para tirar a diferença e dar para os partidos. É uma coisa muito mais séria”.

 

O diagnóstico vai ao âmago da questão e fulmina letalmente o Partido dos Trabalhadores. O PT, seus militantes e simpatizantes apontam para o governo do tucano como a origem da corrupção na Petrobrás. Corrupção sempre houve e (infelizmente) haverá na Petrobrás, a maior empresa brasileira, e em organizações menores, públicas ou privadas. Quando descoberto, o roubo é divulgado e, eventualmente, os ladrões são presos – agora, até mesmo os de colarinho branco, saudável novidade.

 

Paulo Barusco já roubava em 1997 ou 1998, mas a possibilidade de que os seus superiores na escala hierárquica dentro ou fora da estatal, e o presidente da República, soubessem de suas vilanias, era pequena. Como ele próprio afirmou no exercício da sua delação premiada, ele saqueava os cofres da empresa onde trabalhava como indivíduo, só.

 

A partir de 2003/2004, o que era um gérmen poderoso de corrupção desabrochou, foi tratado e virou uma organização criminosa. Não apenas para enriquecer pessoas com poder de mando na estrutura que gera dinheiro, mas um projeto de poder. As engrenagens foram montadas, a mecânica foi definida e o fluxo de dinheiro passou a seguir um roteiro consolidado, com percentagem fixada e distribuição estratificada.

 

Claro que com possibilidades de vazamento para bolsos particulares, sem que essa predação prejudicasse a mecânica que sustentava financeiramente esse projeto de poder, materializado no PT e nos partidos da base aliada do governo petista.


É uma forma não usual de corrupção, como observa FHC. Não chega a ser inédita. O Pará teve essa engrenagem. A partir do jogo do bicho e do contrabando, dinheiro ilícito era irrigado para o PSD (Partido Social Democrático) de Magalhães Barata, numa estrutura que aproximava as autoridades de bicheiros e contrabandistas e se assemelha ao cartel (ou “clube”) das empreiteiras nas entranhas da Petrobrás. Com uma diferença: em escala microscópica, apesar de sua relevância para os padrões paraenses de corrupção.

 

A entrevista do ex-presidente pode fecundar, tirando da bitola passional e do maniqueísmo partidário, uma das situações mais difíceis e explosivas em que se meteu a República brasileira. Contribuição que a opinião pública deve reconhecer como sendo do intelectual Fernando Henrique Cardoso, sem esquecer o que ele fez de negativo quando ocupou o trono imperial – digo, republicano.

 

 

Lucio Flavio Pinto é jornalista.

Website: https://lucioflaviopinto.wordpress.com/2015/03/26/a-corrupcao-num-esquema-de-poder/

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