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Outro futebol é possível Imprimir E-mail
Escrito por Gabriel Brito   
Sexta, 27 de Março de 2015
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Terminou na última semana a 4a edição da “Copa América Alternativa”, torneio criado por inspiração das chamadas Copas do Mundo Alternativas, sempre realizadas na Europa, onde há algumas décadas existe uma considerável rede de times caracterizados pela resistência ao futebol mercado.

 

Disputada no balneário de Las Cañas, cidade de Fray Bentos, seis equipes se juntaram num enorme parque localizado às margens do Rio Uruguai, recentemente marcado pela polêmica instalação da papeleira finlandesa Botnia. Como o rio é dividido entre uruguaios e argentinos, era recomendável a aprovação de ambas as partes, o que não ocorreu.

 

Por conta do episódio, os argentinos chegaram a fechar a fronteira da província de Entre Rios por três anos. Em 2013, a Copa foi do outro lado, em Gualeguaychu. Quando lá estivemos, sempre em nome do querido Autônomos FC, a papeleira ainda era assunto do dia e se lia por todos os lados da cidade: “Fuera Botnia!”.

 

De toda forma, esta foi a primeira edição realizada fora da Argentina, dado que geograficamente o país platino é um razoável ponto de convergência aos distintos quadros. Vale destacar que a presente edição não pode contar com um de seus idealizadores, o Club Social Deportivo y Cultural Ernesto Che Guevara, de considerável fama no continente por seu trabalho na formação esportiva e cidadã de crianças e adolescentes.

 

Foi a equipe do Che quem promoveu a primeira Copa, em sua cidade sede, a remotíssima Jesus Maria, cerca de 65 quilômetros de Córdoba, terceira maior província argentina. Naquela vez, o campeão foi o próprio Autônomos.

 

E é inspirado no conceito elaborado pelo grande revolucionário que se batizou o torneio: “Hombre Nuevo”, a cada ano homenageando uma diferente figura de nossa história de lutas populares. Este ano o troféu recebeu a alcunha de Alberto “Pocho” Mechoso, fundador da Federação Anarquista Uruguaia e, obviamente, perseguido pela ditadura do país oriental.

 

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Jogar e resistir

 

Apesar de todo o apreço pela bola, não é esse o principal motivo para a reunião de times e pessoas baseadas a tantos milhares de quilômetros umas das outras. Com otimismo, podemos dizer que a Copa América Alternativa é uma espécie de Fórum Social Mundial da pelota, a compartilhar visões e críticas em diversos campos da vida.

 

Não é pra menos. Além de habitarmos uma região do planeta cujo futebol vem sendo empobrecido ininterruptamente pela globalização e, inevitavelmente, maior mercantilização do jogo, somos todos torcedores de clubes enredados por essa teia de submissão política, refletida em figuras como Ricardo Teixeira e o finado Julio Grondona.

 

Assim, enquanto nos mantemos na balbúrdia doméstica, vemos o tacão coronelista, a despeito dos discursos “modernizantes”, ainda dando o tom nas relações políticas do futebol. É o que aconteceu com o Club Social Deportivo y Cultural la Cuchimarra, campeão de 2013, que, após muito insistir por sua filiação na Associação do Futebol Argentino (AFA), acabou desmobilizando-se.

 

Isso porque após se sagrar octacampeão da liga de Gualeguaychu, filiar-se à federação nacional e tentar subir degraus no futebol argentino era o único caminho a manter todos os seus membros motivados. Porém, por sua evidente afinidade ideológica com o pensamento de esquerda, garantem seus membros, o pleito da equipe jamais foi atendido.

 

Já para quem vive em São Paulo, é até desnecessário comentar o que acontece com os campos de várzea, década após década, e os interesses em torno de sua gestão e “modernização”, como se vê agora, do momento em que se vive uma inexplicável febre pela caríssima grama sintética, ao passo que não há quase nenhuma política séria de ampliação dos espaços públicos de lazer e esporte – isso porque o país se diz “o do futebol” e está em vias de sediar a primeira Olimpíada em solo sul-americano.

 

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O campeonato

 

Dessa vez, a organização da Copa coube ao pessoal do Sangre y Luto, time idealizado após a participação de alguns de seus membros na edição de 2013, quando conheceram essa diferente cena futebolística.

 

A maioria de seus jogadores é vinculada a um dos poucos sindicatos anarquistas de que se tem notícia nos tempos atuais, o Sindicato dos Taxistas de Montevidéu. As cores, como se nota, são o vermelho e o preto.

 

A eles coube conseguir a permissão para levar ao Parque de Las Cañas dezenas de “vagos y atorrantes” das mais diversas localidades. De resto, bastou instalar as próprias barracas e ali passar três dias e três noites, com muita costela, ar puro, perros e banhos no Rio Uruguai.

 

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Para além dos jogos, o que conta é a troca de ideias e experiências políticas e esportivas, provenientes de diferentes contextos, como São Paulo, Rio de Janeiro, Buenos Aires, Mar del Plata, Montevidéu, Santiago e até Nova Iorque – graças ao bravo e solitário representante do “Left Wing Soccer”.

 

Apesar de a globalização trazer a sensação de que estamos todos numa mesma barca, vivendo exatamente o mesmo processo de “desenvolvimento”, basta um encontro desse tipo para que qualquer um se dê conta de que o capitalismo e as relações de mercado avançam a passos diferentes em cada parte do mundo. Para nós, brasileiros, fica a impressão de sermos a grande ponta de lança.

 

No entanto, nada que nos torne mais ou menos vítimas. Um dos destaques da história dessa competição foi o time sede de 2014: o Los Imer, da cidade de Resistência, província do Chaco, norte argentino. De todos os que já foram ao torneio, talvez esses garotos tenham marcada na pele a mais brutal das histórias.

 

Isso porque o Chaco é uma das regiões onde ainda se aguçam diversos conflitos pela terra entre brancos e indígenas, o que, a exemplo do Brasil, é uma das grandes dívidas do kirchnerismo em seu alardeado compromisso com os direitos humanos – de fato, a Argentina dos últimos anos foi o país que mais puniu criminosos da ditadura, o que ainda avança timidamente pela vizinhança, inclusive no Uruguai recém-governado pelo tupamaro Jose “Pepe” Mujica.

 

Tal conflito, tão conhecido por nossas bandas, ceifou a vida da criança indígena Imer Flores, da etnia Qom, homenageada pela equipe chaqueña, que carrega seu nome por onde chuta uma bola.

 

En la cancha

 

Falando um pouco da bola que rolou, o torneio foi o primeiro em pontos corridos, em função do número de times inferior às edições anteriores, o que redundaria em pouquíssimos jogos para quem caísse fora num hipotético formato de dois grupos de três times cada.

 

Das cinco rodadas, quatro ocorreram dentro do parque, que não tinha uma cancha realmente apta para o futebol de campo, com 11 jogadores de cada lado. Assim, decidiu-se jogar com 9, em terreno extremamente acidentado. Nada que tirasse o brilho do encontro.

 

Além do mais, a última rodada reservou um belo presente: os jogos foram realizados no Estádio Municipal de Fray Bentos, habilitado para jogos profissionais e com um belíssimo gramado.

 

Com quatro vitórias e um empate, o Club Social y Deportivo 2 de Mayo (de Mar del Plata) sagrou-se campeão, no entanto, sem sentir o gostinho de devolver a derrota na final de 2012 para o rubro-negro da Lapa paulista, que novamente fez jogo duro e manteve o placar em zero.

 

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Que venham as próximas

 

Como destacado, o que realmente vale nessas versões varzeanas de Copa América é o encontro, a amizade e a troca de diversas informações e vivências. Um deles, acima do esperado. Como destacado em texto do colega Paulo Junior, tivemos a oportunidade de atestar que no futebol profissional também existe dissidência e pensamento revolucionário.

 

Foi marcante a conversa com o ex-zagueiro do Nacional e seleção Diego Jaume, que desancou o atual modelo profissional, contou podres do festejado futebol europeu, onde jogou mais de 10 anos, e criticou o estrelismo e futilidade que permeiam a personalidade até de jogadores anônimos em fase de formação.

 

Um alento para os que frequentemente se desencantam com as posturas daqueles que envergam as camisas dos nossos amados clubes.

 

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Além de Jaume, vale destacar figuras como Diego, que conheceu parte do Autônomos em Montevidéu e apareceu, contra todos os prognósticos, no parque que fica do outro lado do país, além do casal de senhores que acampava fortuitamente por ali e, ao conhecer tão inusitada turba, juntou-se à festa e acompanhou todo o certame – além de terem dado aulas de como se fazer um bom asado.

 

Por completar 10 anos em maio de 2006, o Autônomos lançou sua candidatura de organizador da próxima Copa. Por uma questão geográfica, o sonho é trazê-la a Porto Alegre ou cercanias, a fim de facilitar a vinda dos times dos países vizinhos.

 

Entre bons tragos, risadas e muita carne, reafirmou-se a certeza de que podemos e devemos exigir um esporte que vá além de transformar o torcedor apaixonado em cliente e o clube numa mera caixa registradora, divorciado do calor humano que o futebol propicia como poucas coisas já criadas pela humanidade.

 

Até 2016!

 

Mais:


Diego Jaume não tuitou hoje – Paulo Silva Junior conta a conversa com o ex-zagueiro uruguaio


Times latino-americanos tentam resgatar espírito democrático do futebol em Copa Amadora Alternativa – nosso relato da edição de 2013.

 

Gabriel Brito é jornalista do Correio da Cidadania e colaborador da webrádio Central3, onde este texto foi previamente publicado.

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Última atualização em Segunda, 30 de Março de 2015
 

A publicação deste texto é livre, desde que citada a fonte e o endereço eletrônico da página do Correio da Cidadania




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