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Falência do PT gera instabilidade política Imprimir E-mail
Escrito por Valéria Nader e Gabriel Brito, da Redação   
Segunda, 16 de Março de 2015
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Crise hídrica, elétrica, aumentos de tarifas escorchantes, elevação dos juros, desaceleração econômica e desemprego que já bate à porta. Escândalos de uma corrupção monumental em torno à mais simbólica das empresas públicas brasileiras. Governo de joelhos frente a um Congresso envolvido nas denúncias de corrupção, comandado pelo histórico partido do toma-lá-dá-cá, o PMDB, e frente a uma agenda econômica conservadora. População dividida entre postulações maniqueístas, conduzidas, em um dos polos, pelo que há de mais conservador, retrógrado, tendencioso e fascista em nossa direita e mídia corporativa; e no polo oposto, por um governismo ingênuo, envergonhado ou simplesmente hipócrita.


Ricardo Antunes, sociólogo e professor da Unicamp, com uma linguagem fluida e arguta, ajuda a refletir sobre um país que parece à beira de um literal precipício. Logo no início da entrevista que concedeu ao Correio da Cidadania, não faz rodeios para afirmar que “talvez possamos começar dizendo que o segundo governo Dilma, e quarto do PT, é quase natimorto. De certo modo, é uma manifestação tardia da crise profunda que assolou o país a partir das manifestações de junho de 2013. Fundamentalmente, nada foi equacionado de lá pra cá (...) Quer no espaço da vida cotidiana, quer em bens públicos fundamentais, como água, energia, transporte e saúde, a situação é caótica. A crise econômica devastou o modelo petista”.


As bases econômicas sobre as quais se erigiram os governos petistas, permitindo a estratégica “conciliação de classes”, atendendo aos interesses dos abastados, e apaziguando ao mesmo tempo o andar de baixo, se esvaíram em um mundo em desaceleração econômica. Na arena política, por sua vez,  a ampla e fisiológica base partidária que deu sustentação aos governos petistas, sempre sob o comando do PMDB, é agora um dos “pântanos” em que se afunda a cada dia a presidente Dilma.


“A tragédia, e esse é o traço distintivo, é que, se a Petrobras (e as outras grandes estatais) sempre foi alvo de corrupção, nos últimos 12 anos, ela passou a ser praticada por um partido que se disse de esquerda, que um dia foi de esquerda  (...) O que acontece na Petrobras, e que dá a impressão de ser exclusividade do PT, é o fato de o partido estar em seu quarto mandato. Portanto, o esquema é majoritariamente controlado pelo PT e seus partidos aliados (...)”.


Essa a chave para entender aquilo que poderia surpreender até os críticos de primeira hora, entre os quais Antunes se coloca: a exorbitante quantidade de recursos que o PT recebeu do empresariado nas eleições de 2006, 2010 e, especialmente, 2014, e o “servilismo” dos governos do partido ao sistema financeiro, empreiteiras e agronegócio.


O sociólogo discorre ainda sobre as implicações que a incompetência política e fracasso do governo Dilma podem trazer para o ‘lulismo’ e para o PT. “Hoje, vejo um Lula macambúzio em 2018, de bengala. E a isso ele não vai se sujeitar”, assinala Antunes. Quanto ao cenário, diz que “a situação atual é muito difícil e não vejo alternativas ao PT”.


Prevendo pela frente dias de muita manifestação (“as das direitas e as das esquerdas”) e forte repressão, Antunes é finalmente enfático em afirmar que, nesse momento, um impeachment significaria uma saída da direita.  “É muito claro que se trata de uma articulação ainda mais à direita, desde saudosistas da ditadura até a direita atual. Quem politizou as rebeliões de junho, depois de acabadas, foi a direita. Quem ganhou politicamente foi a direita. Ela fez da campanha contra a corrupção o eixo do movimento. Mesmo sendo tão corrupta quanto quem denuncia (...) E é evidente que essa ‘saída da crise’ cria uma situação onde a direita vai dizer que quem caiu foi a esquerda, não a Dilma. Seria a falência da esquerda”.


A seguir, a entrevista completa.


Correio da Cidadania: Aumentos tarifários, desaceleração econômica, crise hídrica e elétrica, escândalos de corrupção. O que você tem a dizer no geral de um quadro tão devastador para o país, que faz parecer velho o início do segundo mandato de Dilma Rousseff?

 

Ricardo Antunes: Talvez possamos começar dizendo que o segundo governo Dilma, e quarto do PT, é quase natimorto. De certo modo, é uma manifestação tardia da crise profunda que assolou o país a partir das manifestações de junho de 2013. Fundamentalmente, nada foi equacionado de lá pra cá. As crises econômicas, sociais, políticas e valorativas se intensificaram. Os serviços públicos se deterioraram ainda mais. Basta citar dois deles, essenciais.

 

Em primeiro lugar, a desertificação que caracteriza o sistema hidrológico do Brasil, com um colapso das empresas que oferecem água à população, todas elas em grande medida mistas, privatizadas ou, quando públicas, com ideário e modus operandi também privatistas.

 

Na crise da água, o Sudeste vive um colapso que não me recordo de ver algo parecido até onde minha memória vai. Tem a ver com vários governos estaduais, como o PSDB de São Paulo, vários municipais e o federal. Mas revelam, no geral, o descaso com a res publica e, em particular, com o fornecimento de água, que deveria ser gratuito, sob uso comedido, pois deveria ser entendido como um bem precioso.

 

A segunda crise profunda, de dimensões decisivas da vida cotidiana, é a crise de energia. O que se paga de conta de luz hoje é um verdadeiro acinte. É o descalabro da gestão das empresas do setor, em especial nos últimos dois anos, com controle político no sistema de preços, dentro de um universo que também é mais privado do que público. Isto porque tanto os governos do PSDB como os do PT privatizaram o sistema, como no caso do PSDB, e/ou preservaram a privatização, como no caso do PT. O resultado é que as empresas querem lucro à custa da população. Hoje, as pessoas, além do custo da luz, estão pagando o custo do soerguimento das empresas, o que não deveria ser cobrado da população.

 

Isso para não falar do sistema de transporte, em que nada se resolveu. Portanto, quer no espaço da vida cotidiana, quer em bens públicos fundamentais, como água, energia, transporte e saúde, a situação é caótica. A crise econômica devastou o modelo petista (e eu dizia isso em entrevistas na época das rebeliões de junho de 2013).

 

O projeto dos governos Lula e Dilma já tinha ruído e entrado em processo de falência terminal. Acabou aquela ideia de abrir o capital para o cenário internacional, diminuir o tributo dos bancos, aumentar os juros e, paralelamente, incrementar o mercado interno. Esse modelo chegou ao limite. Mais de 30% da população está endividada, os juros são altíssimos, a dependência de qualquer tipo de cartão de crédito (pra não falar de outros financiamentos) é o flagelo dos pobres. Flagelo aparentemente virtual, mas profundamente real. O trabalhador compra um produto no cartão pagando 500 reais e, se atrasa o pagamento dois ou três meses, pensa que paga depois, já que é muito difícil entender a engrenagem dos mecanismos financeiros; e, quando se dá conta, ele está com 1000 ou 1500 reais de dívida. Pra não falar quando não consegue pagar e perde os próprios produtos adquiridos. Trata-se aqui do consumo inflado e depois subtraído dos pobres.

 

Neste quadro, a crise política se exacerbou. Por causa de alguns elementos significativos. O leque de quase 20 partidos com os quais o PT se aliou, para poder governar e garantir as vitórias de Lula e Dilma, tem como sustentáculo o PMDB. Um dia, especialmente o chamado MDB autêntico, teve alguma significação progressista na luta contra a ditadura, em época em que não era possível ter partidos de esquerda, e estavam todos na ilegalidade. Era uma espécie de frente que aglutinava setores moderados e também setores de esquerda, da oposição. Mas não existe o menor rastro desse velho MDB que, ao longo dos anos 80, 90, 2000, crescentemente, se tornou o partido mais escandalosamente comprometido com a política da ordem. Vive da troca negocial, de favores em troca de favores, a ponto de apoiar o candidato à presidência de um partido e a governador de outro partido, assim como secretários, vices etc. de quaisquer outros partidos. Ou seja, a mais escandalosa prática fisiológica. Hoje é igual aos demais partidos à direita do PMDB, como o PP (basta dizer que é o partido do Maluf); e outros partidos menores são puramente de aluguel. Portanto, o PT se aliou, do centro para a direita, com o pântano.

 

E a Dilma, pra usar uma metáfora dura, está atolada na areia movediça do pântano. Está afundando, só aparecendo uma parte do ombro e da cabeça. E quanto mais ela se mexe, mais centímetros ela desce. Ainda no plano desta crise política, ela se viu, primeiro, cindida pela divisão aberta do PMDB, que até então se contentava, para ser comedido, em fazer apenas o “serviço noturno”. Mas a crise do governo é tão profunda que o partido percebeu que o vice Michel Temer, Renan Calheiros e toda a trupe estavam ruindo junto. E tudo se acentuou profundamente no quadro da corrupção da Petrobras, que devastou ainda mais o Estado brasileiro. Qualquer um sabe hoje que deve ter esquemas similares (talvez de menor dimensão, pois de fato a Petrobras é gigantesca) em Itaipu, nos Correios etc.

 

E o trágico desta corrupção (que não é nova, pois, sem dúvida, existia em vários governos anteriores) é que o crescimento exponencial da empresa fez com que ela se tornasse, digamos, vital para a sobrevivência financeira dos partidos em épocas de eleições. Petrobras, Itaipu, Eletrobrás e outras são expressão desse período de expansão da economia com forte peso das estatais. Mas o que acontece na Petrobras, e que dá a impressão de ser exclusividade do PT, é o fato de o partido estar em seu quarto mandato. Portanto, o esquema é majoritariamente controlado pelo PT e seus partidos aliados.

 

Como disse o próprio Paulo Roberto Costa (um dos delatores da Operação Lava Jato), ninguém entra em diretoria importante da Petrobras sem cacife político. Ou seja, a empresa abandonou a gestão pública e se tornou controlada politicamente pelos partidos do poder, a fim de virar uma fonte inesgotável de sucção de recursos para a manutenção do PT no governo.

 

Lembro que, nas eleições de 2006, 2010 e, especialmente, 2014, o PT era o partido que mais recebia recursos do empresariado. Eu ainda ficava instigado com isso, ainda que sempre tenha criticado o servilismo do governo ao empresariado. Está hoje nítido que o PT fez e faz o que o sistema financeiro, empreiteiras, agronegócio e a burguesia industrial, todos muito imbricados e mesclados, determinam.

 

Mas o empresariado, na hora de botar o seu “cacau” nas eleições, também quer um puro sangue do seu esquema. Ter um governo servil como o do Lula foi excepcional, porque ele tem uma dimensão que nenhum governo burguês teve no Brasil nos últimos 40 anos. Foi um governo capaz de controlar os movimentos sociais, populares, radicais, com cooptação e impedimento de avanços de muitas lutas sociais. Enquanto os governos tipicamente burgueses não têm nem um milésimo dessa capacidade.

 

Mas, ainda assim, me surpreendia que a Dilma tivesse em sua fonte de receitas muito mais doações que o PSDB junto ao empresariado. Agora, está evidente. O empresariado doava mais ao PT na medida em que, depois, fazia o saque da Petrobras e outras empresas estatais – que em algum momento virão à tona também. Naturalmente, se o PSDB estivesse no poder, seria a mesma prática, imaginem ainda contando com o DEM na batuta de empresas estatais.  Uma parte muito significativa dos recursos das frações burguesas, especialmente, neste caso, as empreiteiras, por tudo que controlam neste país, era uma retribuição a um esquema monumentalmente amplo na Petrobras, na casa de bilhões. Se o ganho é na casa dos bilhões, tudo bem fazer algumas doações na casa dos muitos milhões. Isso sem falar nas doações estratosféricas dos bancos, que já no dia seguinte das eleições começam a cobrança do investimento feito.

 

Assim se pode entender por que a Dilma recebeu mais recursos que o Aécio. Este recurso era subtraído do Estado depois. Imagina quanto de dinheiro não entra na criação de uma refinaria... Uma parte desse sobrepreço migrava para o esquema de corrupção.

 

Correio da Cidadania: Como vê o governo nesse quadro, no que se refere à postura que tem adotado diante de crises emaranhadas e profundas, além das próprias consequências políticas de tudo isso?

 

Ricardo Antunes: A tragédia, e esse é o traço distintivo, é que, se a Petrobras (e as outras grandes estatais) sempre foi alvo de corrupção, nos últimos 12 anos, ela passou a ser praticada por um partido que se define como de “esquerda”, que nasceu como um partido de esquerda. Foi um setor majoritário da esquerda brasileira que, ao chegar ao poder, foi conivente, drenou, impulsionou, amplificou e lubrificou o esquema da corrupção. Se perguntarem: “e se fosse o PSDB e o DEM no poder?”. Seria  no mínimo o mesmo - veja-se o caso do PSDB no Metrô em São Paulo e as práticas do DEM onde governou, como José Roberto Arruda no DF. Mas não seria praticada por um partido que um dia se disse, e foi, de esquerda. Esta é triste diferença qualitativa.

 

O PT foi fundado em 1980 como partido de esquerda, não resta dúvida. Basta dizer que foi o mais importante partido da classe trabalhadora dos últimos 35 anos no Brasil. Na história brasileira, só se pode encontrar algum similar no Partido Comunista Brasileiro, fundado nos anos 1920. Mas era outro país, outro momento. Se formos voltar àquele momento, era o primeiro salto industrial brasileiro com algum significado; no mundo das artes, o modernismo, uma burguesia apresentando o seu projeto para o país... Aí veio um partido operário pequeno avisando: “estamos fazendo um contraponto operário”. Foi o que fez o PCB na década de 20 no Brasil.

 

Depois, o PCB teve momentos exponenciais. Vale lembrar que, em 1945, o partido teve uma votação muito expressiva. Prestes, se fosse candidato à presidência, teria grande chance de ser eleito. Foi o senador mais votado na Constituinte daquele ano, para se ter ideia. O PCB desenvolveu intensamente seu projeto policlassista, de aliança com amplos setores da burguesia. O PT, em seu passado, com grande dose de razão, sempre criticou o lado conciliador do PCB. Sempre, em suas origens, criticou o reformismo e a conciliação empregados pelo PCB, nos anos 40 e 60, por exemplo. Pois bem, a conciliação do PT sob o governo Lula e Dilma é de corar aquele velho PCB. Não falo aqui do PCB atual, pequeno, mas que tem procurado revisar corajosamente este passado;  falo do PCB do passado que ficaria estupefato com o nível de conciliação, subordinação, sujeição e servilismo atingido pelo PT nos governos Lula e Dilma.

 

E mais: não há nenhuma referência na história da esquerda brasileira de que o PCB tenha metido as patas na corrupção e se atolado nela como faz o PT hoje. Portanto, se o PCB oscilou entre momentos luminosos e outros trágicos, o que o PT vive hoje, na melhor das hipóteses, é a farsa.

 

Assim, qual é a luz no final do túnel para o governo Dilma? Não dá pra saber. Até onde vai a Operação Lava Jato? Vimos que o Janot optou por não sugerir abertura de inquérito para a Dilma e o Aécio. Isso não surpreende ninguém. Se os recursos irrigaram o PT, PMDB, PP e outros, naturalmente migraram para candidatos do PSDB. O nome de Sergio Guerra aparece desde a primeira hora neste escândalo. De certo modo, muitos de seus candidatos que receberam recursos do esquema sob investigação podem estar também comprometidos. Se houver uma devassa dessa República, pode sobrar muito pouca gente no Congresso. O Eduardo Cunha, o santo conservador, o cândido da conservação e do “orgulho hétero”, também vai ter que se explicar agora.

 

Claro, imagina-se que o inquérito enviado pelo Janot tenha sido criterioso e que, ao elencar aqueles onde as suspeitas efetivamente existem, é porque indícios fortes existem contra tantos parlamentares. O Aécio, por exemplo, foi ótimo! Vamos às cenas da tragédia brasileira: “foi uma trama do governo pra envolver meu nome”, disse ele. O mesmo Aécio que sempre defendeu a lisura da justiça que levantou tais dados, o Aécio que defendeu a competência da Polícia Federal pra investigar as provas, o Aécio defensor da correção das ações do MP, agora fala que o governo o envolveu. Portanto, dá pra ter ideia do tamanho da crise política. Profunda, muito profunda.

 

Correio da Cidadania: Como vê Lula, o Lulismo e o Petismo nesse novo cenário do país, especialmente no que se refere à argumentação que têm utilizado para a defesa do governo?

 

 

Ricardo Antunes: O roto e o rasgado. Qual a argumentação? “A crise política é por excelência do governo Dilma”. E Lula foi o seu criador e Dilma, a criatura. A vitória ou fracasso da Dilma maculam ou fortalecem seu criador. Se ela estivesse fazendo governos excelentes, o Lula já estaria com as pontes todas levando à vitória eleitoral em 2018.

 

O fracasso do governo Dilma 1 e, mais acentuadamente, a crise profunda do governo recém-empossado maculam Lula e o PT. E o PT, especialmente Lula, não tem alternativa. Qual teria? Romper com o governo Dilma? Seria jocoso. Até porque a proposta que o Lula faz em público é de a Dilma falar mais com a direita, ceder ainda mais ao PMDB e ao centrão do Congresso. É o traço, o lado getuliano do Lula. Onde tem deus e o diabo, põe o Lula pra conciliar. É o semi-bonaparte da conciliação.

 

Claro que vários setores petistas estão incomodados, militantes autênticos que sequer desconfiavam destas ações. Mas há um problema. Em tais setores, quem consegue ter autonomia frente ao lulismo? O Lula acaba sendo, em última instância, um Tertius. Um polo de cada lado, e ele vem e concilia. Como sempre fez no PT. Quando a coisa fervia nos debates internos do partido, entre a Articulação e as esquerdas do PT, quem conciliava? O Lula. Ele jogava um balde de água quente em todo mundo, todos se aqueciam, se abraçavam e saía uma proposta final, costurada pelo Lula.

 

Assim, com o fracasso do governo Dilma, é um risco enorme falar do futuro político. Portanto, falo do que vejo como razoável para 2018, apesar de faltarem três anos. Hoje, vejo um Lula fragilizadíssimo em 2018, de bengala. E a isso ele não vai se sujeitar. Depois de sair em alta como saiu dos dois governos anteriores, não vai se lançar de novo e tentar salvar um governo no fosso. Também não poderá jogar uma pá de cal no atual governo, porque ele é o responsável por Dilma.

 

Todos nós sabíamos que a Dilma era, politicamente, completamente inexperiente, portanto, incompetente politicamente. Ela não tinha a mais remota experiência política. Não tinha sido nem líder sindical, nem parlamentar, nem governadora... Tinha sido secretária de Governo no Rio Grande do Sul e ministra do governo Lula, enfim, uma gestora. Era e é uma gestora forte, autoritária. Com gestora, a obra anda, entende? “Tem que fazer, tem que fazer”... Métodos autoritários em cima de funcionários públicos que trabalham com ela. Ao final do ano, segundo a imprensa, muitos ministros evitavam ir a Brasília para não ser objeto de condenação pelos erros que cometiam.

 

Tudo isso pra dizer que a incompetência política da Dilma para enfrentar essa crise atual é completa. Ela desprezou o PMDB e agora está cedendo quase tudo a deles. Passou o tempo inteiro de seu primeiro governo sem sequer receber a CUT, o MST, movimentos em geral que lhe davam apoio. Precisou das rebeliões de junho de 2013 pra dizer: “ah, vamos ouvir o MTST, o MPL”. Sequer recebeu  a CUT e o MST, que a apoiavam. Desdenhava-os. Portanto, essa tendência autocrática, personalista, gerencial e durona que pauta a Dilma, cercada de alguns parlamentares incompetentes, cria um núcleo político de governo que não consegue se locomover. E o PMDB está dando um baile. A sorte dela é que a Lava Jato espirrou no Eduardo Cunha e no Renan. Não fosse isso, os dois já estariam puxando seu tapete.

 

A situação atual é muito difícil e não vejo alternativas ao PT. Não adianta sair agora e falar “vamos retomar uma Frente de esquerda pra derrotar...”. Estão brincando. Ficaram 12 anos fazendo a “Frente” com a burguesia financeira-industrial-agronegocial. Não dá pra chegar agora e dizer “vamos formar a Frente Popular”. E o Lula não está mais qualificado para isso. Sinto muito. Não está. Não terá apoio de amplos setores que hoje estão na Conlutas, nas duas Intersindicais, em vários movimentos sociais das periferias, que olham com muito desdém o atual governo, mesmo sabendo que a coisa pode ainda ser pior, vez que a insensibilidade social do tucanato é por demais conhecida da população trabalhadora pobre.

 

Correio da Cidadania: O que pensa especificamente da política econômica que o governo adotou, sob o comando de Joaquim Levy, já sob desditas da presidente da República?

 

Ricardo Antunes: Sujeição completa à hegemonia da burguesia financeira. O governo Dilma, do PT, está na lona. Mas eu não creio - mas é pura intuição o que vou dizer, já que no Brasil não se pode falar o que vai acontecer nos próximos dias - que tal burguesia seja favorável ao impeachment da Dilma. Porque pode abrir uma crise social e política ainda mais profunda que ninguém sabe onde pode terminar. Mesmo aqueles mais à esquerda que não apoiam a Dilma sabem que um golpe favoreceria os setores ainda mais à direita. E aí se amplia o neoliberalismo puro, a sangue frio. Já o PT, como já disse outras vezes, é a variante social-liberal. Muito para o liberalismo, migalhas para o social. Quanto significa o Bolsa Família comparado ao pagamento dos juros da dívida? Basta ver isso. Quanto vai pro Bolsa e quanto, do PIB, se destina ao superávit primário para garantir a remuneração dos lucros financeiros?

 

Exemplo cabal disto: a primeira opção para o Ministério da Fazenda era o Luiz Carlos Trabuco, cujo nome já dizia tudo. Não aceitou e sobrou o Trabuco 2, o Levy. Nomes diretamente colhidos do alto comando dos bancos, que têm como receituário cortar direitos, eliminar conquistas dos assalariados, manter intocáveis os interesses do capital financeiro e, secundariamente, dos grandes setores industriais e do agronegócio.

Aqui, é preciso um parêntese: muitos dizem que o capital financeiro é separado do mundo industrial e do agronegócio. Hoje, a imbricação entre todos é muito profunda, o capital que está de um lado está do outro também. Tão profunda que até o Bolsa Família beneficia o capital financeiro. Os bancos que têm o controle desses recursos ganham em cima do dinheiro do governo, pois a conversão do Bolsa em cartão de crédito beneficia o capital financeiro, seja de banco público (que trabalha com lógica privatista) ou privado, como já demonstrou a professora Sara Granemann da UFRJ.

 

O cenário é esse e, em tal quadro, as políticas de Levy-Dilma (não é só o Levy, pois a Dilma é quem foi eleita com 54 milhões de votos e o nomeou), recessivas, atacam diretamente os direitos do trabalho. Já estão gerando ampliação do desemprego e fortificam posições à direita, que agora exigem  e atuam em favor das terceirizações. A direita já pegou o PL 4330 e quer colocá-lo em votação; e Eduardo Cunha já se comprometeu a fazê-lo. Esse nefasto PL libera a terceirização não só para atividades meio, como também para atividades fim, ou seja, converte a classe trabalhadora a um tipo de escravidão em que todos, no fim das contas, podem ser terceirizados.

 

E todos sabiam que Dilma cederia ainda mais aos imperativos do capital financeiro. Quem acompanha a política em sua interioridade sabia que, na campanha eleitoral, ela se dizia anti-neoliberal, anti-privatização etc. Acabou a eleição, voltamos ao Brasil real e ela tomou todas as mesmas medidas que seriam levadas a cabo pelo Aécio. Qual diferença há entre Levy e Armínio Fraga? São siameses.

 

Correio da Cidadania: Ainda que considere complicada a ideia de impeachment, mesmo para a oposição, acredita que se caminha para algo que se possa chamar de uma crise institucional? E o que resultaria para o país em eventual cenário de impeachent?

 

Ricardo Antunes: Se formos olhar pela epiderme, pelo sentimento das coisas, das ruas, o impeachment está rolando pesado. Mesmo quem não sabe muito das coisas tem falado nisso. Mas há outros elementos complicados. Amplos setores de esquerda (à esquerda do PT) sabem que hoje essa seria uma saída da direita, com claro caráter de golpe. As manifestações de ontem, 15 de março, em inúmeras cidades, foram exemplo da que amplos setores das classes médias conversadoras e de frações do empresariado apoiam o impeachment com claro caráter golpista. É muito claro que se trata de uma articulação ainda mais à direita, desde saudosistas da ditadura até a direita atual.

 

A nossa constatação é angustiante e áspera: quem vem politizando as ressonâncias das rebeliões de junho de 2013, quase dois anos depois, são os vários componentes das direita, que tomam a corrupção para exalar seu ódio ao PT, às esquerdas, aos assalariados, aos pobres, aos negros, aos homosexuais, aos imigrantes etc. etc. Quem vem ganhando politicamente, a partir da crise aberta no governo Dilma, se encontra hoje no campo da direita. Ela fez da campanha contra a corrupção o eixo do movimento.

 

E é evidente que essa “saída da crise” cria uma situação onde a direita vai dizer que quem caiu foi a esquerda, não a Dilma. Seria a falência da esquerda. E é natural que amplos setores de esquerda que fazem oposição a Dilma não assistirão calados a um golpe atribuído à corrupção, mas de fato também contra a esquerda em geral.

 

A título de comparação: lembremos quando Collor foi às ruas para pedir para a população sair de verde e amarelo contra os corruptos e golpistas. A população – especialmente a juventude - saiu de preto e abriu todo aquele espetacular movimento que depôs Collor. Este era uma espécie de governo sem nenhum lastro social forte e nenhum núcleo de organização partidário. Era um aventureiro. Esse lastro o PT tem bastante, com a CUT e vários outros setores sociais que ainda têm vínculos orgânicos com o partido. Eles não aceitariam o golpe, que criaria uma cisão muito grande no país, de consequências imprevisíveis. E muito setores críticos e à esquerda do PT também não aceitariam passivamente esse golpe da direita.

 

E mais, não creio que uma burguesia que está ganhando, governando, dando as cartas, queira correr esse risco incalculável. Minha hipótese, na crise do Mensalão em 2005, é de que as frações dominantes não quiseram derrubar o Lula naquele momento. O episódio do mensalão, em termos de intensidade crítica, era até mais profundo que o atual, ao menos até hoje, porque todos os membros do núcleo duro do governo estavam diretamente envolvidos. Em 2005, Dirceu estava diretamente envolvido, pois era o chefe da Casa Civil. Não é o caso de agora, que é muito mais esparramado, como se os tentáculos alcançassem todos os lados, mas não diretamente o núcleo que está no poder com Dilma.

 

Por outro lado, o impeachment não é fácil pra direita. Porque, se a Lava Jato se ampliar e se estender até a era FHC – o que é o mínimo que se espera -, pega ainda mais o PSDB. Pra chegar no governo de São Paulo, é só dar às investigações sobre o cartel do Metrô, por exemplo,  o mesmo destaque que se dá à crise da Petrobrás

 

Tudo é imprevisível, reitero. Mas parece que os setores dominantes, as altas frações burguesas, preferem deixar a Dilma na lona pra ganhar em 2018, como imaginaram que seria 2006: deixariam o Lula na lona, pedindo água, em vez de nocauteá-lo. E não foi por acaso que a Dilma ganhou as eleições com apoio do Nordeste, com voto popular massivo. O povão falou: “esse governo é ruim, mas o outro que pode subir é ainda pior, então vamos ficar com Dilma, a alternativa menos pior”. Trata-se, então, de uma crise muito profunda.

 

Por último, volto a frisar que ninguém sabe onde a operação Lava Jato e os seus desdobramentos judiciais vão parar. Obviamente, o que posso dizer hoje baseia-se em informações que temos disponíveis na imprensa. Amanhã, ou daqui a seis meses, tudo pode ser um pouco diferente. E há um vazio de alternativas à esquerda, entende?

 

Aqui vale o paralelo com o caso da Grécia. Veja o SYRIZA. Tornou-se um partido vitorioso na Grécia depois de uma devastação neoliberal e financeira – via troika europeia – que quase aniquilou, literal e fisicamente, parcelas da classe trabalhadora grega, em particular trabalhadores públicos, mas também privados, que perderam seus empregos, salários e previdências. Isso fez com que as tensões e alternativas fossem canalizadas para um novo partido de esquerda, o SYRIZA, que disse “nós não seremos mais coniventes com isso”. Nós ainda não temos nada parecido no Brasil.

 

Correio da Cidadania: Ou seja, nenhum projeto realmente alternativo alcança o imaginário do grande público.

 

Ricardo Antunes: Tivemos uma eleição em que uma figura da esquerda saiu vencedora. Não tenho dúvidas de dizer que a Luciana Genro saiu vitoriosa, saiu como uma liderança de esquerda junto à juventude que nenhum dos partidos de esquerda conseguiu nestas eleições, com uma visibilidade pública maior. Teve 1,6 milhão de votos e honrou os mais de 800 mil votos que o Plínio de Arruda Sampaio teve em 2010. A Luciana quase duplicou esse contingente de votação numa campanha corajosa, assim como a do Plínio. Nós vemos que o PSTU tem boa inserção nos sindicatos e alguns setores populares. Nós temos o PCB que tenta se reorganizar e vem conseguindo fazer até a autocrítica positiva dos seus limites do passado, especialmente das práticas conciliadoras que tinha.

 

Mas ainda somos muito minoritários, muito separados, desunidos, incapazes de soldar laços mais profundos com os amplos movimentos sociais das periferias que estão em clara oposição, pela esquerda, ao governo Dilma. Bastaria dizer que não conseguimos nos entender nem mesmo numa campanha eleitoral onde não tínhamos a menor chance de ganhar, mas poderíamos marcar uma posição alternativa e começar a incentivar um novo movimento social e político de base, com uma formulação e com propostas à esquerda. Infelizmente, não conseguimos fazer isso.

 

Há rebelião popular, o país tem hoje greve de professores, como a espetacular greve dos professores do Paraná, que merece ser destacada. Há uma resistência heroica e hercúlea dos professores do ensino básico, secundário e superior, mostrando o desastre que é o governo tucano no Paraná. Temos também greves na indústria automobilística, em várias partes. Há poucas semanas tivemos algumas, começando pela Volkswagen, que foi decisiva para impedir o começo de uma demissão em massa. E teve também a greve dos metalúrgicos em São José dos Campos.

 

Agora, vemos as manifestações do caminhoneiros, que são muito diferenciadas: caminhoneiro é uma categoria que precisa ser bastante estudada, pois abrange desde grandes empresas até os caminhoneiros autônomos, uma espécie de proprietários de si mesmos e quase-proletários de si mesmos - ou seja, aquele caminhoneiro que só tem o seu próprio caminhão, paga caro pelo diesel e pelo pedágio e trabalha intensamente para sobreviver. Assim, é preciso separar um pouco o joio do trigo.

 

Mas a verdade é que há descontentamento em toda parte. O MTST tem, a toda hora, feito manifestações importantes. Inclusive, imagine o seguinte: tivemos agora, desde o carnaval, chuvas mais torrenciais, mas, infelizmente, tudo indica que no próximo mês, em abril, a coisa para e vem a seca novamente. A periferia está sem água há um ano. Todos nós temos depoimentos de trabalhadores das periferias que ficam 10 ou 12 dias sem uma gota de água. Isso tem um limite. Até onde a população vai suportar pagar a conta de luz? Essa tarifa explodiu, todo dia você ouve falar que tem  bandeira vermelha e mais aumento. Aumento não de 2%, mas de 28,5%, na média.

 

Isso tudo tem um limite. Acho que estão brincando com fogo, por muito menos houve as explosões de 2013.

 

Correio da Cidadania: Você mencionou as manifestações de 15 de março. Acha que podem de fato se tornar uma ação com traços golpistas e, ao mesmo tempo, com forte eco social?

 

Ricardo Antunes: Certamente, essas manifestações têm claro caráter golpista. Alguns setores da direita que se engajaram de corpo e alma na candidatura do Aécio, um homem de direita, não assimilaram a derrota. Setores da classe média, especialmente do Sudeste, que odeiam migrantes nordestinos, não gostam dos homens e mulheres negros -  gostam mesmo é do mundo dos shopping centers, do seu cachorrinho que come filé mignon. Não creio que tenham densidade popular, assalariada, das periferias.

 

Curiosamente, o governo Dilma, que tanto cultuou a falsa ideia da “criação de uma ampla e fictícia classe média”, está sendo fustigada duramente por amplos setores da velha classe média, conservadora, tradicionalista, seguidora dos ideários das direitas, estejam elas no espectro liberal-conservador ou, no outro extremo, nas odes fascistas e de extrema direita que se ampliam também no Brasil.

 

Mas como a crise social é profunda, é preciso tomar atenção  para o que eu disse anteriormente: essa extrema-direita vem politizando de modo perigosamente conservador, e até mesmo fascista (veja-se o movimento que defende a volta dos militares). Estes setores de direita saíram do calabouço e estão cada vez mais agressivos.

 

Não falo aqui do legítimo descontentamento em relação ao governo Dilma, mas daqueles setores que querem a direita no poder, a qualquer preço.

 

Por certo, a distância entre a vida institucional e  o povo nas ruas é brutal. O descontentamento com as dimensões e repercussões sociais da crise é profundo: aumento do custo de vida, mais desemprego, trabalhadores pagando sozinho o ônus da crise sobre a qual não têm a menor responsabilidade e culpa.

 

No plano institucional, o parlamento tem de ser repensado. Faz sentido ter Câmara e Senado com a conformação elitista e excludente que ambas as casas têm hoje no Brasil? Faz sentido um mandato de oito anos para o Senado? O Congresso, que deveria ser a caixa de ressonância das ruas, é de fato a caixa de ressonância dos bancos, do agronegócio, dos grandes setores industriais e do pensamento conservador que se expande em muitos setores, como na religiosidade ultraconservadora, que também odeia os homossexuais, os negros.

 

Fenômeno  que não é exclusivo do Brasil. Vimos há pouco em Paris um bando de racistas ingleses impedirem a entrada de um negro francês no metrô. Ou seja, estamos em um cenário social bem difícil. Nacional e internacional.

 

Correio da Cidadania: Vamos supor que, em médio prazo, a ideia de impeachment arrefeça e a Dilma tenha os quatro anos de mandato relativamente controlados. Como você imagina esse mandato?

 

Ricardo Antunes: Mais ou menos como o mandato do Sarney (1985-1989). Empurrando com a barriga, ainda mais desfigurado, com muita manifestação social, muita manifestação popular, muita repressão.

 

O PT no governo vai mostrar que reprime como os outros. Vamos ter muita repressão, muito descontentamento, muita rebelião e mortes. Porque, quando a população da periferia sai para se manifestar, é assim. Houve, meses atrás, uma rebelião pela água em Itu, no interior de São Paulo. Uma rebelião popular, pois como se vive sem água? Como se vive se sua conta de luz custa 200 reais e a pessoa só ganha 800 reais por mês? Ela não vai pagar a conta de luz, daí vem uma empresa e corta a luz da periferia. Como  seria viver com falta diária de luz e água? Quer dizer, esses são componentes que dizem respeito a dimensões cruciais da vida cotidiana, e isso é diferente de uma revolta contra a corrupção. Quando a periferia se rebela por causa do preço dos alimentos, da água, da luz, o adensamento social é de outra amplitude.

 

E a coisa é tão complicada que, na hipótese de uma queda da Dilma, assumiria o PMDB, que é parte decisiva e integral desta tragédia. O vice? Na falta desse, o presidente do PMDB na Câmara? O PMDB há décadas é um partido todo desfigurado. Ele vive da práxis do “é dando que se recebe”. Seria, nesta hipótese hoje não plausível, trocar o ruim pelo muito pior.

 

É possível, por outro lado, uma retomada de envergadura da Dilma? Em meio a uma crise econômica, política e social profunda, a opção que ela fez foi por uma política econômica destrutiva, financista e antissocial. O PT já está lidando com descontentamentos internos. A CUT, por mais governista que seja sua política– afinal, ela é uma irmã do PT –, também tem suas bases e começa a sentir a pressão de baixo. E enquanto a CUT não faz oposição a Dilma, a Força Sindical está deitando e rolando. A UGT também. É um quadro muito difícil.

 

Correio da Cidadania: Diante desse quadro, e pegando como exemplo a greve dos servidores públicos do Paraná, você vê uma brecha para algo como um novo junho de 2013?

 

Ricardo Antunes: Junho de 2013 não foi uma rebelião das esquerdas. Foi uma rebelião social e popular impulsionada em um primeiro momento por uma combinação muito feliz: movimentos rebeldes de juventude, como o Passe Livre, somados a um descontentamento popular muito amplo, contando também com grupamentos sociais de esquerda, especialmente da juventude. Tal confluência sofreu uma repressão policial profunda e explodiu o país.

 

Hoje há muito mais ingredientes: há greve dos professores, dos funcionários públicos, trabalhadores da saúde. Veja bem o exemplo grego. Quando o receituário neoliberal financista e destrutivo vem mais pesado, é devastador em relação aos direitos sociais do trabalho, e arrebenta o funcionalismo público. E o funcionalismo público tornou-se uma categoria muito politizada, no sentido de que suas reivindicações e suas lutas rapidamente se tornam confrontação. O Paraná é exemplo de um momento mais agudo, mas há vários outros.

 

Quantas categorias de funcionários públicos estão em greve hoje? Centenas. Os setores operário, metalúrgico e industriais em geral, apoiando mais ou menos o governo Dilma, mais ou menos descontentes, não vão aceitar cortes ao perceberem que o país está caindo em cima deles e só as classes trabalhadoras pagam o pato. A juventude também.

 

O cenário do qual podemos ter certeza, daqui pra frente, é de que teremos manifestações claramente diferenciadas: as manifestações das direitas e as das esquerdas. O desafio é: quem vai conseguir ter a simpatia popular? Quem vai conseguir dizer aquilo que toca a concretude da população trabalhadora pobre do Brasil? Se olharmos para a Revolução Francesa, sob o lema “igualdade, liberdade e fraternidade”, dizia muito respeito aos sans cullotes, aos pobres, porque as riquezas ficavam entre a aristocracia e o clero. Na Revolução Russa de 1917, o lema era “pão, paz e liberdade”, e tocava o cotidiano do povo russo porque ele padecia de fome, os filhos dos pobres morriam nas guerras – os ricos não punham os seus filhos pra lutar nas guerras – e não se suportava mais o regime czarista autocrático. Dessa forma, houve a rebelião popular que foi a Revolução de Outubro.

 

Com estes exemplos não estou dizendo que estamos numa situação revolucionária no Brasil, nada disso, mas outra coisa: o descontentamento ocorre quando se começa a tocar nos pontos que tornam os carecimentos, as necessidades e o sofrimento insuportáveis. E nós estamos muito perto disso. É sobre este cenário que a esquerda tem que refletir. As direitas já colocaram, ontem, no 15 de março, suas forças nas ruas. Estão aguerridas e excitadas.

 

Correio da Cidadania: Finalmente, como você correlaciona o que temos vivido no Brasil nos últimos meses com a América Latina, principalmente com as experiências argentina e venezuelana, que estão sob fortes tensões sociais, inclusive com seus presidentes também sob ameaça?

 

Ricardo Antunes: Primeiro, precisamos trabalhar com bastante cuidado. Em dois ou três níveis. Em primeiro plano: há uma reorganização da direita em escala latino-americana, até porque essa reorganização da direita é mundial.

 

Segundo ponto: a Venezuela, a Argentina e o Brasil são três realidades muito diferentes. Por exemplo, Brasil e Argentina não têm um governo minimamente próximo do que foi o governo Chávez na Venezuela, que tomou medidas profundas de reforma do país. Desmontou o judiciário oligárquico, desmontou o sistema bipartidário oligárquico, desmontou ou tentou desmontar – ainda não sabemos –, o exército sub-imperialista. Tudo leva a crer que o exército sob Chávez foi bastante modificado, mas não sabemos em que medida e dimensão. E nós, que somos da América Latina, nunca podemos nos esquecer do papel que o exército tem no aparato repressivo de Estado.

 

Enfim, não há nenhuma similaridade profunda entre o governo Dilma e o governo Maduro, nem entre Dilma e Cristina Kirchner, ainda que aqui a distância seja menor. A revolução bolivariana procurou tocar em alguns pontos nefrálgicos do domínio oligárquico na Venezuela. Kirchner, e ainda mais Dilma, passam muito longe disso.

 

O caso da Venezuela é um processo complexíssimo, porque é uma “revolução” nos marcos da institucionalidade ou, por outra perspectiva, uma tentativa de avançar num processo de institucionalidade revolucionária. É um quadro complicado e difícil, que buscou, e ainda busca, um caminho alternativo. Nada assemelhado com o que Dilma e o PT fizeram em seus governos anteriores.

 

A Venezuela tenta um caminho alternativo, mas a morte do Hugo Chávez foi uma tragédia que, ao mesmo tempo, demonstrou uma das suas principais fraquezas. A esquerda latino-americana muitas vezes depende do seu líder e seu líder nunca é eterno. Este é um problema grave da América Latina: sempre depender de uma liderança como condutora de uma revolução, mesmo quando essa revolução tem alta participação popular, como foi o caso em Cuba. Já na Venezuela, não houve uma revolução, o que acontece é um processo de transformação profunda a partir de um processo eleitoral que resultou na vitória de Chaves.

 

 

Valéria Nader, jornalista e economista, é editora do Correio da Cidadania; Gabriel Brito é jornalista.

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Última atualização em Terça, 13 de Outubro de 2015
 

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