Netanyahu prega a guerra

 

 

Na sua retumbante aparição no Congresso americano, o primeiro-ministro de Israel deixou claro que sua solução para a questão nuclear iraniana é muito simples: guerra.

 

Todos os argumentos que ele usou procuraram provar que um acordo pacífico com Teerã não daria certo. Na certa.

 

Primeiro ele afirmou que sendo o próprio regime iraniano inconfiável, qualquer acerto que o deixasse com capacidade nuclear não seria respeitado.

 

Quem contesta a premissa dessa preocupação é, curiosamente, o ex-chefe do Mossad, Meir Dagan, que, em 2013, declarou: “O regime do Irã é muito racional”. Netanyahu não é muito digno de crédito. Lembro que, em 1993, ele jurou que os iranianos  produziriam uma bomba nuclear até 1999. E, em 2012, estipulou esse prazo para 2013.

 

Até agora suas profecias não se concretizaram.

 

Mas, ainda que os aiatolás fossem totalmente falsos e irresponsáveis, caso decidissem violar o acordo, seriam pegos em flagrante pela vigilância da Agência Internacional de Energia Atômica (IAEA), que não é de brincadeira.

 

O monitoramento intrusivo da IAEA já é ponto pacífico entre as partes nas negociações do acordo.

 

Antecipando essa objeção, o dogmático Bibi lembrou que os iranianos poderiam burlar o Ocidente desligando as câmeras de segurança da IAEA, que se espalham pelas  instalações nucleares.

 

É verdade, mas um ato tão insidioso seria facilmente detectado e o Irã sofreria as consequências.

 

O seguinte ataque foi contra o prazo de vigência das restrições ao programa nuclear.

 

10 anos na História não é nada, disse o primeiro-ministro, logo acabam e aí os iranianos sem demora se lançariam à fabricação da fatídica bomba.

 

Bola fora outra vez! Sendo signatário do Tratado de Não-Proliferação Nuclear e tendo se disposto a aceitar os Protocolos Adicionais, o Irã fica sujeito às inspeções intrusivas mesmo depois dos 10 anos.

 

De qualquer modo, o Irã precisaria de ao menos alguns meses para enriquecer urânio em quantidade suficiente para uma bomba. E mais de um ano no desenvolvimento e testes de um sistema de lançamento do engenho.

 

Isso no mínimo. Al Vaez, analista sênior do International Crisis Group, calcula alguns anos somente para o enriquecimento.

 

Tempo mais do que suficiente para que o monitoramento da IAEA, além da observação minuciosa dos satélites americanos, descobrissem. E para que os EUA e a Europa lançassem novas sanções, ou mesmo bombas, pondo um ponto final na tentativa.

 

Reagindo às críticas do israelense, Obama ponderou que, quanto à questão principal, como evitar que o Irã consiga ter uma bomba nuclear, o primeiro-ministro não ofereceu nenhuma alternativa.

 

Como não?

 

Netanyahu propôs sim: o Irã deveria jogar no lixo todas as instalações do seu programa nuclear, além de  renunciar à produção de mísseis balísticos.

 

Não era exatamente um acordo, mais propriamente uma rendição incondicional.

 

Claro, Obama considerou inaceitável. Nunca que seus parceiros europeus, a Rússia e a China, topariam.

 

Já que o acordo nuclear que se desenha é inaceitável por Israel e a alternativa de Netanyhau é, digamos, absurda, em que ficamos?

 

Só resta bombardear o Irã, reduzindo a zero seu programa nuclear.

 

Nos últimos anos, o líder israelense já ameaçou várias vezes apelar para esse recurso.

 

Não foi em frente devido à oposição de Obama e de personalidades israelenses de destaque como o general Benny Gantz, ex-comandante das forças armadas do país. Em recente entrevista, ele informou que se opôs às propostas do governo Netanyahu de atacar o Irã.

 

No rocambolesco discurso de Washington, o primeiro-ministro afirmou que Israel enfrentaria o Irã, sozinho se preciso, mas contava com o apoio garantido do querido Tio Sam.

 

O próprio Obama, em vários momentos, declarou que o acordo era necessário, do contrário haveria guerra.

 

Coisa que ele não quer de jeito nenhum.

 

Daí sua irritação com a ousada ação do israelense, vindo atacar na própria capital do presidente uma posição fundamental da sua política.

 

Netanyahu já se atritou com Obama – e não foram poucas vezes –, mas desta vez foi demais.

 

A Casa Branca já deixou bem claro que cabe a ele reparar a rachadura que se abriu entre seu governo e os EUA, antes que vire um abismo.

 

Que pode acontecer caso Netanyahu acabe cumprindo suas ameaças de bombardear o Irã para evitar o acordo nuclear.

 

Aí Obama teria de escolher entre atender ao apelo fatal de Israel ou ficar fora e enfrentar a enorme força desse país nos EUA.

 

 

Luiz Eça é jornalista.

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