Acampamento Dom Tomás Balduíno: cadê o Governo dos Trabalhadores?

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Estamos na iminência de um novo Parque Oeste Industrial, de uma nova tragédia anunciada. O nosso Judiciário é total e descaradamente atrelado aos interesses econômicos dos poderosos. O juiz da Comarca de Corumbá de Goiás, Levine Raja Gabalha Artiaga - que deu a liminar de despejo -, e o desembargador do Tribunal de Justiça de Goiás, Marcos da Costa Ferreira - que dia 2 (segunda-feira) manteve a liminar -, são um exemplo típico desse atrelamento. A Lei está acima da Vida. A Justiça é injusta e viola permanentemente os Direitos Humanos fundamentais, como o Direito à Terra, o Direito à Moradia e o Direito ao Trabalho, que - diz o Papa Francisco - são Direitos Sagrados para todos e para todas.

 

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Pergunto: cadê o Governo Federal dos Trabalhadores/as? Por que o governo não desapropria os latifúndios improdutivos para fins de uma verdadeira Reforma Agrária Popular? Por que é tão omisso e covarde? Tudo - inclusive a desavergonhada falta de Ética - é justificado em nome da governabilidade. Que governabilidade é essa? O que os Trabalhadores/as querem é a governabilidade popular, que abre caminhos para uma mudança política estrutural e um novo modelo de sociedade, e não a governabilidade capitalista neoliberal, que serve para fortalecer o sistema dominante.

 

O caso do senador Eunício de Oliveira é paradigmático. Existem graves denúncias sobre a maneira como o senhor Eunício adquiriu suas pretensas propriedades (incluindo a Fazenda Santa Mônica, parcialmente ocupada pelos Sem-Terra), sobre a maneira como “se livrou” dos pequenos proprietários, sobre a maneira como adquiriu a documentação das propriedades, sobre a maneira como sonegou os impostos, e outras.

 

Diante de tudo isso, o que nós temos é o silêncio absoluto do governo federal. Inclusive - conforme me contaram -, numa reunião de negociação, um representante do Executivo deu a entender claramente que o governo não quer briga com o senador. Quanta omissão! Quanta mesquinhez! Quanta podridão!

 

Presidenta Dilma, deixe de ser covarde! Seja mulher! Honre o seu passado! O governo federal tem a obrigação moral (se é que ainda sabe o que é obrigação moral) de averiguar as denúncias contra o senhor Eunício e - se comprovadas - de processar, julgar e condenar o senador. Se o governo não fizer isso, torna-se conivente com a criminalidade. E quem é conivente com a criminalidade, é também criminoso. Chega de tanta maracutaia e de tanta sem-vergonhice!

 

O nosso total apoio e a nossa irrestrita solidariedade aos Sem-Terra, ocupantes do Acampamento Dom Tomás Balduíno. Irmãos e irmãs, como dizia o próprio Dom Tomás em outra situação semelhante, “eu só posso abençoar a resistência de vocês”. Deus está do lado de vocês e os responsáveis por um eventual despejo violento lembrem-se que, combatendo contra vocês, estarão combatendo contra Deus. E combater contra Deus vai ficar muito caro. Deus é justo e está sempre do lado dos injustiçados.

 

Apesar de tudo, nessas alturas dos acontecimentos, ainda espero que o governador de Goiás, Marconi Perillog e a presidenta Dilma Rousseff reflitam e coloquem a mão na consciência antes de cometer mais uma barbárie contra cerca de três mil e quinhentas famílias de trabalhadores e trabalhadoras. O governador e a presidenta têm a autoridade de - antes de cumprir a liminar de despejo - estipular um prazo razoável para que se busque uma solução através do diálogo e dentro de critérios de justiça.

 

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Faço um último apelos aos policiais e aos seus comandantes que - se não prevalecer o bom senso - serão os executores do despejo dos ocupantes do Acampamento Dom Tomás Balduíno: em nome da “objeção de consciência” (que é praticada em muitos países do mundo inteiro), desobedeçam. Sigam o exemplo heroico daquele trabalhador que, dirigindo um trator, se negou a derrubar o barraco de um outro trabalhador e preferiu ser preso.

 

O próprio Jesus de Nazaré - em sua época - praticou muitas vezes a desobediência civil e religiosa para defender a verdade e a justiça.

 

Diante da proibição do Sinédrio de ensinar em nome de Jesus, Pedro e os outros apóstolos responderam: “é preciso obedecer antes a Deus do que aos homens” (At 5, 29). É isso o que nós devemos fazer no caso do Acampamento Dom Tomás Balduíno e em outros casos semelhantes! Desapropriação da Fazenda Santa Mônica, já! Reforma Agrária Popular, já!

 

Frei Marcos Sassatelli, frade dominicano, doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP), é professor aposentado de Filosofia da UFG. E-mail: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.

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