Paraná: uma vitória que é apenas o começo

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Certamente, o dia 12 de fevereiro de 2015 entrará para a história da política no Paraná. A pressão popular fez o governo estadual recuar do seu “pacote de maldades”.

 

Desde cedo, os manifestantes trancaram (com piquetes) os nove portões que dão acesso à Assembleia Legislativa do Paraná (ALEP) e ao Tribunal de Justiça (TJ), prédio ao lado que também dá acesso para a Assembleia. Resistimos ao sol e a um número incrível de boatos, que davam conta que o Batalhão de Choque estava chegando ou que a sessão, convocada para as 14h30, aconteceria em outro lugar.

 

A partir das 12h, começaram a chegar os desembargadores e juízes que trabalham no TJ. Para que seus carros pudessem passar, os “piqueteiros” pediam que os vidros fossem abaixados e que os bagageiros fossem abertos, para garantir que nenhum deputado estivesse entrando.

 

Logo após as 14h30, uma cena cinematográfica, digna de Hollywood, aconteceu: um camburão do Batalhão de Choque trouxe os deputados da base aliada do governador para outro canto, onde não havia piquete. Lá, policiais militares, com alicates imensos, abriram um buraco na grade e abriram passagem para os deputados. Uma cena lamentável!

 

A derrota parecia próxima. Muitos já começaram a aceitar. Mas não desistimos. Voltamos a tentar entrar na ALEP, buscando acessar o restaurante/lanchonete onde aconteceria a votação. Havia várias linhas de PMs, incluindo BOPE e outros operativos especiais. Mas eles não foram suficientes: as linhas foram derrubadas uma a uma, quase como num jogo de dominó. Mesmo as bombas e balas de borracha não detiveram o movimento.

 

Com mais de 20.000 pessoas ocupando novamente o pátio da ALEP e com um destacamento indo rumo ao restaurante (não foi possível chegar lá porque havia uma tropa em frente à porta que dava acesso), a sessão foi suspensa por 15 minutos. Os vídeos desse momento mostram a cara de medo dos deputados. Logo após esses 15 minutos, a sessão foi definitivamente suspensa. Era nossa primeira vitória.

 

Neste momento, a última linha de policiais que garantia o isolamento entre o prédio onde estavam os deputados e a saída pelo portão arrebentado acabou por cair, e aí o movimento cercou o prédio, impedindo que qualquer deputado saísse. Os gritos vão marcar os presentes por muitos anos: “bando de ladrão, vai sair de camburão”.

 

Foi então que tivemos uma notícia ainda melhor: o governador Beto Richa (PSDB), “por conta da pressão do movimento e para garantir a integridade física dos deputados”, retirou os projetos da Assembleia.

 

Depois, na imprensa, o líder do governo, deputado Romanelli (PMDB), disse que nunca mais vai pedir que um projeto tramite em “comissão geral”. Por sua vez, Beto Richa acusou os grevistas de serem massa de manobra e de que havia “baderneiros” infiltrados entre os professores e demais servidores. Tentou fingir que não havia sido DERROTADO.

 

O fato é que nós vencemos. Mostramos que a pressão popular é muito mais forte do que qualquer base aliada ou que qualquer político reeleito em primeiro turno.

 

Tiramos o “bode da sala”. Garantimos que não haverá retrocesso. Mas a greve continua, porque ainda há muito a avançar: recontratação dos trabalhadores temporários demitidos, pagamento do adicional de 1/3 de férias, aumento na GAS (Gratificação por Atividade na Saúde), reestruturação das universidades estaduais, realização de concurso público, entre outras pautas.

 

Nós encurralamos o governo. O movimento deve seguir o pressionando, através da CPI do “orçamento que sumiu” e de novas mobilizações, até que Beto Richa caia, porque ele não tem mais condição de governar.

 

Parabéns a todos e todas que estavam lá, que apoiaram das suas cidades, nas redes sociais. Essa vitória é de todos nós! Sigamos fortes, por nossos direitos, por nosso futuro!

 

 

Leia também:

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Bernardo Pilotto, sociólogo e técnico-administrativo da UFPR, foi candidato a governador do Paraná em 2014 pelo PSOL.

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