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Terrorismo de Estado Imprimir E-mail
Escrito por Frei Betto   
Sexta, 27 de Fevereiro de 2015
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Nada mais cínica do que a comissão de frente da Marcha pela Paz em Paris, a 11 de janeiro, contra o atentado terrorista ao “Charlie Hebdo” e ao supermercado judaico.

 

Ali estavam, de braços dados, os representantes do terrorismo de Estado, como o presidente da França, país que vendeu armas aos sunitas que combatiam o governo da Síria, como também fizeram os EUA e o Reino Unido, e que, agora, são obrigados a engolir o fato de os combatentes antissírios terem se transformado no exército do Estado Islâmico.

 

O ataque terrorista ao jornal “Charlie Hebdo” não foi apenas um gesto tresloucado de dois jovens franceses de fé muçulmana. Ele se origina em um dos últimos capítulos da Guerra Fria: a ocupação do Afeganistão pelos soviéticos (1979-1989).

 

Zbigniew Brzezinsky, responsável pela Segurança Nacional dos EUA na gestão Jimmy Carter, viu na ocupação soviética excelente oportunidade de colocar em prática seu diabólico plano para rechaçá-la e instalar um governo pró-EUA: incrementar o fanatismo religioso contra os “comunistas ateus”.

 

Havia alternativas, como grupos nacionalistas afegãos, laicos, que se opunham a Moscou. Porém, a Casa Branca preferiu chocar o ovo da serpente e patrocinar os grupos fundamentalistas reunidos na Aliança Islâmica do Mujahedin (combatente) Afegão, que reagia indignada aos propósitos da infiel modernização soviética, como permitir às meninas acesso à escola...

 

Agentes da CIA passaram a incentivar a jihad (guerra santa) contra os soviéticos, de modo a expulsar os “comunistas ateus” e levar ao poder um governo aliado dos EUA.

 

George Bush pai era, desde os anos 60, amigo íntimo de um saudita do ramo da construção: Muhammad Bin Laden, pai de Osama. Após o Afeganistão ser invadido pelos russos, ele propôs ao amigo que seu filho trabalhasse para a CIA, na Arábia Saudita, disfarçado de monitor da ONG Blessed Relief. Logo, o jovem Osama, de 23 anos, foi transferido para Cabul, entusiasmado com a jihad financiada pelos EUA. Através de sua ONG, atraiu 4 mil voluntários sauditas que, no Afeganistão, foram incorporados à Aliança Islâmica – berço do Taliban e, a médio prazo, do Estado Islâmico.

 

A queda do Muro de Berlim e o esfacelamento da União Soviética apressaram a saída das tropas de Moscou do Afeganistão. Porém, os 4 mil voluntários sauditas, ao retornarem a seu país de origem, já não se readaptaram à vida civil. Sem formação política, haviam sido transformados em “máquinas de matar”.

 

O rei Fahd ainda tentou cooptar o jovem rebelde Osama Bin Laden. Nomeou-o conselheiro real. Mas ele retornara encantado com a jihad, obcecado em combater os infiéis. No ano seguinte, foi expulso da Arábia Saudita. E em 1996 declarou a jihad contra os EUA.

 

Os atos terroristas contra o “Charlie Hebdo” e o supermercado judaico resultaram da política equivocada dos EUA e da Europa Ocidental no Oriente Médio.

 

 

Frei Betto é escritor, autor de “Fome de Deus” (Paralela), entre outros livros.

Website: http://www.freibetto.org/

Twitter:@freibetto.

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