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O roubo da verdade Imprimir E-mail
Escrito por Fernando Moyano, de Montevidéu para o Correio da Cidadania   
Sexta, 27 de Fevereiro de 2015
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“Que grande é este detetive! Poderá ser um pouco lento para encontrar uma pequenez tal como um elefante extraviado, poderá lhe dar comida durante todo um mês e dormir ao lado de seu putrefato esqueleto durante três semanas, mas não o encontrará ao final... se é que pode conseguir que os mesmos que o induziram a seus erros o indiquem o lugar.” - Mark Twain, “O roubo do elefante branco”.


Tabaré Vázquez, eleito pela segunda vez presidente do Uruguai, convocou a formação de uma “Comissão da Verdade” para encontrar de verdade os desaparecidos durante a ditadura militar uruguaia – que durou de 1973 a 1985 –, a verdade sobre suas desaparições e os prováveis culpados de verdade.

 

Se essa coisa não fosse tão trágica e vergonhosa, poderia nos arrancar risadas. Devo ser uma pessoa muito insensível, porque a primeira coisa que me veio à mente foi o conto de Mark Twain, O roubo do elefante branco. E vou ter o imperdoável mau gosto de começar resumindo esta história.

 

O rei de Siam decide presentear um elefante branco à rainha Victória da Inglaterra e um funcionário de relações exteriores inglês é o responsável pela entrega do presente. Ao passar por Nova York, o elefante desaparece.

 

Um detetive ianque, o “Inspetor Blunt” (que em inglês significa maçante, obtuso e, às vezes, também cândido e chato) se encarrega da investigação e começa fazendo uma ficha detalhada do elefante: lugar de nascimento, filiação, medidas, traços faciais, marcas corporais, hábitos alimentares, de comportamento etc. Um corpo de detetives percorre todo o território norte-americano em busca do elefante e manda telegramas dos confins daquele país, assegurando que estão seguindo importantes pistas e em questão de horas cada um encontrará, seguramente, o elefante.

 

No final, Blunt propõe oferecer uma recompensa de 100 mil dólares e reparti-la com os ladrões, uma vez que é usual nesses casos que a metade se reparta entre os detetives. Não vou contar toda a história, ponho ao final um link para qualquer um que queira ler o conto completo, mas não posso resistir à vontade de reproduzir a mensagem cifrada que Blunt publica na imprensa para propor a negociação.

 

A tática dá seus frutos, o cadáver hediondo do elefante é encontrado no fundo do sótão da chefia da polícia de Nova York, onde os policiais vão dormir ou socializar com os delinquentes. Os detetives repartem a parte que os toca e o pobre funcionário fica arruinado por haver desembolsado o dinheiro da recompensa e, sem o elefante, é transformado em mendigo e segue professando uma admiração inexplicável por esse grande detetive que o encontrou. Toda a imprensa o elogia, exceto o comentário malévolo da citação inicial. Não sei se esse será um final feliz, mas é mais feliz que o desta outra história, porque a realidade sempre supera a ficção.

 

A realidade que supera a ficção

“Falta informação e em algum lugar ela está. Não podemos jogar a toalha”, disse Tabaré Vázquez com expressão séria em frente às câmeras, ao anunciar a criação desta comissão.

 

A primeira tentativa terminou como tragédia, agora quem sabe vem a ser farsa. Entretanto, devo confessar que não consigo definir uma fronteira entre um e outro. Vejamos um exemplo.

 

Em 2005, o presidente Tabaré Vázquez (em seu primeiro mandato) emitiu a “Ordem Formal” aos comandantes-em-chefe das forças armadas, no sentido de reportar informação para investigar o sucedido com os detentos desaparecidos. Um deles era Enrique Bonelli, comandante da Força Aérea. Depois se soube que Bonelli fora copiloto do Segundo Voo (houve ao menos três voos de aviões militares durante a ditadura para transportar em segredo os militantes detidos na Argentina para o Uruguai: a maioria terminou desaparecida).

 

O militar designado para reunir estas informações foi o general Pedro Barneix, assessor do governo Tabaré Vázquez, e sua conclusão foi de que não havia nada a investigar. Depois se soube que além do Segundo Voo, Bonelli também participou da morte por tortura de Aldo Perrini, em 1974, em Colônia, um simples eleitor da Frente Ampla sem nenhuma atividade em grupos armados, mas que protestou ao testemunhar estupros de mulheres detidas pelos militares. Esse dado aparece em um documento militar que ainda diz que a ata do interrogatório de Perrini se “desvaneceu”.

 

Em setembro de 2005, Barneix reportou dados da localização da tumba de María Claudia García de Gelman, nora do poeta argentino Juan Gelman, desaparecida junto com seu marido. O comandante do exército, Ángel Bertollotti, levou dali Macarena Gelman, filha de Maria Claudia, nascida em cativeiro, sequestrada, entregue a desconhecidos e que só pôde recuperar sua verdadeira identidade há alguns anos. Mostraram o local de busca. Resultou uma informação falsa, como todos os outros dados reportados por esses oficiais.

 

Logo após se aposentar, Bertollotti foi repreendido por um Tribunal de “Honra” militar por “promessas não cumpridas” que havia feito a militares detidos em troca de informação. Essa é a “honra militar”: aquele que tem honra e aquele que não tem; ambos vendem a mãe, e quem tiver honra a entrega.

 

Esse é o critério de honra que usa Eleuterio Fernández Huidobro, atual ministro da Defesa do governo Mujica, e proposto também para o de Tabaré, quando saiu em defesa do general Miguel Dalmao, ao dizer que este é inocente da morte de Nibia Sabalsagaray, militante do Partido Comunista sequestrada e assassinada pelos militares em 1974, em um falso suicídio.

 

Fernández Huidobro disse que Dalmao, que naquele momento era alferes e revistava a unidade militar onde ocorreu a morte, é inocente do que o acusam, e sobre o cadáver o verdadeiro culpado acrescenta: “tem de ter muito pouco caráter militar para deixar que um camarada que então era um subalterno, que sabe melhor do que ninguém que não teve nada a ver, esteja suportando o que está suportando. É abismal essa imoralidade”.

 

Fernández Huidobro não informa à Justiça sobre os elementos do juízo que tem sobre o verdadeiro culpado. Tampouco reportou nenhuma das informações que a Justiça lhe requereu em vários casos, e ainda negou a possibilidade de funcionários do judiciário, via ordem judicial, fotografarem uma dependência militar identificada como lugar de reclusão e torturas sob o jugo da ditadura.

 

Tudo isso tem confrontado organismos de direitos humanos do país. Tabaré disse, então, que “ele está nominado”, mas não esclarece se é no sentido do Grande Irmão ou ao contrário. Funciona assim: eu não te digo uma coisa e tampouco te digo outra, uma grande mudança no estilo presidencial. Recordemos que uma frase usual de Mujica é “como te digo uma coisa, também te digo a outra”.

 

Mas a proposta de Blunt de negociar a verdade já havia sido feita por Pepe, e agora vem feita pelo Papa. O inovador, em todo caso, é que Tabaré nesta nova Comissão da Verdade colocou Macarena como integrante.

 

Este jogo macabro seguirá até que seja insuportável o fedor da verdade morta e apodrecida que está debaixo de seus narizes. Mas Blunt já nos explicou, em seu tempo, toda a essência do assunto: “devemos mostrar constantemente ao público o quê estamos fazendo, ou ele acreditará que não fazemos nada”.

 

Link do conto de Mark Twain

 

Fernando Moyano, uruguaio, é membro da revista Alfaguara e fundador da "Coordenação pela retirada das tropas do Haiti".

Tradução de Raphael Sanz, do Correio da Cidadania.

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Última atualização em Quarta, 04 de Março de 2015
 

A publicação deste texto é livre, desde que citada a fonte e o endereço eletrônico da página do Correio da Cidadania




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