Estados Unidos e Brasil – a infecunda reunião do G-20 de 2009

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A última crise econômica, a despeito dos deletérios efeitos em vigor, não suscita entre as grandes potências a vontade de reformar de fato as instituições globais. Nem mesmo no alvorecer da quebra, houve manifestação favorável à modificação do sistema, com o objetivo de fixar maior regulamentação financeira e dificultar novos contratempos.

 

Em abril de 2009, o G-20 reuniu-se em Londres, uma das praças negociosas mais tradicionais da Europa. A importância do grupo decorria do fato de agregar cerca de 4/5 do produto interno bruto planetário. Sem indicações à vista de alterações profundas, a meta imediata do grupo era a de ampliar a quantia com a qual o Fundo Monetário Internacional (FMI) pudesse emprestar aos países mais abatidos.

 

De início, seria aumentar o estoque de cerca de 250 bilhões de dólares da organização até quatro vezes, desde que voltado de maneira prioritária ao auxílio aos ‘emergentes’, floreio verbal para os territórios subdesenvolvidos.

 

O Brasil aprovou a medida, mesmo sem figurar entre os principais contribuintes, como Japão ou União Europeia – os próprios Estados Unidos e China não comunicaram o quanto forneceriam.

 

Detentor de menos de dois por cento e meio das cotas, o Planalto ofereceu-se para emprestar recursos ao FMI, ao propor investir nos títulos da instituição, não obstante ser um dos menos robustos membros do G-20, ao lado da Indonésia, Índia e África do Sul. Na América Latina, o México seria um dos primeiros candidatos à nova ajuda.

 

Mais uma vez, quando do despontar da crise, os bancos foram alvo da preocupação maior dos governos – impedi-los de falir, malgrado a retórica neoliberal da auto-sustentação perene, a fim de que não houvesse o chamado efeito dominó internamente, sem se importar muito quanto aos custos sociais e à contrapartida adequada do setor privado.

 

Por exemplo, não se evocou naquela cimeira a necessidade de se debater a continuidade dos paraísos fiscais, mas apenas a de puni-los de forma eventual; de se aperfeiçoarem os mecanismos conjuntos de fiscalização, algo aspirado pela França, ou de se fiscalizarem as agências de avaliação de risco, apesar de o anfitrião do encontro, o primeiro-ministro Gordon Brown, ter afirmado que era o fim do chamado ‘consenso de Washington’.

 

Ao cabo, em função daquele momento bastante conturbado, nenhum governo, nem entre os do 3º Mundo, ousou discordar da inexistência de ações mais ousadas para conter os desdobramentos negativos da quebra. A falta de medidas incisivas ocorreria devido à justificativa de autorização dos parlamentos nacionais, para a qual não houve tempo de consulta.

 

Embora o Brasil aguardasse maior apoio financeiro direto aos países em desenvolvimento, ele concordou com a concentração dos recursos no Fundo Monetário, o que ia ao encontro das aspirações dos Estados Unidos, principal cotista da organização.

 

Marcante na cúpula londrina no relacionamento amero-brasileiro, ainda que sem desenrolamento prático e com caráter quiçá folclórico, foi a manifestação de modo aparentemente espontânea do presidente Barack Obama sobre Lula: É este o cara! - http://www.huffingtonpost.com/2009/04/02/obama-lula-is-most-popula_n_182433.html. O dirigente brasileiro logo retribuiria os elogios ao seu correspondente norte-americano.

 

Duas semanas depois, ocorreria a Cúpula das Américas, em Trinidad e Tobago, momento em que o Brasil esforçar-se-ia em servir de mediador político entre Caracas e Washington, mesmo com a atenção deste centrada em Havana, em face da antiguidade do contencioso ideológico e da importância eleitoral perante um dos seus estados mais importantes, a Flórida.

 

Leia Também:

Estados Unidos: a frustrada viagem de Lula

 

Virgílio Arraes é doutor em História das Relações Internacionais pela Universidade de Brasília e professor colaborador do Instituto de Relações Internacionais da mesma instituição. http://bit.ly/1AMf0qg

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