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Dorothy Stang, vítima do latifúndio Imprimir E-mail
Escrito por Frei Betto   
Qui, 12 de Fevereiro de 2015
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Eram 7h30 da manhã de 12 de fevereiro de 2005. A irmã Dorothy Stang, religiosa estadunidense naturalizada brasileira, 73, se dirigia à área do Projeto Esperança de Desenvolvimento Sustentável, em Anapu (PA).

 

No caminho, Rayfran das Neves a abordou. Perguntou se estava armada. Dorothy exibiu a Bíblia: “Eis a minha arma.” E leu trechos em voz alta.

 

O rapaz não se intimidou. A recompensa pelo crime importava mais que a vida da missionária que defendia pequenos agricultores, posseiros e sem terras. Sacou a arma e descarregou nela sete tiros, sendo um na cabeça.

 

Há tempos, Dorothy sofria ameaças. Poucos dias antes havia escrito: “Não vou fugir nem abandonar a luta desses agricultores desprotegidos no meio da floresta. Eles têm o sagrado direito a uma vida melhor numa terra onde possam viver e produzir com dignidade sem devastar”.

 

Rayfran, condenado a 27 anos de prisão, teve como mandante o fazendeiro Vitalmiro Bastos de Moura, o Bida, condenado, em 2013, a 30 anos. Passou por três julgamentos. O primeiro, em 2007, deu-lhe igual penalidade. Por receber pena superior a 20 anos, teve direito, em 2008, a novo júri. Foi absolvido! O Ministério Público recorreu, anulou-se a sentença, e o júri de 2013 confirmou a pena de 30 anos de prisão.

 

Dorothy Stang mereceu prêmio de direitos humanos da OAB, em 2004. Homenageou-a, em 2005, o documentário-livro “Amazônia revelada”, patrocinado pelo CNPq e o Ministério dos Transportes.

 

O documentário de Daniel Junge, “Mataram irmã Dorothy”, produzido nos EUA e narrado por Wagner Moura, retrata a trajetória da religiosa. O artista Cláudio Pastro incluiu o perfil dela no painel, em azulejos, “As mulheres santas”, na basílica de Aparecida (SP).

 

Quem de fato matou Dorothy Stang foi o latifúndio, conforme denúncia dos bispos católicos brasileiros reunidos em Aparecida, em abril de 2013.

 

Reza o documento por eles aprovado: “A sempre prometida reforma agrária não foi prioridade de nenhum dos governos democráticos. As decisões governamentais, nestas três décadas, foram, quase sempre, tomadas para favorecer o latifúndio e o agronegócio: financiamentos altíssimos, subvenções, e até anistia para os endividados, impunidade e regularização da grilagem, legislação favorável aos interesses da bancada ruralista. É injustificável que os índices de produtividade, essenciais para provar a função social da propriedade, ainda sejam os do tempo da ditadura militar.”

 

Outros assassinatos ocorrerão se o governo não promover a reforma agrária e defender os direitos de índios, quilombolas, atingidos por barragens, posseiros e sem-terra.

 

Segundo a Comissão Pastoral da Terra, de 1985 a 2011, registros revelam que 1.610 pessoas foram assassinadas no campo, julgadas apenas 96 ocorrências e condenados 21 mandantes e 75 executores.

 

A impunidade faz do Brasil uma nação violenta.

 

 

Frei Betto é escritor, autor de “Minas do Ouro” (Rocco), entre outros livros.

Website: http://www.freibetto.org/

Twitter: @freibetto.

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