Estados Unidos: a frustrada viagem de Lula

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A crise econômica de 2008 alterou a pauta diplomática norte-americana. Em função dela, temas vinculados à segurança nacional, como terrorismo e geopolítica médio-oriental, receberam de modo momentâneo menor atenção, até em vista da emergência de medidas para amenizar os efeitos financeiros mais adversos.

 

Assim, a visita de Lula da Silva a Barack Obama no início de março de 2009 buscou equilibrar-se entre a economia e a política. Não houve, por exemplo, menção alguma à reforma do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas, ocasião em que o Brasil aguardaria o convite das grandes potências para nele ingressar como membro definitivo, se houvesse a ampliação do número de assentos.

 

Todavia, o Planalto aproveitou o encontro para firmar-se como o intermediador sul-americano a partir de início da ótica venezuelana e principalmente da norte-americana.  Indicador disso foi o fato de ter sido o brasileiro o primeiro dirigente do continente a ser recebido pela contraparte estadunidense.

 

A despeito de Lula afirmar que não desfrutava de procuração dos demais países da região para tratativas, havia por parte de Obama a necessidade de ter um interlocutor confiável junto à Bolívia, Equador, Venezuela e, por que não, Cuba.

 

Naquela altura, os Estados Unidos preocupavam-se com o possível desdobramento negativo do V Encontro das Américas, a ser realizado em Trinidad e Tobago no mês subsequente. Perante tal quadro, não havia como desconsiderar a importância do Brasil se voltado para desanuviar tensões políticas.

 

Diante da maior confiança de Washington, Brasília propôs a modificação da forma de combate ao narcotráfico na América do Sul, ao enfatizar a responsabilidade local dos países em detrimento da constante presença norte-americana, em especial na Colômbia e outrora na Bolívia.

 

A justificativa invocada era a da defesa da soberania, ao não transferir a estrangeiros  parte da responsabilidade da contenção de ilícitos transnacionais. O desejo era estabelecer um conselho através da União Sul-Americana de Nações (UNASUL) – isto seria somente materializado no ano seguinte.

 

Ao mesmo tempo, a atenção do Brasil dirigia-se à recuperação das negociações da Rodada Doha com vistas a uma inexorável abertura comercial. No entanto, não havia condições políticas em muitos países para seguir tal objetivo, como era o caso estadunidense.

 

No plano regional, a proposta de reviver a Área de Livre Comércio das Américas (ALCA) imergia, dado que os Estados Unidos não se dispunham a encarar o lobby interno do setor agrícola. Assim, o apoio da Casa Branca, caso obtido, não teria longo alcance em negociações globais.

 

Paralelamente, o governo brasileiro ambicionava que o G-20, constituído em 1999, fosse impulsionado nos debates econômicos globais em detrimento do tradicional G-8.

 

Na visão de Brasília, ele seria o foro adequado para que os países em desenvolvimento pudessem colaborar mais com o objetivo de superar os efeitos da crise global de 2008. Na prática, isto não se efetuou porque Washington não demonstraria entusiasmo algum com esta perspectiva.

 

Em termos práticos, a visita de Lula a Obama não providenciou ao Brasil ganho imediato algum, uma vez que o próprio presidente americano não concordava com o fim das barreiras alfandegárias para o biocombustível, apesar do posicionamento divergente de membros de seu gabinete.

 

Havia ao menos dois que discordavam da postura presidencial: Tom Vilsak, ministro da Agricultura, e Stephen Chu, da pasta de Energia. Lamentavelmente, isto não foi suficiente para estimular o debate sobre a abertura do mercado estadunidense.

 

Virgílio Arraes é doutor em História das Relações Internacionais pela Universidade de Brasília e professor colaborador do Instituto de Relações Internacionais da mesma instituição.

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