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Criminalização da pobreza Imprimir E-mail
Escrito por Léo Lince   
Quarta, 31 de Outubro de 2007
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Em matéria de Sérgio Cabral, eu prefiro o original. O pai do governador, que na juventude foi boxeador no subúrbio de Quintino, sabe que a favela não é fábrica de marginais. Pelo contrário, doutor em samba e freqüentador de rodas de bamba, ele deve partilhar a opinião de Zé Kéti: “o morro não tem vez e o que ele fez já foi demais, mas quando derem vez ao morro toda cidade vai cantar”.

 

O governador, tudo indica, não saiu ao pai. E, como diz o avesso do ditado popular, quem não sai aos seus, degenera.  É o que se deduz das palavras terríveis saídas de sua boca, preconceituosas e reveladoras de uma escolha política assustadora. Se o rapaz não fosse governador, o problema seria apenas dele. No entanto, como ele é o titular da principal alavanca do poder político em nossa infeliz província, tal disposição de ânimo é um risco para todos nós.

 

O governador Cabral Filho, por certo, não é um idiota. Ele sabe o que está fazendo. Cita números errados, lê as estatísticas que lhe convêm, usa de maneira intempestiva o trabalho polêmico dos dois pesquisadores americanos, mas é tudo calculado. Mesmo quando recua de declarações infamantes (pegou mal em muitos setores da sociedade), não se afasta da linha escolhida. Trabalha com pesquisas de opinião que lhe revelam a onda de desespero que a violência cotidiana espalha em nossa população.  É um surfista da violência.

 

O bombardeio ao Complexo do Alemão, a matança na Comunidade da Coréia, em Senador Câmara, além da truculência diária que alimenta o clima de medo na cidade, são passos de uma escalada.  Ao apoiar o aborto como política de segurança e dizer que a mãe de favela é fábrica de marginais, o governador coloca os pobres na linha de tiro de sua política. Humilhados e ofendidos, eles agora são apontados como responsáveis pela violência de que são vítimas.

 

Os barões do crime organizado, os grandes traficantes de drogas e armas, fora da linha de tiro, estão absolutamente tranqüilos. Eles, e os que lhes prestam serviços no aparato contaminado da política, aguardam o rescaldo da batalha para recompor o varejo do negócio. Qualquer governo sério e polícia inteligente começariam por tal ponto o combate efetivo ao narcotráfico e ao crime organizado.

 

No entanto, é mais fácil combater os tiranetes na ponta do varejo. São múltiplas as vantagens. Rende popularidade e não compromete a malha de cumplicidades que espalha seus tentáculos nos mais variados aparatos do poder. Ademais, cumpre uma função política geral. O modelo econômico de exclusão social, causa poderosa da violência nos grandes centros urbanos, tem na repressão truculenta a sua contrapartida natural e necessária.

 

Ao ostentar a truculência como se fora firmeza, o governador recebe aplausos daquela parcela cada vez mais atemorizada com a espiral de violência e, por outro lado, o apoio dos pontos fortes que se beneficiam com o modelo econômico injusto.  Daí a sua condição de pregador e praticante ativo da política aterrorizante de criminalização da pobreza.

 

 

Léo Lince é sociólogo.

 

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