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Islamismo e fundamentalismo Imprimir E-mail
Escrito por Luiz Eça   
Terça, 03 de Fevereiro de 2015
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O recente atentado de Paris e as grandes manifestações islamofóbicas, especialmente na Alemanha, têm incrementado acusações de um suposto caráter violento do islamismo.

 

As preocupações sobre esta questão foram expostas num e-mail enviado ao OLHAROMUNDO, por ‘Pedro’.

 

Dada a atualidade e importância do tema, passo fazer alguns comentários a respeito. Pedro inicia seu e-mail falando sobre algo que leu no Alcorão e o desagradou:

 

“Gostaria de uma ajuda sua, eu li algumas passagens do Alcorão e as achei bastante cruéis e violentas, aqui compartilho para que você me oriente”:

“Mas quanto os meses sagrados houverem transcorrido, matai os idólatras, onde quer que os acheis; capturai-os, acossai-os e espreitai-os; porém, caso se arrependam, observem a oração e paguem o zakat, abre-lhes o caminho. Sabei que Alá é Indulgente, Misericordiosíssimo” – Alcorão, Surata 9,5.

“Matai-os onde quer se os encontreis e expulsai-os de onde vos expulsaram, porque a perseguição é mais grave do que o homicídio. Não os combatais nas cercanias da Mesquita Sagrada, a menos que vos ataquem. Mas, se ali vos combaterem, matai-os. Tal será o castigo dos incrédulos” – Alcorão, Surata 2,191.

 

Não se pode julgar o Alcorão por frases esparsas, ignorando o contexto ao qual pertence, sob pena de graves distorções.

 

O Alcorão foi revelado pelo profeta Maomé no século VII, Idade Média, portanto, quando as guerras não respeitavam direitos humanos.

 

Com sua pregação, Maomé formou uma comunidade. Em princípio, de alguns milhares de pessoas, em Meca, na Arábia.

 

Ela despertou a ira da elite local politeísta, pois os princípios islâmicos de um só Deus e igualdade entre raças e homens eram desestabilizadores da ordem social, pois punham ideias rebeldes nos pobres e escravos.

 

Durante 12 anos, a comunidade islâmica cresceu, sofrendo em Meca toda sorte de perseguições por parte dos poderes de lá.

 

Por fim, liderados por Maomé, os seus fiéis emigraram em massa para a cidade de Medina, fugindo de seus algozes.

 

Nem assim os poderosos de Meca os deixaram em paz. Foram atrás deles, obrigando-os a travar duas sangrentas batalhas, vencidas pelos seguidores do profeta.

 

As frases do Alcorão, citadas acima, refletem a agressividade e a violência, normais nas guerras desses tempos, especialmente quando uma das partes lutava por sua sobrevivência.

 

Nessa mesma época, os cristãos em guerra também não costumavam respeitar normas do tipo Convenção de Genebra...

 

Os judeus, nos tempos bíblicos, viviam circunstâncias semelhantes às dos primeiros tempos do islamismo.

 

Nessa época, centenas de anos antes de Cristo, eles também se deslocaram em massa em busca de sua “terra prometida”, finalmente alcançada, a Palestina de hoje.

 

No seu caminho, tiveram de lutar contra povos hostis em guerras contínuas. As escrituras sagradas reproduzem as reflexões e orientações dos seus profetas para guiarem o povo no combate aos inimigos.

 

Com a mesma violência encontrada pelo povo islâmico no Alcorão, nos tempos de sua afirmação como comunidade.

 

Deem só uma lida:

 

“O povo de Samaria carregará sua culpa, porque se rebelou contra o seu Deus. Eles serão mortos à espada; seus pequeninos serão pisados e despedaçados, suas mulheres grávidas terão rasgados os seus ventres” – Oseias 13:16.

“Derrama o teu furor sobre os gentios que não te conhecem, e sobre os reinos que não invocam o teu nome” – Salmos 79:6.

“E os espalharei entre gentios, que não conheceram, nem eles nem seus pais, e mandarei a espada após eles, até que venha a consumi-los”- Jeremias 9:16.

Em seguida, o e-mail de Pedro cita o Alcorão, condenando, presumivelmente, a amizade de muçulmanos com cristãos e judeus.

 

“Ó fiéis, não tomeis por amigos os judeus nem os cristãos; que sejam amigos entre si. Porém, quem dentre vós os tomar por amigos, certamente será um deles; e Alá não encaminha os iníquos” – Alcorão, Surata 5,51.

 

O texto contém termos traduzidos de forma incorreta, segundo o especialista em língua e religião árabes, Ro Waaseen, em The Huffington Post.

 

Em primeiro lugar porque a palavra “aulia” normalmente não significa “amigo”, mas “aliado”.

 

E Waaseen acrescenta: “o verso pede aos muçulmanos para não tomarem Al-Yahoud (judeu) e Al-Nasaraa (cristão) como aliados. A palavra “Al” em arábico indica algo ou alguém especificamente”.

 

Portanto, refere-se a algum cristão e algum judeu em especial, não a judeus e a cristãos de um modo geral.

 

O verso prega contra alianças – e não amizade – contra determinados cristãos e judeus, não contra quaisquer cristãos e judeus.

 

Aliás, na ocasião em que Maomé comunicou este verso, seu povo estava em guerra contra o império bizantino cristão.

 

Agora, uma última acusação ao livro sagrado do Islã:

“Um amigo meu me disse queno Alcorão, em lugar algum, fala do amor de Alá pelos não-Muçulmanos, mas fala mais de 450 vezes do ódio de Alá contra os não-Muçulmanos”.

 

Não sabemos se existem tantas frases destilando ódio aos não-muçulmanos. Parece difícil.

 

Mas não foi necessário procurar muito para achar várias expressões de respeito aos cristãos e judeus. Como esta:

 

“Aqueles que creem (no Alcorão), aqueles que seguem o judaísmo e os Sabians e os cristãos – qualquer um que acredite em Deus e no Dia do Julgamento e trabalhe honradamente –, neles não haverá medo, nem sofrimento” - Alcorão, Surata 5: 69.

 

O que é coerente com a realidade histórica.

 

Salvo em raríssimas exceções, os regimes islâmicos em todo o mundo concediam liberdade religiosa aos cristãos e judeus, os chamados “povos do livro”. Em muitos casos, judeus tinham altos cargos nas cortes.

 

Por outro lado, lembre-se que os mouros na Espanha sofreram terríveis perseguições pelos governos cristãos, que dizimaram suas comunidades. E os judeus foram expulsos em massa desse país e de Portugal.

 

Pedro termina seu e-mail com uma reflexão: “Acho que é compreensível a islamofobia na Inglaterra, na França, na Alemanha e em outros lugares”.

 

Nesse caso, vem a propósito citar o Talmud, um livro sagrado dos judeus, registro das discussões rabínicas, codificado entre os anos 200 e 500 antes de Cristo.

 

“Todo aquele que desobedece os rabinos deverá ser punido, merece a morte e será cozido em excrementos quentes no inferno” - Erubin 21b.

“Um judeu não precisa pagar a um gentio (‘Cuthean’) os salários devidos a ele para o trabalho” - Sinédrio 57a.

“Quando um judeu assassinar um gentio (‘Cuthean’), não haverá pena de morte. O que um judeu rouba de um gentio, ele pode guardar” - Sinédrio 57ª.

Os gentios estão fora da proteção da lei e Deus ‘expôs seu dinheiro a Israel’”- Baba Kamma 37b.

 

Não parece que os não-judeus (os gentios) recebam muito amor do Talmud...

 

Estas ideias racistas se explicam pelas perseguições que os judeus sofriam nos vários países do mundo onde viviam, depois de expulsos da Palestina no ano de 70 d.c.

 

Novamente, o contexto explica e anula eventuais condenações. Porém, se a pessoa entende a islamofobia na Europa com base em textos fora do contexto, deveria, por coerência, entender também o antissemitismo.

 

É claro, nem uma nem outra posição é aceitável. Tanto os textos sagrados dos islâmicos quanto dos cristãos e dos judeus contêm predominantemente ensinamentos preciosos e princípios elevados, que tornam suas religiões respeitáveis.

 

Quem leva ao pé da letra versos circunstanciais dos livros sagrados dos islâmicos, cristãos e judeus,\ são os chamados fundamentalistas.

 

Alguns se limitam a agir apenas politicamente, outros vão mais longe – praticam atentados. Gente assim existe nas três religiões, embora os fundamentalistas islâmicos, no momento, sejam responsáveis pela maioria das ações violentas.

 

Mas não estão sozinhos. Os colonos dos assentamentos judeus têm praticado alguns crimes contra os palestinos que se enquadram na categoria dos atentados.

 

E o Mossad, em anos anteriores, andou assassinando cientistas atômicos iranianos e líderes do Hamas no exterior.

 

No passado recente, os judeus já percorreram o caminho do terrorismo contra os árabes. O rabino Kahane, considerado terrorista até pelos EUA e Israel, chegou a passar cinco anos preso por suas atividades pouco lícitas.

 

Terminando meu artigo-resposta, quero lembrar um conceito tão conhecido quanto batido, porém, aqui bem adequado: não se deixe levar pelas aparências.

Leia também:

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Luiz Eça é jornalista.

Website: Olhar o Mundo.

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Última atualização em Sexta, 06 de Fevereiro de 2015
 

A publicação deste texto é livre, desde que citada a fonte e o endereço eletrônico da página do Correio da Cidadania




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