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Estados Unidos e Brasil: expectativa desencontrada Imprimir E-mail
Escrito por Virgilio Arraes   
Segunda, 26 de Janeiro de 2015
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A expectativa de que uma presidência democrata seria diferente de uma republicana no tocante ao relacionamento com os países latino-americanos continuou ainda nas primeiras semanas de mandato de Barack Obama. No início de março de 2009, o presidente Lula deslocou-se a Washington a fim de avistar-se com o dirigente estadunidense, com o objetivo de intensificar comercialmente a relação bilateral.

 

Todavia, a perspectiva de cada um deles não se aproximava: enquanto a do presidente brasileiro concentrava-se no campo econômico, em especial no setor do biocombustível, a contraparte norte-americana centralizava-se na política, ou seja, na intermediação de Brasília para Washington com Caracas, Havana e La Paz, dada a menor capacidade de movimentação da diplomacia de países mais próximos dos Estados Unidos como Canadá e México com a citada trinca.

 

Assim, a Casa Branca desejava que o Planalto se comprometesse mais na atuação regional contra o narcotráfico, por exemplo. A justificativa invocada era a de que o país seria o mais prejudicado no cotidiano, em função do compartilhamento de fronteiras com Colômbia, Peru e Bolívia, considerados como grandes produtores de matéria prima ou distribuidores.

 

No caso boliviano, Washington demonstrou insatisfação com o fim da colaboração formal, sintetizada na expulsão de dezenas de servidores do Drug Enforcement Agency (DEA) de lá. Alguns deles seriam remanejados para o próprio Brasil, o que mostrava a boa vontade do governo trabalhista em uma questão tão melindrosa.

 

Quanto a Cuba, os norte-americanos preferiam a interlocução de Lula à de Chavez ou de Putin com a família Castro. Os dois eram avaliados como bastante adversos aos interesses estadunidenses.

 

Naquela altura, o preço do petróleo ainda se encontrava em patamar alto. No Brasil, isto estimulava a esperança na ampliação da exportação do etanol, cuja produção crescia de forma célere – cerca de 25 bilhões de litros na safra daquele ano (2009), de acordo com a estimativa do Ministério da Agricultura.

 

A queixa maior do Planalto relacionava-se com o imposto de quase 15 centavos de dólar para cada litro importado pelos estadunidenses, o que dificultava superar o envio de mais de um bilhão e meio de litros em um território cujo consumo anual total era superior a 500 bilhões de litros. Somava-se à barreira alfandegária a emergência da crise econômica norte-americana, natural ocasionadora de menos procura por combustível.

 

Sem peia, a viagem do presidente brasileiro serviu para reforçar o pleito do agronegócio, ao clamar contra o amplo e rigoroso protecionismo da administração de Obama – basta lembrar a campanha do ‘Buy American’ que estimulava a aquisição de ferro e aço localmente.

 

Além da dificuldade do ingresso do biocombustível, preocupava ao governo brasileiro os entraves ao algodão e laranja, visto que a Casa Branca projetava-se para reduzir o subsídio a pequenos e médios fazendeiros tão-somente a partir de 2012.

 

De certo modo, apesar da retórica combativa do Brasil – uma nova arquitetura mundial com recomposição dos organismos internacionais e maior regulamentação do sistema financeiro – a postura política de Lula apenas reiterava a de seu antecessor.

 

Se considerada a longa duração, trabalhistas e socialdemocratas brasileiros ressuscitaram a prática econômica da República Velha (1889-1930), baseada, por sua vez, em linhas gerais na agroexportação e financeirização emanada a partir do centro do capitalismo – naquela época, a Grã-Bretanha.

 

 

Leia também:

Estados Unidos e Brasil: rumo a uma pauta comum


Virgílio Arraes é doutor em História das Relações Internacionais pela Universidade de Brasília e professor colaborador do Instituto de Relações Internacionais da mesma instituição.

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Última atualização em Qui, 29 de Janeiro de 2015
 

A publicação deste texto é livre, desde que citada a fonte e o endereço eletrônico da página do Correio da Cidadania




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