Thomas Merton, místico do século 20

 

A palavra mística causa estranhamento. Para muitos, isso é coisa do outro mundo ou de pessoas alucinadas. Ora, o místico é como qualquer outro ser humano. O que o difere é ser um eterno apaixonado por quem, nele, é mais íntimo a ele do que ele a si mesmo: Deus.

 

A 31 de janeiro, Thomas Merton faria 100 anos. É um dos quatro mais conhecidos místicos do século 20, ao lado de Simone Weil, Teilhard de Chardin e Charles de Foucauld. Fui apresentado às suas obras por Dom Timóteo Amoroso Anastácio, capelão das monjas beneditinas de Belo Horizonte, no início da década de 1960.

 

Filho de pai neozelandês, que era pintor, e mãe usamericana, Merton nasceu na França. Recebeu o batismo na Igreja Anglicana. Aos 11 anos, aluno interno na Inglaterra, já lia William Blake, D.H. Lawrence e James Joyce.

 

Ingressou na Universidade de Cambridge e, de mudança para os EUA, em 1934, em Columbia cursou espanhol, alemão, literatura francesa, geologia e direito civil. Acercou-se da Juventude Comunista.

 

A leitura de O espírito da filosofia medieval, de Étienne Gilson, despertou seu interesse pela escolástica. Mergulhou nas obras de Tomás de Aquino e Duns Scotus. No entanto, foi um monge budista, de quem se tornou amigo, que o despertou para o cristianismo. Aconselhou-o a ler Santo Agostinho. Em 1938, em Nova York, Merton foi admitido na Igreja Católica.

 

Doutor em literatura inglesa aos 24 anos, tornou-se crítico literário do New York Times e do New York Herald Tribune. A obra de São João da Cruz suscitou-lhe a vocação sacerdotal, no que foi desestimulado pelos franciscanos. Entre 1939 e 1941, escreveu um diário e três romances (todos recusados pelas editoras), enquanto fazia trabalho social junto à população negra do Harlem.

 

Os retiros espirituais na abadia cisterciense (monges trapistas) de Gethsemani, em Kentucky, o convenceram a se tornar trapista, ordem religiosa austera e contemplativa (No Brasil, há uma comunidade trapista em Campo do Tenente, PR). Ao deixar Nova York, aos 27 anos, Merton distribuiu suas roupas no Harlem; os livros, aos franciscanos; e rasgou dois de seus romances.

 

Merton viveu em Gethsemani de 1941 a 1968, onde foi mestre de um noviço nicaraguense que, mais tarde, se revelaria excepcional poeta: Ernesto Cardenal. Em 1948, a publicação de sua biografia precoce, A montanha dos sete patamares (título inspirado na Divina Comédia, de Dante), alcançou repercussão mundial. No Brasil, foi editado pela Vozes. Sua leitura influiu em minha vocação religiosa.

 

Ao longo de seus 27 anos como monge, Merton escreveu compulsivamente. Homem algum é uma ilha é um de seus livros mais traduzidos. Vinculou-se aos movimentos pacifistas e destacou-se como crítico da guerra do Vietnã.

 

Do eremitério em que morava nos três últimos anos de vida, sua voz ecoava através de artigos, livros, entrevistas e vasta correspondência. Com a sua tradutora no Brasil, a monja beneditina Maria Emmanuel de Souza e Silva, trocou 951 cartas entre 1954 e 1968.

 

Interessado no zen-budismo, aos 53 anos, em 1968, viajou ao Oriente para se aprofundar na espiritualidade budista. Entrevistou-se com o Dalai Lama e, em Bangcoc, a 10 de dezembro daquele ano, proferiu conferência sobre “Monaquismo e marxismo”. Pouco depois, o encontraram morto no quarto, eletrocutado pelo fio desencapado do ventilador. Foi sepultado nos EUA.

 

Mais de 40 obras de Merton mereceram publicação no Brasil, graças a amigos como Alceu Amoroso Lima, que o considerava “o João da Cruz do século 20”. Em nosso país, a Sociedade dos Amigos Fraternos de Thomas Merton (www.merton.org.br) difunde sua espiritualidade e obra.

 

 

Frei Betto é escritor, autor de “Fome de Deus” (Paralela), entre outros.

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