Violência policial marcou o final do segundo ato pela redução das tarifas em São Paulo

0
0
0
s2sdefault

 

 

E naquelas cinco horas da tarde da última sexta-feira, 16 de janeiro, começava a concentração do segundo ato contra o aumento da tarifa do transporte público em São Paulo, que segundo dados oficiais da polícia militar contou com três pessoas. Apesar da versão oficial ser incontestável no universo da mídia empresarial, é bom lembrar que a multidão ocupou todo o espaço físico da Consolação, desde pouco antes do cemitério até quase a praça Roosevelt. O Movimento Passe Livre diz que foram em torno de 20 mil pessoas. Não somos excelências em matemática, mas pareceu que a contagem do MPL estava mais de acordo com a realidade.

 

Chegando na Praça do Ciclista, vindo do metrô Consolação, a reportagem deu de cara com uma barreira que tinha policiais do choque e da tropa do braço naquelas armaduras apocalípticas. Com eles, alguns ônibus da PM estacionados na Paulista. Apesar do clima de intimidação, a concentração aconteceu tranquilamente. Uma grande assembleia armou-se na rua, foi feito um jogral e decidiu-se o trajeto do ato: desceria a Avenida Consolação até a prefeitura e em seguida a marcha terminaria em frente à Secretaria Municipal de Transportes.

 

Durante a descida, entrevistamos um dos organizadores do ato. Durante a abordagem, foi dito que os policiais estavam no fundo do ato “estocando as pessoas com os cassetetes” e, por isso, ele pedia para o ato andar mais rápido. Era na altura do Mackenzie. “A polícia está tumultuando desde o começo. Querem tirar as pessoas da faixa de ônibus dizendo que vão liberar o trânsito, mas daí colocam a tropa deles nessa faixa. Na verdade o que eles querem é fazer um cordão lateral total e o caldeirão de Hamburgo”, disse, referindo-se à tática bastante utilizada no ano passado, de confinar a manifestação entre quatro paredes policiais.

 

Sobre a declaração do prefeito Fernando Haddad, que comparou o MPL aos assassinos da redação do Charlie Hebdo, foi irônico. “O Haddad está tão tranquilão que perdeu a noção da realidade... peraí!” E saiu correndo para ajudar, após uma breve confusão protagonizada pela polícia. O ato seguiu enquanto a noite caía.

 

Já no escuro, ao atravessar o Viaduto do Chá, vimos alguns militantes estendendo uma faixa sobre a ponte. Não eram mais do que quatro pessoas naquela cena. Vieram sete policiais do choque com escopetas em punho e um deles, com a arma sobre o ombro, chegou colocando as mãos na faixa. “O que é que está escrito aí?”, perguntou, em tom ameaçador. O clima de intimidação e provocação, que sempre partia da PM, já era evidente muito antes das primeiras bombas serem lançadas.

 

De frente para a prefeitura, o ato se reuniu. Houve gritos contra o aumento das passagens, projeções com frases e sátiras contra a administração da prefeitura, do governo do estado e pela tarifa zero. Uma imagem que arrancou gargalhadas da multidão foi uma foto do prefeito Fernando Haddad sorrindo com os dizeres “Je Suis Catraca”.

 

Nesse momento, atravessamos novamente o Viaduto do Chá. Ao conversarmos com alguns manifestantes, próximos da banca de jornal da calçada do Shopping Light, ouvimos os primeiros estrondos de bomba e a correria desesperada de muitas pessoas que não se acostumaram com tamanha truculência. Descemos as escadas do viaduto rumo ao metrô Anhangabaú. Em cima do viaduto, black blocs tentavam, em vão, é claro, retardar o avanço da tropa de choque que atacava ferozmente a multidão, com bombas dos mais variados tipos, além das tradicionais balas de borracha. Chegando ao metrô, funcionários fecharam as portas e tratavam as pessoas que imploravam no portão com uma truculência digna da tropa de choque.

 

Subi a rampa que passa por cima do Terminal Bandeira. A polícia estava bloqueando todas as entradas do terminal. Por sorte, a saída da rampa sentido Largo São Francisco estava livre. Descemos novamente para o Vale do Anhangabau, já mais adiante, e em direção ao metrô São Bento uma mulher estava ferida na perna. Os socorristas do GAPP – Grupo de Apoio aos Protestos Populares – estavam lá ajudando a moça. “Ela foi atingida por um estilhaço na perna, pediu socorro no hotel que tem aqui na frente e não deixaram ela entrar”, contou.

 

A vítima recebeu os primeiros socorros de um grupo de moradores de rua até a chegada do GAPP. “Os bombeiros civis do hotel apareceram e tentaram chamar a ambulância, mas aqui nessa região a ambulância não vem sem a autorização da PM. Então, ela ficaria aqui pelo menos umas três horas esperando, no mínimo. Estamos terminando o curativo dela”, finalizou a socorrista que não se identificou.

 

Rumo ao metrô São Bento, passamos em frente a uma academia de ginástica. Os clientes estavam correndo, malhando, com fones nos ouvidos. Completamente indiferentes ao mundo externo.

 

Na madrugada que se seguiu, milhares de pessoas, ao menos nas redes sociais, ja confirmavam presença para o “Terceiro Grande Ato contra o aumento da tarifa”, marcado para esta terça-feira, na estação de metro do Tatuapé, às 17h. Enquanto isso, os grandes meios de comunicação lamentavam que três agências bancárias tiveram seus vidros quebrados.

 

Vídeo

Manifestantes descem a rua da Consolação. Nota-se que os números alegados pelo MPL são muito mais verossímeis que a avalição dos representantes do Estado

 

Leia também:

“A política de segurança pública é o pior legado da Copa do Mundo”

‘Só a luta muda a vida e o povo está se apropriando cada vez mais dessa concepção’

 

 

Raphael Sanz é jornalista.

Comentários   

0 #1 de volta pra maioLuiz Ramirez 20-01-2015 10:31
Impressionante como todas as posturas, de diversos atores, dentro e fora dos protestos, remetem aos primeiros manifestos de junho. O lado bom é que ajuda a perceber a hipocrisia de muitos amantes da "liberdade de expressão" e da "democracia".
Citar

Para ajudar o Correio da Cidadania e a construção da mídia independente, você pode contribuir clicando abaixo.

Relacionados