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Atentado ao Charlie Hebdo: porque não se trata de liberdade de expressão Imprimir E-mail
Escrito por João Gabriel Vieira Bordin   
Terça, 13 de Janeiro de 2015
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Como é de se esperar, muitas análises e opiniões sobre o atentado terrorista contra a redação da revista Charlie Hebdo e o assassinato de dez de seus membros e dois policiais, na França, centram-se na questão da liberdade de expressão. Mas este é um ponto de partida equivocado. Não porque seja desimportante, mas por causa dos equivocados termos em que esta discussão está posta e porque não leva a lugar algum.

 

Primeiro, a liberdade de expressão tende a ser vista sob uma perspectiva etnocêntrica – ocidentalocêntrica, para ser mais preciso – que opõe nós, os supostos defensores da liberdade de expressão, e eles, os inimigos da liberdade, partidários da servidão (em termos hayekianos). Essa postura ignora as diferenças culturais legítimas que existem entre essas duas culturas e assume que os nossos valores são melhores. Há um juízo de valor implícito aí.

 

Mas também ignora que quando estamos falando de religião, âmbito do sagrado, as pessoas se ofendem com mais facilidade e, só porque o Ocidente é considerado mais laico do que os muçulmanos, isso não significa que cristãos também não se indignem diante de um episódio do seriado animado South Park, por exemplo, onde os padres são retratados como pedófilos inveterados.

 

É bom lembrar o que diz a sabedoria popular: pimenta no dos outros é refresco; xingar a mãe dos outros é sempre brincadeira, mas quando os outros xingam a sua a brincadeira acaba. Entretanto, assim como a maioria dos muçulmanos, a maioria dos cristãos não atentaria contra a vida dos produtores de South Park. Extremistas fanáticos, notadamente religiosos, existem em qualquer sociedade, em qualquer cultura, é óbvio, mas é sempre bom lembrar, já que o discurso cotidiano que se criou em torno do Islã os vê todos indistintamente como loucos fanatizados e não como pessoas normais, tais como você e eu.

 

Em segundo lugar, a questão da liberdade de expressão é uma problemática filosófica eterna e sem fim, um jogo de soma zero, mas no discurso corrente, assim como no caso das opiniões sobre o Charlie Hedbo, a liberdade de expressão é assumida como um valor absoluto. Mas ela não é. E a liberdade religiosa? E o direito a ter suas crenças respeitadas? Não seriam também um corolário do princípio de liberdade de expressão?

 

A verdade é que esse tipo de liberdade está limitado pelos mesmos limites que se impõem a qualquer outro tipo de liberdade: a sua termina onde começa a minha. O problema é que tais limites são impossíveis de serem determinados, tanto mais formalmente, de modo que a liberdade de expressão decorre sempre de um ajuste diplomático entre ela e outras – e de outrem – liberdades.

 

É por isso que centrar a discussão em torno da questão da liberdade de expressão é um beco sem saída; ainda pior: um beco perigoso. Sua conclusão é que nós estamos certos e eles errados, nós somos melhores e eles piores, e tal conclusão justifica qualquer coisa que em outras circunstâncias veríamos como odiosa, tal como invadir um país ao custo de meio milhão de mortos, como foi o caso dos 10 anos de “guerra”/ocupação do Iraque. Não à toa, naquela ocasião o argumento principal foi justamente a “liberdade”, essa noção abstrata, tão desprovida de conteúdo real, porém tão carregada de juízos de valor e tão eficaz para mobilizar corações e mentes. Afinal, ninguém quer ser contrário à liberdade.

 

Portanto, seria melhor que a discussão se centrasse em outros pontos, como o contexto histórico que vive a Europa atualmente e as implicações políticas e sociais do atentado. A França abriga hoje a maior comunidade islâmica da Europa, uma enorme comunidade marginalizada e oprimida, cultural e socialmente. Atitudes xenofóbicas e islamofóbicas são disseminadas amplamente pela maioria da população francesa, e não é de hoje. Tensões entre as duas comunidades étnicas vêm desde o início do fluxo migratório que coincidiu com o processo de descolonização em meados do século passado. E essas tensões vêm crescendo.

 

Com base numa política racista, ultranacionalista e anti-imigração, a extrema-direita francesa fez substanciais avanços eleitorais desde a década de 1980, e hoje a Frente Nacional, talvez o partido mais importante dessa nova e terceira onda de extrema-direita, lidera agora as pesquisas de intenção de voto para presidente, algo inédito. Dentro de tal contexto, somado à recessão econômica, desemprego e redução das perspectivas de vida, o atentado ao Charlie Hebdo é como um fósforo jogado sobre um barril de pólvora.

 

É com isso que temos de nos preocupar, e não com a liberdade de expressão. Justamente porque focar na liberdade de expressão, como se fosse um exclusivo valor ocidental ameaçado, joga água no moinho da extrema-direita, cujo discurso racista reveste-se hoje em dia de um diferencialismo cultural, segundo o qual as culturas são incompatíveis em função de seus respectivos valores, de modo que para serem preservadas elas devem se isolar.

 

O Islã seria, nesta visão, incompatível com o Ocidente, entre outras coisas por causa do valor que este dá à liberdade de expressão. Proteger a liberdade de expressão, portanto, implica apartar os islâmicos. Eis como uma preocupação legítima, de esquerda, progressista, dá margem, assim, para que ela seja ressignificada pela direita. E é ela uma ameaça real na Europa de hoje, infinitamente maior do que fanáticos terroristas.

 

 

Gabriel Vieira Bordin é cientista social.

Blog: Laboratório Dialético.

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Última atualização em Segunda, 19 de Janeiro de 2015
 

A publicação deste texto é livre, desde que citada a fonte e o endereço eletrônico da página do Correio da Cidadania




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