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Mortos insepultos Imprimir E-mail
Escrito por Frei Betto   
Segunda, 12 de Janeiro de 2015
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Todo escritor se posta na janela da alma para observar o mundo. Não faz mais do que traduzir em palavras o que, para muitos, seria indizível.

 

Cada autor possui seu próprio binóculo, sem que se possa compará-los. Machado de Assis enxergava por seu ceticismo crítico e Guimarães Rosa evocava a ruralidade ameaçada, qual lamento nostálgico de quem vê a explosão urbana destruir uma cultura enraizada na sabedoria, e não na erudição.

 

A fé cristã sempre me induz à esperança, ainda que, como Abraão, me falte razões para abraçá-la. A crença no mais radical ato histórico, a ressurreição da carne, como frisava Hélio Pellegrino, quase me obriga a bancar o arremedo do profeta Ezequiel e proclamar que, no campo dos mortos, os ossos se recobrirão de carnes e os cadáveres se erguerão com vida.

 

Há momentos, entretanto, que minha esperança tropeça. Minha desolação sequer ganha pernas para se erguer como indignação.

 

É o que me ocorre quando vejo o novo ministro da Defesa, Jaques Wagner, declarar que assume o cargo sem “uma lanterna na mão para o passado” e chega para “cicatrizar as feridas”.

 

Isso quase no dia seguinte à divulgação dos relatórios da Comissão Nacional da Verdade, que apurou os crimes da ditadura militar, sem que o governo se empenhe em punir os responsáveis (e espero que não o faça na mesma medida em que foram punidas as vítimas, com torturas, estupros, mortes, sequestros, exílios, banimentos e desaparecimentos).

 

A adotar essa lógica, devemos pedir aos judeus que esqueçam Auschwitz? Aos palestinos que aceitem as ocupações de suas terras e as atrocidades do governo de Israel na Faixa de Gaza? Aos povos indígenas que deixem de cobrar a dívida histórica que se acumula sem pesar em nossa consciência?

 

O memoricídio é a garantia da perpetuação do mal. Toda a Bíblia foi escrita e sacralizada para se impedir que o olvido pague a fiança do sofrimento irreparável; no entanto, é possível evitar a sua repetição.

 

Em um governo presidido por uma mulher que sofreu torturas e prisão, não se pode pedir à nação para compactuar com assassinos e seus cúmplices, que insistem na paz dos cemitérios. Há, sim, que projetar muita luz sobre o passado.

 

O Brasil tem o dever de, à semelhança da Argentina, do Chile e do Uruguai, julgar aqueles que foram responsáveis por acionar a máquina de terror movida pelas mãos do Estado fardado.

 

O filme O arrependimento, de Tengiz Abuladze, conta a história da morte do prefeito de uma pequena cidade. Todos choram, exceto a mulher que vive de fazer bolos em forma de igrejas. É uma das vítimas da prepotência daquela autoridade e, agora, insiste em manter o cadáver insepulto. Desenterra-o a cada noite, para que ninguém se esqueça daquele que encarnara a opressão.

 

Feridas causadas pelo arbítrio não se fecham com cicatrizes, e sim com justiça.

 

Frei Betto é escritor, autor de “Diário de Fernando – nos cárceres da ditadura militar brasileira” (Rocco), entre outros livros.

 

Website: http://www.freibetto.org/

Twitter: @freibetto.

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