Estados Unidos no Oriente Médio: a aliança involuntária

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Ao iniciar de maneira otimista o maciço ataque ao Iraque em março de 2003, os Estados Unidos tinham a expectativa de que isso seria mais um passo com vistas ao enfraquecimento do Irã, considerado seu adversário desde abril de 1979, quando da radical alteração do quadro político – de monarquia semi-absolutista à república teocrática, de fundamentação xiita.

 

Com a esperança de implementar democracias formais no Afeganistão e no Iraque que fossem próximas do Ocidente e com a fixação da cotação do petróleo em um patamar em torno de 30 dólares o barril, Washington aguardava a ampliação do isolamento político de Teerã e o consequente declínio econômico, em função da extrema dependência do país no tocante às fontes petrolíferas.

 

Passados mais de dez anos, o cenário vislumbrado no Oriente Médio pelos norte-americanos não se materializou. Ao contrário, ele deteriorou-se, uma vez que o posicionamento antiamericano se acentuou, com a emergência até de um projeto fundamentalista – o chamado Estado Islâmico do Iraque e do Levante, de base sunita, com ocupação estimada de cerca de 30% de terras iraquianas.

 

Destarte, regimes democráticos não se consolidam de forma alguma nos dois países invadidos; o preço do petróleo, após subir vários anos, com exceção de 2009, somente agora aparenta cair de modo mais duradouro; por fim, não houve debilidade no Irã que ocasionasse nele transformação política significativa.

 

Diante de dois fracassos militares, de uma crise econômica com persistentes efeitos mundiais a datar do final de 2008 e do crescente desgaste da administração do presidente Barack Obama, haja vista o resultado desanimador do Partido Democrata na eleição de novembro último, os Estados Unidos encontram-se em uma encruzilhada na política externa.

 

O país é obrigado a aceitar, mesmo de modo indireto e involuntário, o auxílio de tradicionais rivais como Síria e Irã, com o propósito de conter o avanço do radicalismo na região médio-oriental e arredores.

 

Há poucos dias, o governo iraniano executou missões aéreas em solo iraquiano, a fim de desarticular movimentações dos integrantes do Estado Islâmico próximas de sua fronteira. Até então, a característica dos voos era a de monitoramento tão somente.

 

Com a medida, Teerã aproxima-se de Washington, que se vale também do amplo emprego da aviação para opor-se aos adversários locais. Assim, a Casa Branca utiliza de caças tradicionais até veículos aéreos não tripulados. O desdobramento vai da vigilância até bombardeios a alvos identificados com o terrorismo.

 

Com a recente mudança da postura militar dos iranianos, registra-se o estreitamento político, a despeito da contrariedade norte-americana, entre eles e os iraquianos. O auxílio aéreo, a despeito da obsolescência tecnológica, complementa a utilização de contingentes da Guarda Revolucionária no combate ao fundamentalismo sunita fora das próprias fronteiras. Especula-se ainda que Bagdá receba de forma contínua armamentos de Teerã.

 

De todo modo, a presença iraniana representa mais um embaraço na intervenção norte-americana na região, por significar o fracasso do vultoso treinamento das forças militares iraquianas, incapazes de resistir às milícias integristas, bem coesas em termos de ideologia.

 

Recorde-se que, logo após a queda da ditadura de Saddam Hussein, os Estados Unidos extinguiram as forças armadas locais e constituíram outra bem menor – com um décimo da existente, e mais simples –, sem aeronáutica nos primeiros momentos. Hoje, muitos veteranos destituídos daquela época, entre os quais o General Izzat al-Douri, estabelecem alianças ad hoc com os radicais ou compõem seu quadro.

 

Em certa medida, a situação rememora o malogro da Guerra do Vietnã na década de 70. Acresça-se que a população iraquiana decepciona-se com o atual governo, considerado um dos mais corruptos do planeta. Diante disso, há apenas uma única certeza para os próximos anos: a continuação da instabilidade.

 

Virgílio Arraes é doutor em História das Relações Internacionais pela Universidade de Brasília e professor colaborador do Instituto de Relações Internacionais da mesma instituição.

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