A Indiscutível Resistência da Revolução Cubana

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Qualquer balanço da Revolução Cubana, mesmo quando inicia sua agonia final, registra seu indiscutível sucesso histórico.

 

Em 1959, augurava-se vida breve aos guerrilheiros vitoriosos sobre Fulgencio Batista, o preposto yankee em Cuba. Eles eram poucos e não sabiam muito o que fazer com a vitória.

 

Piada cubana conta que, ao baixar da Serra, Fidel reuniu seus próximos e, sobre uma cadeira, gritou: - Quem é professor! O primeiro a dizer sim foi nomeado ministro da Educação. Ao perguntar quem era economista, no fundo da sala, Guevara levantou o braço, obtendo a direção da economia. Mais tarde, quanto Fidel lembrou que ele era médico e não economista, surpreso, o argentino respondeu: - Entendi que perguntavas quem era comunista!

 

A brincadeira registrava a improvisação inicial e a enorme estranheza dos guerrilheiros ao marxismo, fora as exceções como o Che. Então, Fidel declarou não ser comunista. Para não dizer mais.

 

Porém, em 1960, Cuba proclamava-se socialista! Explica-se essa aceleração como devida aos imediatos ataque USA e a solidariedade da URSS, maravilhada pelos feitos dos jovens  barbudos a 120 km do gigante imperialista!

 

A Revolução Cubana tem sido narrada como epopeia de  guerrilheiros que, desde as alturas da Serra, multiplicaram-se até a vitória. Tal relato causou terríveis estragos na esquerda latino-americana, ao tentar repetir a receita  milagrosa.

 

Difundida pela direção do 26 de Julho, a ótica da Serra minimizou o tufão revolucionário que abalou Cuba, fragilizando a ditadura e alimentando os combatentes. O relato facilitou o eterno monopólio do poder pela equipe fidelista.

 

Porém, a revolução venceu devido à população e a opção socialista foi o modo de obter tudo que exigia trabalho, educação, saúde, moradia, dignidade. Em 1976, a Constituição cubana sancionava a indissolúvel união da revolução e do socialismo, banindo a propriedade privada dos meios de produção.

 

A agressão sem fim do gigante imperialista não foi gratuita. Com a revolução avançando no mundo, necessitava aplastar Cuba, para que os ventos caribenhos não sublevassem a América humilhada.

 

Não se constrói o socialismo em um país e menos ainda em  ilha de escassos recursos naturais e população, ao pé do ogro capitalista. Cuba sobreviveu inserida na divisão internacional do trabalho orquestrada pela URSS, conhecendo as sequelas de gestão à margem da população mobilizada. Contexto que fortaleceu o monopólio do poder da direção restrita do MR 26 de Julho.

 

O que não avança, retrocede. O futuro da URSS e dos países socialistas burocratizados dependia do confronto mundial entre  capital e trabalho. A maré revolucionária de 1960-70 esmoreceu nos anos 1980 e foi abatida nos anos 1990 pela reação liberal-capitalista que destruiu os Estados de economia nacionalizada e planejada.

 

Cuba viveu golpe terrível com a vitória mundial contrarrevolucionária. Da noite para o dia, viu-se sem compradores de sua produção, sem fornecedores de combustível, sem repostos para a indústria.

 

Em inícios dos anos 1990, isolada no Caribe, sob o ataque crescente do governo USA, vaticinou-se a debacle imediata da revolução.

 

Mas Cuba seguiu avante, aprovando as medidas do Período Especial em Tempo de Paz, que reorganizaram duramente a produção e  consumo, protegendo-se velhos, doentes e crianças.

 

Porém, as consequências estratégicas das medidas ditas transitórias não foram discutidas pela população. Propostas como defesa da revolução, elas avançaram a restauração capitalista, aos moldes do Vietnã e da China.

 

Privilegiou-se o turismo mundial e as relações com o capital europeu. Iniciou-se abertura ao capital privado associado ao Estado e, logo, independente. Incentivou-se o trabalho por conta própria ("cuentapropismo"), criando base social pró-capitalista. A gestão das sociedades estatais e mistas foi entregue a altos funcionários e ao exército.

 

Foram criadas duas moedas, uma vinculada ao dólar e ao mercado privado,  a outra, à produção e emprego estatal. Um taxista privado recebe por   corrida o salário mensal de um professor universitário.

 

A Reforma constitucional de 1992 e a Lei 77, de “Inversões Estrangeiras", escancarou a economia aos capitais privados,  à exceção da saúde, educação e forças armadas.

 

As medidas não obtiveram os resultados almejados. Mesmo  com o arrocho dos salários públicos, o acesso à saúde, segurança, educação e moradia dificultava a formação de legião de trabalhadores empregando-se a preço vil, sob o açoite do desemprego. Para que o  capital chegasse aos borbotões e reorganizasse a ilha, era necessário a reconstrução do reino da necessidade.

 

Em abril de 2011, sob a  batuta de Raul Castro, o VI Congresso do Partido Comunista de Cuba aprovou burocraticamente  proposta de licenciamento de 500 mil trabalhadores e orientações privatizantes para a educação, saúde, pensões e propriedades estatais.

 

Porém, o desemprego maciço jamais se efetivou, privilegiando-se a erosão crescente da área pública em favor da privada. Sob a ameaça estadunidense, a burocracia cubana teme explosão social motivada pela liquidação abrupta do que resta da era revolucionária. Hoje, são enormes as diferenças sociais e mais de 20% da população vive em  condições de pobreza. A exploração e a acumulação capitalistas desembarcaram e aninharam-se na ilha.

 

O restabelecimento das relações USA-Cuba assinala que o governo yankee não aposta apenas na restauração explosiva do capitalismo, como na Europa Oriental. Membro do Partido Comunista Cubano, favorável à orientação privatista, segredou-me temer, não o grande capital USA, mas o desembarque de milhares de agressivos gusanos com dólares suficientes para  comprar meia ilha.

 

Artigo publicado no Caderno de Sábado do Correio do Povo, Porto Alegre, 10.01.2015.

Mário Maestri é historiador e professor do Programa de Pós-Graduação em História da UPF. E-mail: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.

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