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2015: nova ofensiva neoliberal Imprimir E-mail
Escrito por Valéria Nader e Gabriel Brito, da Redação   
Segunda, 05 de Janeiro de 2015
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É com frustração e preocupação, talvez inéditas nos últimos 15 anos, que cidadãos, movimentos sociais, trabalhadores, além de enorme parte de estudiosos, intelectuais e políticos desse país, começam o ano de 2015. Às nomeações ministeriais já anunciadas para a área econômica no final de 2014, e que prometiam um ano duro para a classe trabalhadora e o fim de qualquer ilusão desenvolvimentista, vieram novos e ainda mais desconcertantes anúncios de integrantes para as pastas do governo.

 

O nosso entrevistado especial nesse início de 2015 é o cientista político Ruda Ricci, doutor em Ciências Sociais pela Unicamp e diretor geral do Instituto Cultiva em Minas Gerais. O cientista político é implacável ao avaliar a gestão de Dilma, uma ‘governante sofrível’, segundo suas palavras, já que “o fato concreto é que Dilma Rousseff não nasceu para a política. Nasceu para ser gerente (...) Um político governando a sétima economia do mundo não pode ser um mero gerente. Por este motivo, Dilma desmontou o arco de alianças que Lula construiu, não conseguiu empolgar a população, não liderou nenhum desafio ou adversidade nacional e, pior, abriu uma imensa avenida para a articulação política da direita e extrema-direita em nosso país. Sem viço, sem projeto, sem sensibilidade e habilidade políticas, fomos entregues a um Café Filho ou um Dutra de esquerda, enfim, alguém que está nos livros de história, mas que poucos se recordam efetivamente de sua importância”.

 

Quanto à campanha eleitoral, ‘violenta e ideologicamente demarcada’, esteve intrinsecamente associada a estas características que Ricci associa à presidente: “sem isto, a candidata lulista não venceria. E não venceria porque não empolgava. O lulismo tem como marca a conciliação de interesses para atrair investimentos e sustentar a agenda rooseveltiana. Evidentemente, as marcas de uma campanha tão acirrada são incongruentes com este ideário lulista”.

 

O ministério que foi formado pela presidente para o seu segundo mandato está, para o cientista político, entre os mais conservadores dos últimos tempos, e tem o ‘gosto da capitulação’. “Dificilmente, os tucanos escolheriam um ministério tão conservador e monetarista quanto o escolhido por Dilma Rousseff para o segundo mandato”, observa.

 

Para o futuro, especialmente para o ano de 2015, não há motivos para otimismos. Em uma conjuntura em que, à crise externa, junta-se a interna,  “se as políticas monetaristas anunciadas forem aplicadas, não tenho dúvidas de que o impacto sobre o emprego e custos de sobrevivência dos trabalhadores aumentará gradativamente a frustração com o novo governo Rousseff. A isso se somará o ressentimento da classe média tradicional, a menos beneficiada pela agenda rooseveltiana lulista. Como não há, no momento, partido político capaz de capitanear este descontentamento, é bem provável que o ressentimento e frustração deságuem nas ruas”.

 

Finalmente, Ricci começa a vislumbrar no horizonte o ocaso do petismo, em função de uma leva de dirigentes cada vez menos capacitados politicamente e que, em face da sempre aventada ‘correlação de forças’, caminham mais à direita a cada eleição que passa.  Trata-se de uma “espiral nonsense que vai desfigurando os governos petistas a cada quatro anos (...) A   campanha só foi o que foi porque o petismo perdeu o encantamento de outras eleições”.  Para o  lulismo, por sua vez, o cientista político também não enxerga perspectivas alentadoras: “a colheita pós-eleitoral é altamente perniciosa para a intenção de gestão lulista, evidentemente”.

 

Leia a entrevista completa com Ruda Ricci, que ainda avalia o diz-que-diz em torno a um bastante improvável, em sua opinião, impeachment da presidente e as possibilidades que se abrem para a esquerda mundial e no Brasil.

 

Correio da Cidadania: Após o ano em que a população foi massivamente às ruas em busca de direitos, 2014 findou em meio a tremendos escândalos políticos, depois de um acirrado processo eleitoral. Como avalia o último ano do primeiro mandato de Dilma Rousseff à frente do Planalto?

 

Rudá Guedes Ricci: Penso ser necessário dividirmos a avaliação do desempenho de Dilma Rousseff em 2014 em duas partes: como governante e como candidata. Como governante foi sofrível. Dilma tende a vender uma imagem de ser uma fera enjaulada, cercada por interesses que não tolera ou são impostos por forças maquiavélicas. O ministério que se anuncia para 2015, que aparece como escolhido a dedo pela presidente, é dos mais conservadores da história recente de nossa República. E não mais honesto que os anteriores. Portanto, a presidente nunca teve do que reclamar.

 

O fato concreto é que Dilma Rousseff não nasceu para a política. Nasceu para ser gerente. E se há algo que precisamos desesperadamente em nosso país é de políticos preparados e com sensibilidade. Gestor se encontra em qualquer esquina, qualquer empresa. Liderança política e estadista é um produto histórico, de anos e anos de cultura democrática, de jogos habilidosos, de capacidade de escuta e negociação. Um político governando a sétima economia do mundo não pode ser um mero gerente. Por este motivo, Dilma desmontou o arco de alianças que Lula construiu, não conseguiu empolgar a população, não liderou nenhum desafio ou adversidade nacional e, pior, abriu uma imensa avenida para a articulação política da direita e extrema-direita em nosso país. Sem viço, sem projeto, sem sensibilidade e habilidade políticas, fomos entregues a um Café Filho ou um Dutra de esquerda, enfim, alguém que está nos livros de história, mas que poucos se recordam efetivamente de sua importância.

 

Já como candidata, a situação foi diferente. O desempenho nos debates foi pífio, é verdade. Sua sorte foi ter como adversário alguém que não nasceu para liderar e não tem a força ou a formação pessoal para pensar e dirigir o país. Qualquer outro candidato com estofo político teria criado problemas praticamente insolúveis para a coordenação de campanha de Dilma Rousseff.

 

Entretanto, o comando de campanha petista foi o mais profissional que já se teve notícias em terras tupiniquins. A fartura de pesquisas qualitativas e quantitativas que tinham em mãos e a frieza e capacidade de leitura e planejamento foram impressionantes. Uma semana antes das eleições do primeiro turno, o comando de campanha petista detalhou – numa mensagem em que respondia a dúvida sobre as dificuldades de enfrentarem Aécio (e não Marina) no segundo turno – o que ocorreria, semana após semana do segundo turno, vaticinando que Dilma venceria com 53% dos votos.

 

A precisão do planejamento me deixou estarrecido a ponto de fazer uma brincadeira com um amigo, arquiteto paulistano, que, se o resultado fosse exatamente o que eles haviam me descrito, eu não teria mais nada a fazer no Brasil como cientista político e me transferiria para a Bulgária. Até hoje este amigo me pergunta qual a cidade e endereço búlgaro que ele terá como pousada nas suas próximas férias.

 

Correio da Cidadania: O que mais diria do recente processo eleitoral, bem como da vitória de Dilma neste pleito, com a margem de votos mais estreita dos últimos tempos?

 

Rudá Guedes Ricci: Vi que os projetos tucanos e petistas chegam ao seu ocaso. O PSDB tem um diagnóstico anacrônico sobre o Brasil. Por pura birra (que o PT também destilou quando do Plano Real), não quer admitir que o governo Lula mudou o nosso país, que o desemprego despencou, assim como a pobreza, e que, num país onde a mobilidade social é miragem, ela ocorreu em uma década, como nunca se viu antes. O modelo rooseveltiano (anos-luz de qualquer agenda de esquerda) criou condições para a consolidação de um potente mercado consumidor e fomento a uma indústria nacional emergente.

 

Não foi qualquer sonho de noite de verão o país comprar quase todas as cervejarias do Cone Sul, a Budweiser e os dois maiores frigoríficos dos EUA, comandar (via Petrobrás) quase 25% do PIB da Bolívia, investir na América Central e África com recursos oriundos do BNDES (que se tornou o terceiro banco de fomento do mundo, com recursos superiores aos do Banco Mundial e Banco Interamericano de Desenvolvimento). O PSDB teve seu candidato despencando nos dez dias seguintes ao lançamento da candidatura de Marina à presidência, o que demonstra a fragilidade de seu candidato (que, aliás, perdeu três vezes seguidas em seu estado, Minas Gerais, entre o primeiro e segundo turnos das eleições estadual e nacional).

 

Já a candidata petista já teve no ano de 2013 o prenúncio de sua fragilidade e divórcio popular. Em maio de 2013, mais de 920 mil beneficiários do Bolsa-família sacaram de suas contas na Caixa em virtude de um mero boato que sugeria que esta política de transferência de renda terminaria. Ora, como o eleitorado mais fiel ao lulismo poderia se apavorar se o boato não fosse verossímil? E, se verossímil, evidentemente que este fato já revelava uma economia capenga.

 

As manifestações de junho deram o sal a este clima de insegurança e, se é fato que foram protagonizadas por jovens de classe média, também é necessário reconhecer que sua revolta envolveu muitos outros brasileiros que não saíram às ruas e já se sentiam ressentidos ou inseguros. Com efeito, foram 4 milhões que protestaram nas três semanas de junho, mas os índices de popularidade de Dilma caíram pela metade nos meses seguintes, envolvendo muito mais cidadãos que os que protestaram nas ruas.

 

A campanha eleitoral foi violenta e ideologicamente demarcada porque, sem isto, a candidata lulista não venceria. E não venceria porque não empolgava. O lulismo tem como marca a conciliação de interesses para atrair investimentos e sustentar a agenda rooseveltiana. Evidentemente, as marcas de uma campanha tão acirrada são incongruentes com este ideário lulista.

 

Em suma: estou defendendo a tese de que a campanha só foi o que foi porque o petismo perdeu o encantamento de outras eleições. A colheita pós-eleitoral é altamente perniciosa para a intenção de gestão lulista, evidentemente.

 

Correio da Cidadania: O que diria da esperança que se relançou em torno ao PT e o governo Dilma, até mesmo reunindo algumas correntes de esquerda, em função de se evitar aquele que seria um retrocesso ou um mal maior?

 

Rudá Guedes Ricci: A unidade se deu em função do retrocesso que seria a vitória de Aécio Neves, até mais que por ser candidato do PSDB. Afinal, PT e PSDB são muito próximos como governos. Dificilmente, os tucanos escolheriam um ministério tão conservador e monetarista quanto o escolhido por Dilma Rousseff para o segundo mandato. Mas Aécio tem um perfil pessoal semelhante ou pior que o de Collor. Não tem em sua história nenhuma luta democrática ou por ampliação de direitos sociais. Tem rosto de yuppie, amigos yuppies e bastava ler a coluna de Juca Kfouri para qualquer pessoa com algum valor humanista ou de esquerda saber que teria de se fazer de tudo para que o senador mineiro não se elegesse.

 

Mas isto nunca significou um apoio sem críticas ou desconfianças ao que seria o segundo mandato de Dilma Rousseff. Ao contrário, estive em Brasília para fazer uma análise de conjuntura para as principais organizações populares do país, em reunião realizada na sede da CNBB, e era visível o realismo (e frustração) que tais lideranças apresentavam a respeito de um provável segundo mandato da presidente, alguns meses antes do início da campanha eleitoral.

 

Acredito que o anúncio do ministério foi a pá de cal. A agitação de bastidor envolvendo lideranças, organizações de esquerda e movimentos sociais no final de 2014 é reveladora. Já há, inclusive, muitas discussões para a criação de partidos políticos com perfil próximo ao do Podemos espanhol.

 

Correio da Cidadania: O que se pode chamar de esquerda hoje no Brasil e como avalia o seu desempenho e postura neste último pleito? Vê no horizonte alguma possibilidade de união das chamadas esquerdas para enfrentar o próximo período?


Rudá Guedes Ricci: Primeiro, vou definir o que entendo ser esquerda neste início de século 21. Começo pela definição de Norberto Bobbio: trata-se de um ideário que prioriza a igualdade social como meta de organização da sociedade. Este é o enunciado geral. Mas, para garantir a igualdade, não basta a melhoria material da vida, mas o respeito à diferença - à existência de diferentes formas de viver com dignidade - e à autonomia política. Porque a igualdade formal sob o domínio de uma força política é o rebaixamento da existência humana à condição de sobrevivência. E o humano não se resume à existência material, mas à própria capacidade de se fazer, de criar, de construir sua essência, de fazer escolhas.

 

A agenda de ampliação dos direitos civis, portanto, é um marco mundial que distingue o ultra-fundamentalismo da direita da defesa intransigente do respeito à diferença, da esquerda. Finalmente, acrescentaria a agenda do desenvolvimento sustentável. Assim como a noção de progresso desaguou no neocolonialismo, como se o destino da humanidade fosse pautado pelo Ocidente, o desenvolvimento que dilapida a natureza e as condições de reprodução da vida natural é inconcebível para qualquer projeto de esquerda, justamente porque colocaria o lucro e a produção de bens materiais acima da vida.

 

Neste sentido, temos correntes e agrupamentos de esquerda em alguns partidos brasileiros, até do bloco majoritário do sistema partidário (PT, PDT, PCdoB e até parte do PMDB), mas são forças marginais e pouco expressivas em suas agremiações. Há, em outros partidos com menor impacto eleitoral (como PSOL, PSTU, parte da Rede, entre outros), propostas de valores e programas que vão nesta direção. Finalmente, começam a aparecer novas articulações, como a recente, sob o nome provisório de Avante (que terá seu primeiro encontro nacional em São Paulo, no dia 17 de janeiro), que se inspiram na experiência inovadora do Podemos espanhol.

 

O problema das agremiações mais à esquerda no Brasil é sua dificuldade em se tornar referência popular de massas. Continuam presas na intelectualidade jovem de classe média. Mas o Podemos e os protestos de rua deste início de século parecem orientar a inovação. Aguardemos.

 

Correio da Cidadania: Saindo do cenário brasileiro e tentando um olhar mais amplo, o que é a esquerda na Europa hoje? Partidos como o citado Podemos espanhol e o Syriza na Grécia podem ser tidos como tal?


Rudá Guedes Ricci: Sim. O Bloco de Esquerda português também tenta criar uma ponte com estas duas inovações que a pergunta destaca (Podemos e Syriza), assim como algumas iniciativas na Irlanda. O Podemos é, sem dúvida, a maior inovação do momento. Formado há menos de um ano, tem um forte apelo de massas, questionador, e faz ponte com a agenda socialdemocrata, com traços de alguma radicalidade. O Podemos articula a Esquerda Unida (oriunda do PCE), organizações de lutas urbanas que tiveram forte papel no 15M de 2011, trotskistas mandelistas e intelectuais jovens, como é o caso de Pablo Iglesias e os âncoras do programa de TV La Tuerka. É um fenômeno dos mais interessantes, porque revelou que são necessárias pontes entre os protestos de rua, as redes sociais e a formação de uma possibilidade política real, que se plasma, ainda, na televisão.

 

Na Espanha, o Partido X (Equis) também nasceu das ruas, mas não conseguiu fazer pontes, nem com movimentos sociais, nem com as plataformas televisivas. As redes sociais, enfim, mobilizam, mas são limitadas para organizar ou criar uma empatia mais estável. O Podemos, por tudo isto, parece indicar uma inovação. No caso da Espanha, consegue transitar pela agenda da ampliação dos direitos civis, pela igualdade (sugerem piso de 600 euros de renda individual e até mesmo um teto de renda) e pela mobilização de rua (estão organizando, para o final de janeiro, uma grande manifestação em todo país para demonstrar a sua força). Algo que não conseguimos atingir ainda no Brasil.

 

Correio da Cidadania: Nesse contexto mundial, o que é o marxismo atual e qual a apropriação possível que dele podem fazer movimentos e ou partidos que buscam um novo modelo de sociedade?

 

Rudá Guedes Ricci: O marxismo sempre revelou certa limitação na possibilidade de compreensão da individualidade. Afinal, trata-se de uma concepção teórica e política tipicamente moderna, cujo lastro são conceitos totalizantes, de compreensão total da realidade (e que, dificilmente, incorporam estruturas fragmentadas de organização e expressão social). O que vivemos nos últimos anos são, justamente, estruturas de organização lacunares ("structural holes"), não verticais, móveis e muito instáveis (ou até provisórias), típicas das estruturas em rede. O marxismo pode conseguir realizar este aggiornamento a partir da realidade.

 

Aliás, Marx, no final de sua vida, ao ser questionado por um jornalista sobre o que seria o marxismo, respondeu que não saberia responder porque não era marxista, mas Marx. Esta criatividade e dinâmica da teoria é que fazem da dialética marxista algo pujante, com o frescor do mundo real. Infelizmente, grande parte da esquerda brasileira não compreendeu isto e transformou o marxismo em dogma, como tão bem revelou Leandro Konder ao sustentar que a origem do marxismo brasileiro bebeu em águas positivistas.

 

Correio da Cidadania: O que espera para a economia mundial nos próximos tempos, em vista de um período de evidente desaceleração econômica, crises políticas e até mesmo conflitos armados que têm vitimado a Europa, os Estados Unidos e as nações em desenvolvimento, na Ásia, África e América Latina? Imagina um futuro de novas movimentações sociais a la Primavera Árabe, Occupies, Indignados etc., onde poderia despontar, por exemplo, eventual associação de movimentos combativos e partidos à esquerda?

 

Rudá Guedes Ricci: Não há dúvidas de que não vivemos uma crise secundária da economia mundial. A partir de 2008, foi possível confirmar a mudança na divisão internacional do trabalho e a instabilidade econômica, tendo na China o seu principal pivô. Ora, um abalo desta magnitude leva consigo as instituições pretéritas. Este é o caso de muitas organizações multilaterais, como o FMI, que caduca como orientador para as economias em crise.

 

Ouvi de líderes do Podemos, com quem conversei no início de dezembro na Espanha, que na Europa ocorre o inverso do que imaginam ocorrer no Brasil. Se, no Brasil, a ascensão social de pobres com histórico de pobreza em sua família gerou um forte individualismo, na Europa, a deterioração da vida de classe média, também histórica, que levou tantos desempregados a procurar abrigo na casa de parentes, projetou uma intensa revolta e rebeldia, que alimenta os protestos de rua e as articulações mais radicais (à esquerda e à direita) no Velho Continente.

 

Entretanto, poucas dessas expressões públicas de revolta se projetaram como alternativa política, como o Podemos. A Revolução das Panelas na Islândia gerou uma nova Constituição Nacional com ampla participação social pelas redes sociais, mas acabou por não se sustentar politicamente, a ponto de os partidos conservadores voltarem a ganhar as eleições poucos anos depois da revolta de rua. Na Argentina, as Assembleias Populares que derrubaram De La Rúa se desintegraram com o advento do kirchenerismo. A Primavera Árabe não construiu bases efetivamente democráticas nos países por onde passou, embora sejam países com histórias profundamente distintas e com dependências regionais de graus também diferentes (a Tunísia, possivelmente, é o país que pode gerar avanços democráticos efetivos nos próximos anos).

 

Enfim, a crise criou forte desestabilização econômica, a volta (em algumas localidades) de um keynesianismo e/ou aperto fiscal que provocou revoltas de rua que raramente se plasmaram no campo institucional. Estamos, portanto, vivendo uma queda de uma Era sem que se pronuncie uma substituição nítida.

 

Correio da Cidadania: O que pode vislumbrar para o quarto mandato petista no Planalto, ao olhar para a nova configuração do Congresso e para a atual conjuntura econômica nacional e internacional?

 

Rudá Guedes Ricci: Um governo em eterna crise, interna e externa. Sem avanços na economia mundial (em 2010, a China investiu 13,6 bilhões de dólares no Brasil; em 2013, apenas 10% deste valor, para se ter uma noção do impacto da crise internacional sobre nossa economia), e sem avanços concretos na exploração do petróleo do pré-sal, dificilmente o governo Dilma conseguirá sair do marasmo que o envolveu nos últimos dois anos, em especial. E a composição à direita que define seu ministério tem gosto de capitulação.

 

Costumo afirmar que os dirigentes petistas da atualidade, muito menos capacitados politicamente que no passado, costumam justificar um passo à direita a cada eleição em virtude de uma tal “correlação de forças”. O problema é que a correlação de forças medida na atualidade leva o petismo oficial cada vez mais à direita, de tal maneira que na eleição seguinte a correlação de forças é ainda mais favorável às forças conservadoras, numa espiral nonsense que vai desfigurando os governos petistas a cada quatro anos.

 

Correio da Cidadania: Acredita que se desenha um tempo propício para novas manifestações populares no Brasil?

 

Rudá Guedes Ricci: Sim. Se as políticas monetaristas anunciadas forem aplicadas, não tenho dúvidas de que o impacto sobre o emprego e custos de sobrevivência dos trabalhadores aumentará gradativamente a frustração com o novo governo Rousseff. A isso se somará o ressentimento da classe média tradicional, a menos beneficiada pela agenda rooseveltiana lulista. Como não há, no momento, partido político capaz de capitanear este descontentamento, é bem provável que o ressentimento e frustração deságuem nas ruas. Mas não é nada tão certo e tão previsível. Lembremos que alguns teóricos afirmam que os protestos deste século são formados por "enxames", que surgem do nada e desaparecem da mesma forma, alimentados pela indignação, e não por um programa político.

 

Correio da Cidadania: O ano se encerrou muito agitado. Temos o escândalo da Petrobrás, um governo que, apesar da retórica eleitoral, já assumiu acordos com o mercado, um congresso ainda mais conservador e um cenário econômico pouco promissor. Caso as investigações de corrupção desmoralizem ainda mais o governo e a crise econômica se aproxime, é possível que vivamos um novo clima de impeachment?

 

Rudá Guedes Ricci: Não percebo, no momento, nenhuma possibilidade de impeachment. A direita é, ainda, folclórica em nosso país. Temos, contudo, a ascensão de um inusitado conservadorismo popular, de cunho religioso. É daí que imagino surgir lideranças de massa mais à direita, desta religiosidade privada, individualista e consumista. Mas ainda é uma mera promessa, porque líderes como Feliciano dialogam com os valores e comportamentos conservadores, mas não conseguiram formular um projeto de Estado. Ainda lhes falta uma coesão interna que vá além da mera reação política.

 

A candidatura do pastor Everaldo revelou o equívoco de aliar o conservadorismo comportamental com liberalismo econômico. São incongruentes em nosso país. Os mesmos fiéis conservadores são os que desejam um Estado Providência, protetor, que os auxilie a saltar na sua condição de vida. É aí que a direita folclórica tupiniquim não se aventura e se limita.

 

O país, contudo, estará mais à deriva que nos últimos anos e será disputado a tapa, à direita e à esquerda. Não vejo uma liderança de centro, tal como foi Ulysses Guimarães, para segurar o país e chamar a responsabilidade do campo institucional para solucionar impasses (como foi no caso do impeachment de Collor). A impressão que fica é que as crises terão como termômetro as ruas.

 

Correio da Cidadania: Como imagina que ficarão as pautas associadas aos movimentos populares e progressistas no Brasil nesse próximo período? A partir de uma ótica progressista, o que imagina como atuação política possível para levá-las adiante?

 

Rudá Guedes Ricci: Primeiro, precisamos ter claro que muitos movimentos sociais dos anos 1980 e 1990 são, hoje, organizações. O caráter horizontal e de massas se estreitou para algo mais focado na sobrevivência privada das organizações. Formam-se quadros em cursos de formação próprios, formam-se hierarquias nas organizações, privilégios, disputas por financiamentos e controle de base política.

 

Segundo, é preciso compreender que há certo estranhamento – não intransponível – entre organizações populares que por muito tempo foram base política do lulismo e novas lideranças e articulações políticas que nasceram nos protestos de junho de 2013. A disputa ocorrida nas semanas que antecederam a Copa do Mundo de Futebol revelou nitidamente este divórcio (entre MTST, sindicatos e Comitês Populares da Copa e articulações autonomistas e anarquistas). Finalmente, a agenda que pode unificar todas estas articulações políticas de base, de ampla representação ou impacto popular, ainda não é nítida.

 

A partidarização excessiva (ou alinhamento partidário ou, ainda, formação de correia de transmissão partidária) ocorrida nas últimas duas décadas gerou uma perigosa proximidade dos movimentos sociais com a burocracia partidária e estatal, que só recentemente começa a ser revista. Não se sabe se a agenda da reforma política é o caminho da construção da unidade. Esta construção será dolorosa e cheia de atritos e disputas.

 

Talvez, um possível agravamento das condições sociais e a explosão – ainda que pontual – de novos protestos de rua acelerem a construção de acordos no interior deste campo político. Mas, no momento, nada parece iminente ou de fácil resolução. O Brasil, enfim, é um campo aberto de disputa política e ideológica como há muito não se via.

 

 

Valéria Nader, jornalista e economista, é editora do Correio da Cidadania; Gabriel Brito é jornalista.


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Última atualização em Terça, 27 de Janeiro de 2015
 

A publicação deste texto é livre, desde que citada a fonte e o endereço eletrônico da página do Correio da Cidadania




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