PT não pode ser um “partido eleitoral”, diz José Eduardo Cardozo

 

 

O Correio da Cidadania entrevista, com exclusividade, o deputado federal José Eduardo Cardozo (PT/SP), candidato à presidência de seu partido pela chapa "Mensagem ao Partido" e um dos mais proeminentes parlamentares da legenda.

 

Segundo Cardozo, o intuito de sua candidatura no PED (Processo de Eleições Diretas do PT) é reaproximar o partido das bases e dos movimentos sociais, algo que considera ter sido deixado de lado por dirigentes do PT nos últimos anos. O deputado ainda coloca em pauta a questão da diferenciação entre o partido e o governo - cuja linha tênue precisa ser respeitada -, a obrigação da fidelidade partidária e analisa as críticas feitas por dissidentes petistas desde as eleições que levaram Lula ao poder, em 2002.

 

 

Correio da Cidadania: Qual análise você faria da conjuntura interna do PT nos dias atuais?

 

José Eduardo Cardozo: Há uma avaliação de que a forma de gestão do partido, da direção que o partido teve nos últimos anos, está totalmente exaurida e precisa ser modificada. Nós passamos por uma crise profunda, a qual, no entanto, não eliminou o acúmulo histórico do partido. Somos hoje o maior partido de esquerda que o país já teve, somos, indiscutivelmente, o partido que elegeu pela primeira vez uma pessoa oriunda da classe trabalhadora como presidente da República.

 

Há esse patrimônio adquirido na história do Brasil que é inegável, e só nos orgulha. De outro lado, a forma pelo qual o PT tem sido dirigido e os métodos da direção nos levaram a uma crise que exige uma renovação, uma nova direção partidária.

 

CC: Que acúmulo de forças internas levou à sua candidatura à presidência do partido?

 

JEC: A chapa "Mensagem ao Partido", de nossa candidatura, foi criada a partir da perspectiva que mencionei antes, e tem o apoio de pessoas que nunca atuaram juntas, antes, no PT, como os ministros Tarso Genro e Fernando Haddad, Olívio Dutra, Raul Pont, Miguel Rossetto e a governadora Anna Júlia Carepa.

 

Contamos também com a simpatia declarada do governador baiano Jacques Wagner, dos prefeitos João Paulo, de Recife, Luizianne Lins, de Fortaleza; são mais de 150 prefeitos em todo o país. Intelectuais como Marilena Chauí, Maria Victoria Benevides, Maria da Conceição Tavares, Paulo Singer e Mário Sérgio Cortella também estão ao nosso lado.

 

Toda essa conjugação de forças se dá exatamente em cima de uma reunião de idéias e de princípios em uma nova forma de gestão que queremos colocar para todo o Partido dos Trabalhadores e implementar no caso de sermos eleitos.

 

CC: Quais seriam os principais elementos dessa nova forma de gestão?

 

JEC: Em primeiro lugar, é necessária uma mudança na forma pela qual o PT trata a sua democracia interna. Não podemos deixar mais que um pequeno grupo de pessoas decida as políticas futuras do partido; é necessário que os militantes sejam respeitados, que as instâncias de base dos partidos voltem a funcionar, que os núcleos partidários sejam reativados. Também membros do partido, quando possuem posições divergentes, que não expressam a posição da direção, não podem ser massacrados, perseguidos, excluídos da vida partidária de fato.

 

Em segundo lugar, há a questão da ética. Colocamos a ética como pressuposto da ação partidária - mas sem colocá-la como foco de disputas políticas. É preciso que a ética seja um pressuposto na partida e um fim a ser alcançado por um partido que se propõe a construir a democracia e o socialismo no país; a criação de um código de ética que valha para todos os militantes, dirigentes e parlamentares é algo diferencial em nossas propostas.

 

Um terceiro ponto é a questão relativa à distinção entre partido e governo. Precisamos ter uma divisão muito clara nessa questão; dirigentes partidários não podem ser porta-voz do Planalto, o partido não pode ser pura e simplesmente uma caixa de homologação do Executivo. Temos que defender e apoiar nosso governo, mas também sempre propor políticas que, evidentemente, o direcione à construção daquilo que nos parece correto.

 

Finalmente, há a questão dos movimentos sociais. O PT é um partido que se afastou profundamente desses movimentos; precisamos voltar a apoiá-los, para que possam ter autonomia, para que possam atuar e até, quando necessário, nos criticar.

 

CC: O que responderia aos críticos do PT que, além de citar os pontos que você mencionou anteriormente como demonstrativos de abandono de bandeiras históricas, acusam, desde o processo que levou Lula à presidência em 2002, o partido de priorizar o caminho eleitoral?

 

JEC: Acredito que são críticas corretas. O PT não pode ser um partido que vive de eleições, mas sim um partido que deveria viver de seus militantes. E a militância não pode estar agregada apenas durante as disputas eleitorais, tem que ser chamada para discutir políticas, para participar do cotidiano partidário.

 

Por isso, uma de nossas propostas é a de retomar o PT como um partido militante, não um partido eleitoral.

 

CC: Qual a sua opinião sobre a questão da fidelidade partidária, recém imposta pelo STF?

 

JEC: Defendemos, sim, a fidelidade partidária. Sem sombra de dúvidas, a fidelidade é algo muito importante para a democracia no país. No entanto, é bem verdade que melhor teria sido que essa decisão tivesse vindo não do STF, mas sim de uma ação do Poder Legislativo.

 

 

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