2015: perspectivas norte-americanas

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O ano vindouro traz a possibilidade de encerrar-se um dos últimos pontos da Guerra Fria: o do duradouro distanciamento político entre Estados Unidos e Cuba, a datar da transformação do regime há quase cinco décadas e meia.

 

No momento, é possível especular que as negociações a partir da ótica de Washington não tenham tido Havana como único alvo, mas estender-se-iam a Caracas, debilitada pela incapacidade administrativa do bolivarianismo e pelo inexorável decréscimo dos preços do petróleo.

 

Desta maneira, a atual movimentação da Casa Branca contemplaria em termos geopolíticos o afastamento gradativo de Cuba da abatida Venezuela e também da Rússia.

 

Caracas e Moscou não atraíram a atenção de Havana apenas em função da afinidade ideológica, o antiamericanismo, contudo pela petro-diplomacia, ou seja, a abundância relativa de divisas para investir e em especial auxiliar.

 

Nesse sentido, a lenta caminhada rumo à diminuição da cotação de fontes de energia atinge não somente determinados países, mas até o desenvolvimento de outras alternativas, como o biocombustível, o que limitaria Cuba na eventual produção do etanol derivado de cana de açúcar, e a do gás de xisto, bastante popular nos Estados Unidos ultimamente.

 

Sem opções viáveis de auxílio no curto prazo, uma vez que o próprio Brasil se encontra imerso em crise política e econômica originadas de modo curioso do segmento energético, o governo de Raul Castro pode ter se voltado para o de Barack Obama meses atrás a fim de revitalizar-se através de investimentos no segmento de turismo e da remessa de dólares, a partir dos numerosos exilados da Flórida.

 

Se a aproximação diplomática entre os dois consolidar-se, Cuba transformar-se-á, sem sombra de dúvida, do ponto de vista socioeconômico. Não deve ruir de uma vez só como a antiga União Soviética, porém, não será como a China que, em contrapartida aos maciços investimentos do Ocidente desde os anos 70, conseguiu manter seu regime ditatorial.

 

Se o encaminhamento desta questão aparenta favorecer a política externa de Washington, por outro lado, há uma remanescente do período da Guerra Fria que se destina a chateá-lo ainda mais: a da Coreia do Norte, também distante desde a década de 50. Cada vez mais isolado, embora amparado de forma discreta pela China, o país causa problemas em um setor no qual ele mesmo pode pouco sofrer: o cibernético.

 

A preocupação estadunidense não é militar, porém econômica, haja vista o sucesso da intimidação a um dos mais poderosos grupos da área de entretenimento, como retaliação à produção de um filme satírico ao regime comunista norte-coreano. Este conseguiu provar que pode atacar de maneira seletiva corporações privadas, menos protegidas em termos digitais.

 

Por fim, se mantido o ritmo da diminuição do preço do petróleo, isto poderá contribuir para estancar o crescimento de grupos fundamentalistas no Oriente Médio, notadamente o do Estado Islâmico do Levante e do Iraque, em decorrência da dificuldade cotidiana de financiamento. O Irã também será afetado de forma negativa.

 

Destarte, o que os Estados Unidos não conseguiram durante mais de uma dezena de anos através do emprego da força militar poderá ser obtido, mesmo de modo parcial, através da economia, a um custo material e humano muito menor.

 

Virgílio Arraes é doutor em História das Relações Internacionais pela Universidade de Brasília e professor colaborador do Instituto de Relações Internacionais da mesma instituição.

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