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A história é uma arma Imprimir E-mail
Escrito por Cassiano Terra Rodrigues   
Sexta, 19 de Dezembro de 2014
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“Havia uma incoerência perturbadora na sociedade. A política eleitoral dominou a imprensa e as telas de televisão, e os feitos dos presidentes, dos membros do Congresso, dos juízes do Supremo Tribunal e de outros oficiais passaram a ser tratados como se constituíssem a história do país. No entanto, havia algo de artificial nisso tudo, algo cheio de vento, um esforço para persuadir um público cético de que isso era tudo, que eles teriam de depositar suas esperanças de futuro nos políticos; e nenhum político era inspirador, porque parecia que, por trás do que havia de bombástico, por trás da retórica e das promessas, sua preocupação principal era com seu próprio poder político.

 

A distância entre a política e as pessoas refletia-se claramente na cultura. No que supostamente deveria ser o melhor da mídia, longe do controle dos interesses das corporações, isto é, na televisão pública, o público era amplamente invisível. No principal programa de debates políticos da televisão pública, o “MacNeil-Lehrer Report”, que passava à noite, o público não era convidado, exceto como espectador de um cortejo sem fim de deputados, senadores, burocratas de governo e especialistas de várias estirpes.

 

Na rádio comercial, excetuando-se a crítica fundamentalista, era particularmente evidente a estreita faixa de consenso. Em meados dos anos de 1980, com Ronald Reagan como presidente, a “doutrina da imparcialidade” (fairness doctrine) da Comissão Federal de Comunicações, que exigia um tempo de ar para visões do dissenso, foi eliminada. Por volta dos anos de 1990, a audiência dos “jornais falados” do rádio era em torno de 20 milhões de pessoas, diariamente expostas a “âncoras” de direita e sem convidados de esquerda em seus programas.

 

Uma massa de cidadãos desiludida com a política e com as fingidas e pretensamente inteligentes discussões políticas voltou sua atenção (ou teve sua atenção voltada) para o entretenimento, para a fofoca, para dez mil esquemas de autoajuda. Os que permaneceram à margem tornaram-se violentos, encontrando bodes expiatórios dentro do próprio grupo (como no caso da violência de negros pobres com outros negros pobres), ou contra outras raças, contra imigrantes, contra estrangeiros demonizados, contra mães solteiras sustentadas pelo sistema de seguridade social, contra criminosos menos importantes (que serviam de escudo aos intocáveis criminosos de alto escalão).

 

Havia também outros cidadãos que tentavam sustentar ideias e ideais ainda lembrados desde os anos de 1960 e início dos anos de 1970, não somente lembrando, mas agindo.

 

De fato, por todo o país havia uma parte do público que não era mencionada na mídia, ignorada pelos líderes políticos – energicamente ativa em milhares de grupos locais em todo o país. Esses grupos organizados faziam campanha em favor da proteção ao meio ambiente ou pelos direitos das mulheres ou por um sistema de saúde decente (inclusive com uma preocupação angustiada quanto aos horrores da AIDS) ou pela moradia para os sem-teto, ou mesmo contra gastos militares. Esse ativismo era diferente do ativismo da década de 1960, quando a onda de protesto contra a segregação racial e a guerra se tornou uma força nacional avassaladora. O ativismo dos anos de 1960 lutava ladeira acima, contra líderes políticos insensíveis, tentando alcançar os companheiros compatriotas que viam pouca esperança, fosse no voto, fosse na política de protestos”.

 

Howard Zinn, A People’s History of the United States, trecho traduzido do site http://www.historyisaweapon.com/defcon1/zinncarebu21.html, em 13/10/2014.

 

Após a leitura do trecho acima, qualquer semelhança com o atual momento brasileiro é resultado da mais pura ilação de quem lê.

 

Em tempos de muita eleição e muita sobrecarga de trabalho, a experiência cinematográfica sofre. Mas sempre se pode recomendar alguma coisa. Como diz o título do site, “a história é uma arma”. Poucos historiadores transformaram o conhecimento histórico em uma arma tão poderosa quanto o estadunidense, de ascendência judaica, Howard Zinn.

A obra de Howard Zinn inspirou ao menos duas realizações audiovisuais dignas de nota.

 

Criticado por não citar suas fontes em sua máxima obra A People’s History of the United States, Howard Zinn compilou, com a ajuda de Anthony Arnove, a magnífica coletânea Voices of a People’s History of the United States. Dessa empreitada, surgiu um filme, produzido por Arnove, que na verdade é uma homenagem filmada a Howard Zinn, na qual diversos atores e ativistas sociais leem trechos de seus escritos e dos escritos por ele compilados. Este filme chama-se The People Speak e pode ser visto clicando aqui.

 

A outra realização audiovisual é uma animação, na verdade, com fins promocionais. Com belos desenhos de Mike Konopacki, foi lançada uma história em quadrinhos intitulada “A People’s History of American Empire; para promover o lançamento, foi elaborado um resumo em desenho animado, que pode ser visto clicando aqui.

 

Cordiais saudações! E sobrevivamos às eleições, lutando para não sucumbir ao pó do populismo mais infame e maniqueísta das últimas décadas brasileiras.

 

 

Cassiano Terra Rodrigues é professor de filosofia na PUC-SP e esforça-se diariamente para vencer os próprios preconceitos.

Contato: cassianoterra(0)uol.com.br">cassianoterra(0)uol.com.br

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