No futuro, o que vou dizer lá em casa?

 

Embora a comparação de períodos históricos e de países seja complexa e difícil, certas observações gerais podem ajudar a compreensão de processos atualmente em curso. Em outros momentos da história, no Brasil e em outras nações, terror, tortura e morte foram impostos a setores da população por parte de outros setores, ou, pior ainda, pelo Estado. Passados os anos e mudado o regime político – sempre através de luta –, a construção da democracia passa, necessariamente, pela discussão e pelo acerto de contas com o passado (tarefa, de resto, ainda a ser realizada, no caso do passado brasileiro recente). Neste momento, muitos se isentam de responsabilidade – fosse por apoio, omissão ou conivência – em relação às práticas antes vigentes, afirmando que nada sabiam, que não tinham essas informações, que as mesmas eram omitidas ou censuradas pelas autoridades etc.

Pois bem, hoje, no Rio de Janeiro (e não só nele), o poder público eleito (e não só ele), que a todos governa e que lhes deve garantir os direitos, aterroriza, tortura e mata parcelas da população. O poder executivo estadual de fato combate a pobreza – matando pobres – e executa, no pior sentido do termo.

 

Em outros momentos de nossa história recente, uma parte dos funcionários públicos que praticava chacinas o fazia à paisana; na calada da noite ou da madrugada; anonimamente; e fora do horário de trabalho. Estas práticas eram ilegais, condenáveis e inadmissíveis. As matanças (ou chacinas) de Vigário Geral (1993), Candelária (1993) e Baixada Fluminense (2004) são exemplos famosos e recentes, embora, infelizmente, não tenham sido exceção, pois similares com menos repercussão midiática aconteciam e acontecem a cada dia.

 

A hipótese que levanto neste artigo é de que, em 2007, algo mudou. Agora a matança se faz durante o dia; com convocação antecipada, apoio e legitimação das câmeras e da mídia gorda; de farda; e com ordens e aplausos das autoridades estaduais e federais (e sem que se pronunciem os partidos até pouco tempo atrás de esquerda que fazem parte da base destes governos; o prefeito pefelista não chega a reclamar cada vez que morre um pobre) e da “sociedade”. As megaoperações no Alemão e em Senador Camará são exemplos.

 

Ficamos mais cínicos? Tornamo-nos indiferentes? Ou ambos? Se, daqui a dez, vinte ou trinta anos, o Brasil tiver avançado rumo à democracia, igualdade e Estado Democrático de Direito efetivos, o que vamos declarar às novas gerações em relação ao genocídio de hoje? Vamos dizer que “não sabíamos”, tal qual outros – no Brasil e em certos países – fizeram?

 

Rafael Fortes é professor, historiador e jornalista.

 

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