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A proposta do Estado Islâmico Imprimir E-mail
Escrito por Paul Demotte   
Sexta, 19 de Dezembro de 2014
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Há mais ou menos dez anos, o ensaísta suíço Christophe Gallaz constatava que o discurso adotado pelos responsáveis políticos ocidentais após o 11 de setembro, e depois dos atentados de Londres (07/07/2005), desenvolvia-se “exclusivamente em dois registros”: o do “estupor e o do “voluntarismo”. Isto é, de um lado, o discurso dos nossos “responsáveis” exprimia uníssono com a opinião pública, “consternação e compaixão” em relação às vítimas; e de outro, referente ao “voluntarismo”, afirmava a resolução de encurralar ferozmente os terroristas”. Ao fazê-lo, escrevia Gallaz, “nossos governos e nossas mídias aplicavam-se em confirmar a opinião pública numa recepção meramente emocional dos acontecimentos, lembrando-lhe que o Estado – nossos Estados – arrastariam exitosamente toda a maldade do mundo”.

 

Assim, continuava o analista, os nossos poderes públicos reforçariam sua influência: “diante de acontecimentos traumatizantes, tratava-se, segundo eles, de instaurar, no seio das multidões, estado de estupefação propício a tirar-lhes qualquer reflexão a respeito de seu destino a longo termo e suas implicações no concerto das nações”. Os discursos que repetiam na época um Tony Blair ou um Bush – hoje um Obama, um Hollande ou um Cameron – “não visavam nenhum fim situado no interior de seus países”. Quer dizer: “dissuadir qualquer reflexão sobre a possibilidade de ligação entre a intervenção militar no Iraque (em 2003) e os atentados em Londres num mesmo dispositivo de circunstâncias e detalhes. Ou a reflexão a respeito das repercussões que a agressão econômica permanente dos países ricos sobre os países pobres pode conter”.

 

Tratava-se com isso de “organizar a miopia”, a nossa miopia.

 

O Daech, um espantalho?


O fato de que o EI, o Estado Islâmico, comete atos desumanos não impede que nele vejamos também um espantalho.

 

Recorde-se que os ataques aéreos estadunidenses no norte do Iraque foram autorizados pela Casa Branca para “acudir inocentes” – aproximadamente 40.000 yezidis, os quais, dizia-se, refugiados no monte Sinjar e diante de “um risco de violência em escala horrorosa”. Barack Obama mencionava mesmo um risco de “genocídio”.

 

É menos lembrado que – essa informação tendo tido pouca repercussão –, quando os “conselheiros norte-americanos” chegaram ao Monte Sinjar, os 40.000 yezidis famintos não se encontravam lá! Os norte-americanos não encontraram senão 5.000, dos quais a metade habitava essa montanha já há muito tempo e já haviam então sido liberados por combatentes curdos vindos da Síria. Certas fontes chegaram à conclusão de que “a crise humanitária nunca foi o que dela disseram as fontes oficiais”.

 

Pelo contrário, parece que teriam sido os revezes infringidos em agosto pelo EI que teriam decidido a “coalizão internacional a entrar em ação”. Aliás, um governo geral do Curdistão, pouco antes, havia mostrado mais “compreensão” em relação ao EI, quando este preparava informantes para o exército governamental iraquiano.

 

Em seguida, em 19 de agosto, a bárbara execução do jornalista James Foley em “represália” aos primeiros ataques veio no momento certo para que o EI pudesse ser erigido em “inimigo número 1” dos Estados Unidos. E para que seus “vassalos” europeus (como os chama um senhor tão sério como Zbigniew Brzezinski) não mais os enquadrassem.

 

Segundo o professor Rik Coolsaet (da Unidade Bruxelas), o Ocidente exagera muito: o EI não representa senão uma ameaça indireta ao Ocidente. Já na época das Torres Gêmeas, o especialista no Islã, Oliver Roy, calculava que mesmo vários 11 de setembros não poriam fim ao poder estadunidense.

 

Sem dúvida, os jihadistas que retornarem podem constituir um perigo para a humanidade, como apontam unanimemente as mídias. Pode-se deduzir do caso Nemmouche, o assassino do museu judeu de Bruxelas, que eles representam um grande risco? Nada é certo a esse respeito. E, a acreditar-se nisso, segundo o único estudo científico disponível, apenas um dentre nove desses casos constituem um problema. Do mesmo modo, dos 300 a 400 belgas que se filiaram ao EI e outros grupos, dezenas seriam considerados perigosos por nossos serviços.

 

Sobre o bom uso de Kobané


As mudanças de atitude diante do sítio de Kobané não indicariam que, também nesse caso, estamos ainda, em grande parte, no domínio da figuração?

 

Depois de uma fase de estranha apatia da aliança frente a uma cidade cujos defensores e população civil permaneceram no local, desta vez estavam realmente “confrontados a um risco de violência em horrível escala”. Depois de várias declarações tranquilizantes, na mesma hora que os combatentes do EI entravam na cidade, eis que, em meados de outubro, Barack Obama expressou sua “inquietude” por Kobané. Na semana anterior, a cidade não era considerada um “objetivo estratégico” para Washington (que ademais não a poderia salvar). Em 19 de outubro, beneficiou-se da entrega de armas, inclusive pesadas, além de ajuda alimentícia e médica – John Kerry declarou então que seria “irresponsável e moralmente inaceitável” da parte dos EUA “virarem as costas a uma comunidade em combate ao ISIL”. Dois dias depois, o primeiro-ministro turco, Mevlut Çavusoglu, anunciou que a Turquia passaria a permitir aos peshmerga (iraquianos), “e a ninguém mais”, cruzar a fronteira para socorrer Kobané...

 

Terá o valor simbólico de Kobané crescido de repente, diante da recusa da Turquia de intervir, e do enfraquecimento da rebelião síria, aparecendo o exército de Bashar Al-Assad subitamente como o único capaz de opor-se ao EI? Peshmergas iraquianos de Massound Barzani apresentavam-se como a solução, tanto para Washington quanto para Ankara.

 

Seja como for, a tragédia de Kobané autoriza que se pergunte qual o grau verdadeiro do perigo atribuído ao EI. E pode-se perguntar se, segundo os cálculos geopolíticos, não se trata de – paráfrase de Barack Obama – enfraquecer o EI, não tanto erradicá-lo.

 

Periferias


Na genealogia do Islamismo, o “Islã mundializado”, Olivier Roy desenvolveu a noção de neofundamentalismo, caracterizado por uma “lumpenização” de seu recrutamento, operando, a partir de então, nos meios marginalizados das classes baixas do mundo árabe-muçulmano; porém, mais ainda entre os jovens “sem referências” dos subúrbios europeus. Muçulmanos de linhagem ou muçulmanos convertidos. Roy calcula que estes formem cerca de 25% dos candidatos da “jihad”!

 

Portanto, um islamismo radical, mas, notoriamente, mais conservador que o da geração anterior. Radicalizados no Ocidente e desconectados dos grandes movimentos islamistas contemporâneos, esses neofundamentalistas ficariam, pelo fato mesmo de sua marginalização, mais à vontade com as concepções wahhabitas: recusa de toda cultura, inclusive a muçulmana, e acantonamento a uma estreita observância de princípios de um Islã reduzido à única dimensão do “lícito” e do “não lícito”.

 

Bem recentemente, Roy colocou em dia sua análise, apontando com o dedo um “niilismo geracional” que também encontramos em outros ambientes que não dos marginais das periferias. E mesmo sob outros firmamentos, em outros meios totalmente estranhos ao Islã: um niilismo de “jovens perdidos na globalização, fascinados pela morte”. “Jovens sem problemas particulares, a não ser as questões próprias de todo adolescente em busca de um ideal” e desejoso de “fazer parte de alguma coisa”. O que indica não apenas que este fenômeno ultrapassa a esfera muçulmana e que analisá-lo apenas sob o prisma do Islã é um grave erro.

 

Islã?


Perdidos na globalização, estes seriam jovens prisioneiros de um conflito geracional, sem perspectivas no futuro e com o sentimento de perder a própria vida nesse nosso mundo hiper-materialista.

 

Muitos especialistas minimizam fortemente a dimensão religiosa entre os aprendizes da República de Viena (ISERE), depois do depoimento de uma adolescente fugitiva que queria chegar à Síria. Extremamente determinada, mas extremamente desambientada, a jovem – cuja religiosidade era extremamente débil – queria participar da “jihad”, para ter uma “experiência de vida”.

 

Para Jean-Paul Laborde, diretor executivo do comitê contra o terrorismo das Nações Unidas, 60% dos que aderem aos islamistas radicais não têm convicções religiosas. O que não impede, entretanto, um jornalista de julgar as decapitações “tipicamente islâmicas”, enquanto um especialista sugere que sejam consideradas como provindas da vontade de “animalizar” o inimigo. Mas todos eles esquecem que, há precisamente dez anos, em setembro de 2004, três reféns foram enforcados e decapitados num ritual macabro – e na mesma vestimenta cor de laranja, pelo grupo Al-Tawhid d’Abou Moussab Al-Zarqaoui, na “casa-mãe” do EI.

 

Fechados num orientalismo aparentemente enraizado, muitas mídias parecem focalizar apenas o prisma religioso, perdendo de vista as dimensões social, econômica e política que sustentam a ação do EI e seus êxitos.

 

De olhos fixos no núcleo duro hiper-ideologizado que gravita em torno de Aboubakr Al-Baghdadi, essas mídias não veem as causas profundas da insurreição sunita iraquiana, assim como seus componentes não-salafistas, os quais coexistem, se combatem e se odeiam.

 

Do mesmo modo, a expulsão dos cristãos parece ser importante para o projeto do EI: recriar um califado islâmico mais parecido com as construções mentais de seus chefes do que a sociedade existente nos tempos do profeta. Essa expulsão poderá ser vista como relevante numa estratégia de “homogeneização confessional”, penhor de um melhor controle da região e até fruto de um cálculo econômico, já que a espoliação dos bens cristãos pode financiar a organização, comprar adesões de deserdados sunitas e alimentar (como foi o caso das moças yezides sequestradas) boas relações com as máfias locais.

 

Voltando às periferias, o foco religioso escasso teria o “mal estar” material e espiritual que sustenta as aspirações e outras experiências de vida. Enfim, cedendo a isso, muitos jornalistas e especialistas adotam e propagam uma postura de um acidente na defensiva, perdendo de vista os fundamentos históricos e econômicos do oriente próximo.

 

Raros são os que se debruçam sobre duas palavras pronunciadas pelo porta-voz do “Calife Ibrahim”, Aboubakr Al-Baghdadi, e dirigidas aos cidadãos da coalizão no seu apelo ao assassinato em todo lugar e de todas as maneiras: “vocês desejam uma vida de humilhação e de desonra?”, perguntou Mohamed Al-Adnani, em 22 de setembro, a seus “irmãos” árabe-muçulmanos. Mas quantos, dentre nós, temos a ideia dessa humilhação, dessa desonra e de suas causas?

 

Espelho, espelho meu!


Há, sem dúvida, da parte do EI uma escolha deliberada pela ultraviolência. Haverá, espelhando-a, uma escolha semelhante entre nossos dirigentes? Já se disse: todas as atrocidades imputadas ao EI não foram, ao final, plenamente provadas e não são, afinal de contas, muito diferentes de muitas outras cometidas pelo mundo em “conflitos assimétricos”. Ainda assim, essas atrocidades têm eco amplificado pelo próprio EI e por nossas mídias. Quanto a estas, trata-se de deixar o público estupefato e buscar audiência.

 

Para a organização jihadista, trata-se, em primeiro lugar, de compensar pelo terror uma fraqueza numérica: os efetivos do EI são avaliados entre 15.000 e 25.000 combatentes. Em todo caso, menos de 30.000. No próprio local, os massacres de soldados iraquianos, uma vez na mídia e nas redes sociais, sem dúvida ajudaram no fracasso do exército de Nouri Al-Maliki, sem falar da recusa a morrer de uma liderança corrupta e inapta. Esse terror pode ter sido interpretado por uma certa camada da juventude emigrada como sinal de um real medo do ocidente. E que o EI talvez pudesse considerar-se o único capaz de mudar as coisas no Oriente Médio – portanto, para alguns perdidos na globalização, uma atração ainda maior.

 

Barbárie, terrorismo, crueldade, covardia, atos vergonhosos, ignóbeis, são palavras recorrentes na condenação dos atos do EI pelos nossos dirigentes que creem designar onde está o “mal”. Poucos, porém, sublinham o racismo nas decapitações de reféns. Vários foram mortos porque eram oriundos de Estados aliados contra o EI. E não pelo que fizeram ou por algum ato de hostilidade em relação ao grupo jihadista. Curiosamente, entretanto (com exceção de Gourdel, morto por ser francês), esse aspecto não é apontado por nossos representantes políticos e a maioria das mídias.

 

A miopia


A exposição das atrocidades do EI e o foco sobre a dimensão religiosa tendem a alimentar a amnésia histórica de nossos concidadãos.

 

Um dos efeitos “positivos”, pode-se dizer, da emergência do “Califado” foi – graças às comemorações de guerra 1914-1918 – remeter-nos aos acordos secretos de 1916. O desmembramento dos Estados árabes do Império Otomano, transformados arbitrária e precariamente em Estados ao longo do decênio 1914-1923, abalou o Oriente Médio e o regime colonial que se seguiu, com imensa responsabilidade na criação de “nações inacabadas”, um fenômeno que o naufrágio brutal do Estado Islâmico (exceto na Síria e no Iraque) ilustra à sua maneira.

 

Será necessário voltar tão longe no tempo?


Não é evidente que as condenações moralizantes de um Barack Obama tendem a disfarçar os efeitos bem mais recentes do embargo, depois da invasão anglo-americana ao Iraque em 2003?

 

Centenas e milhares de mortos iraquianos, um país que voltou à Idade Média, a instauração, sempre sob os auspícios de Washington, de um sistema de política confessional que constrangeu todos os atores políticos iraquianos ao sectarismo.

 

Nesse aspecto, o ex-primeiro-ministro Nouri Al-Maliki fez as vezes de bode-expiatório. E, se cremos nas declarações da Anistia Internacional no Iraque, as coisas não parecem ter melhorado sob o governo de Al-Abadi, empossado após empurrão de Washington.

 

Não nos esqueçamos que foi o aventureirismo de um George Bush Jr. que deu oportunidade à Al-Qaeda de incrustar-se no Iraque. Qualquer que sejam as peripécias naquele espaço, a responsabilidade maior do que se passa hoje lá é, incontestavelmente, dos Estados Unidos.

 

Todavia, a organização da miopia de que fala Gallaz se exerce em todo o mundo. De fato, trata-se da opinião ocidental, que é visada em primeiro lugar.

 

Numa sociedade que se fissura, escrevia nos anos de chumbo o editorialista do Libération, uma rachadura se reboca com o medo. Ora, no Iraque, com os anos, essas fissuras vão se alargando: sociais, nacionalistas, geracionais. Assim como no período entre as duas guerras, com a grande crise de 1929, seria uma aberração extravagante pensar que, no seio de nossas “elites”, o “outro” – erigido em inimigo interno, ontem judeu, hoje muçulmano – forneceria o antídoto ideal para a concretização de uma luta antissistema, na rejeição da ordem socioeconômica estabelecida por todos aqueles que habitam aqui e além, acima das diferenças nacionais, culturais e religiosas?

 

Terminemos com as palavras de Edwy Plenel: “a oligarquia que depois de trinta anos locupletou-se na desregulação e na financeirização quer agora que os pobres deixem-na tranquila, e combate-os, ao invés de encontrar no que pode uni-los. Daí todo interesse em ‘construir uma islamofobia’. Com a preciosa ajuda do EI”.

 

Paul Delmotte é professor de Política Internacional aposentado pela I’IHECS.

Traduzido do francês para o português por Correio da Cidadania – www.correiocidadania.com.br

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Última atualização em Sexta, 19 de Dezembro de 2014
 

A publicação deste texto é livre, desde que citada a fonte e o endereço eletrônico da página do Correio da Cidadania




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