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Reencontro com o Brasil Imprimir E-mail
Escrito por Miguel Urbano Rodrigues   
Segunda, 08 de Dezembro de 2014
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Voltei ao Brasil em novembro. Tinha decidido que seria a minha última visita. Essa certeza contribuiu para que o reencontro fosse muito doloroso. Estive em São Paulo e no Rio em 2012. Daí a surpresa.

 

No breve espaço de dois anos, a atmosfera, o comportamento de parcela importante de estamentos sociais da burguesia e da mídia que forma a opinião da maioria da população mudou muito. Nesta despedida senti-me num país quase desconhecido.

A alegria do reencontro com um povo que amo profundamente foi neutralizada pela consciência de que a sociedade brasileira adquiriu características pantanosas.

 

A miséria absoluta diminuiu durante os governos de Lula e Dilma. Mas, paradoxalmente, o abismo que separa a minoria privilegiada das grandes maiorias aumentou. Os ricos enriqueceram prodigiosamente. Segundo o diário O Estado de S. Paulo o Brasil tem hoje 61 multimilionários cujas fortunas somam mais de 161 bilhões de dólares.

 

A tensão social é transparente. Diferente da que conheci nos anos da ditadura militar. É uma tensão que não anuncia no imediato uma ascensão explosiva da luta de classes.

 

As condições objetivas são favoráveis a grandes lutas sociais. As manifestações de protesto contra o governo no Rio, em São Paulo e noutros estados, algumas convocadas pela direita, tornaram-se quase diárias. Oposicionistas pediram inclusive o impedimento de Dilma pelo Congresso e a demissão imediata do governo. Em São Paulo, exigiram nas redes sociais “a demissão de toda a classe politica” e “o fim do financiamento dos partidos políticos”. Por si só transparece dessas reivindicações um espontaneísmo inofensivo.

 

Na atual conjuntura, a justa indignação dos trabalhadores expressa apenas a recusa de um sistema apodrecido. A ausência de uma organização revolucionaria com forte implantação entre as massas favorece a classe dominante e assinala os limites da contestação popular.

A tensão social crescente não desembocará numa situação pré-revolucionária pela inexistência de condições subjetivas.

 

Fragilidade de Dilma

 

Dilma foi eleita na segunda volta com 52 % dos votos emitidos após uma campanha duríssima, caracterizada por um baixo nível ideológico.

 

O atual governo tem 39 ministros, número inimaginável em Executivos europeus, e tudo indica que o próximo terá uma dimensão semelhante. É intensa a especulação sobre os nomes, mas Dilma já confirmou que o ministro da Fazenda será Joaquim Levy, um banqueiro (foi vice-presidente em Washington do Banco Interamericano de Desenvolvimento) que integrou o governo de Fernando Henrique Cardoso e defende medidas neoliberais exigidas pelo grande capital. As suas declarações sobre a necessidade de uma política de austeridade são esclarecedoras das suas opções ideológicas.

 

Katia Abreu, a futura ministra da Agricultura, é uma adversaria da Reforma Agrária e a indicação do seu nome foi festejada pela “bancada rural” que representa na Câmara dos Deputados os interesses do latifúndio e do agronegócio.

 

Durante a campanha, intelectuais progressistas definiram Dilma como “o mal menor”, porque a eleição de Aécio, apoiado por Washington e pela grande burguesia brasileira, implicaria uma submissão total ao imperialismo norte-americano e ao grande capital transnacional. O adversário de Dilma, um político com perfil de playboy, ao abordar o tema da política exterior, foi muito claro: defendeu uma maior aproximação com os EUA e uma revisão das relações com Cuba e os governos progressistas da Venezuela, da Bolívia e do Equador.

 

Um mar de corrupção

 

A corrupção é um mal endêmico na Administração brasileira. Mas nos governos de Lula e Dilma aumentou desmesuradamente. O escândalo do Mensalão, que levou à prisão, entre muitos outros, José Dirceu, o ex-chefe da Casa Civil de Lula, cargo que no Brasil corresponde a primeiro-ministro, foi agora largamente ultrapassado pelo lamaçal que envolve a Petrobras, a maior empresa do país. O ex-diretor de Serviços, Renato Duque, dezenas de executivos do gigante petrolífero (atualmente um dos grandes produtores do mundo) e dirigentes de algumas das maiores construtoras do Brasil foram já presos por fraudes e crimes de corrupção cometidos no exercício das suas funções. Muitos senadores e deputados estão também comprometidos nessas sórdidas negociatas.

 

Por ora não é possível avaliar o montante da roubalheira. Mas admite-se que o total das luvas pagas a altos funcionários da Petrobras por contratos ilegais e fraudes que favoreceram empreiteiras exceda o equivalente a muitos bilhões de euros.

 

O povo brasileiro reagiu com satisfação às prisões já realizadas pela Polícia Federal no âmbito da Operação Lava Jato, mais conhecida como Juízo Final.

Dilma, informada dessas prisões em Brisbane, quando na Austrália participava na Reunião do G- 20, manifestou regozijo pela ação da Justiça. “Elas demonstram que o Brasil está acabando com a impunidade (...) Acho que isto pode de fato mudar o país para sempre”.

 

A opinião não impressionou a oposição. Nos órgãos de comunicação mais influentes chovem críticas à presidente, a quem negam credibilidade.

É, aliás, convicção generalizada que os principais responsáveis pelos crimes que fizeram cair brutalmente as ações da Petrobras não serão punidos; as condenações atingirão sobretudo funcionários subalternos.

 

A decisão de Marta Suplicy de se demitir de ministra da Cultura, anunciada no auge do escândalo, foi interpretada como prólogo do aprofundamento da crise do PT com o qual ela, uma oportunista ambiciosa, estaria prestes a romper.

 

Democracia de fachada

 

Tal como em Portugal, os políticos do sistema abusam no Brasil da palavra democracia para caracterizar o regime.

Mentem. Na realidade, o país está submetido a uma ditadura da burguesia de fachada democrática.
O funcionamento do sistema tem facetas caricaturais.

 

As eleições – presidenciais, legislativas e as realizadas para os governos estaduais – foram disputadas por 28 partidos que elegeram 553 deputados federais

As coligações, regulamentadas por uma legislação absurda, permitiram em alguns casos a eleição de candidatos de partidos opostos ao do cidadão votante.

Poucos confiam na promessa de Dilma de “reorganizar a sociedade brasileira, conferindo o papel de direção àqueles eles vivem do seu trabalho e da cultura”.

 

No primeiro mandato, ela esqueceu sistematicamente os compromissos assumidos. Na prática, o governo quase neoliberal da PT renunciou há muito ao programa que levou Lula à Presidência. Na prática, acredita que administra melhor o capitalismo do que a direita tradicional.

 

O populismo de Dilma, como o de Lula, engana cada vez menos os trabalhadores, mas parcela ponderável do povo brasileiro, modelada por uma mídia alienante, ainda não assimilou essa evidência.

 

Crise múltipla

 

O país caiu em recessão técnica. Em outubro, a balança comercial apresentou um déficit de 1,2 bilhão de dólares. A quebra do PIB reflete a diminuição dos preços das matérias-primas, base das exportações.

 

A taxa oficial de desemprego carece de credibilidade. As demissões no setor privado não esbarram com obstáculos legais. Um exemplo: o HSBC, o gigante britânico – o maior banco do mundo – anunciou para breve a demissão de aproximadamente mil trabalhadores das suas agências no país.

Na indústria automóvel, uma das mais importantes do mundo, a produção de veículos caiu 16% em relação ao ano passado.

 

A incapacidade das prefeituras (câmaras municipais em Portugal) em responder satisfatoriamente às exigências de moradia digna para as pessoas em busca de emprego que afluem às grandes megalópoles brasileiras contribui para a onda de ocupações.

 

No centro de São Paulo, a atmosfera é hoje muito diferente da que conheci ali nos meus anos de exilio. Prédios degradados construídos entre as duas guerras mundiais foram ocupados por famílias ligadas ao Movimento dos Sem Teto.

 

Os proprietários e influentes políticos exigem que os ocupantes sejam desalojados, mas o prefeito não lhes tem atendido os apelos, temendo aumento da tensão social.

 

Mais grave é a concentração de drogados em alguns bairros residenciais. No Jaguaré, a uma centena de metros de um grande supermercado, dezenas de tóxico-dependentes permanecem noite e dia nos passeios, remexendo em montes de lixo. Vi alguns injetando-se.


No centro há um lugar conhecido como a Cracolândia, nome derivado do crack que consomem. As favelas também não desapareceram de São Paulo (três milhões vivem em favelas e cortiços).

 

Mas é no Rio de Janeiro que a sua proliferação impressiona mais o forasteiro. Semeadas pela cidade, implantadas inclusive em morros que envolvem bairros de luxo da orla marítima, elas são o rosto de uma tragédia social e configuram um desafio para o qual os governantes não encontraram ate hoje uma solução eficaz.

 

Mais de 80% dos favelados são trabalhadores, cidadãos tranquilos, abertos ao convívio, refletindo a cordialidade brasileira; mas é a minoria dos marginais, dos criminosos e drogados que projeta a imagem da favela.

 

A ocupação militar de algumas nos meses que precederam a Copa do Mundo de Futebol não resolveu, como se temia, o problema social, cuja imagem degradante é identificável no polo de miséria que são as favelas cariocas, onde o crime organizado se encontra solidamente instalado, com a cumplicidade de polícias corruptos.

 

Que fazer? Aquela terrível realidade dói. Mas não me atrevo sequer a abordar o tema do inventário dos debates gerados pela chaga social das favelas.

Nas grandes cidades brasileiras – como nas capitais da Colômbia, do Peru, do México, de El Salvador, entre outras – o problema da violência angustia a população. Não tem diminuído.

 

As estatísticas são alarmantes. Em 2013, foram assassinadas no país 53 000 pessoas. A cada 4 minutos uma mulher é estuprada.

 

Claude Levy Strauss escreveu nos Tristes Trópicos que o Brasil é o país da decadência do inacabado. Utilizando essa expressão, transmitiu a impressão causada pelo fato de grandes edifícios residenciais e obras monumentais apresentarem falhas de construção, envelhecendo antes de concluídos.

Nestas semanas, ao revisitar em correria o Brasil, a contradição ostensiva entre a modernidade e o arcaísmo fez-me recordar o comentário de Levy Strauss.

Em múltiplos ramos do setor avançado, o Brasil situa-se na vanguarda mundial do progresso técnico e científico. Mas essa transformação do país onde vivi quase duas décadas antes da Revolução Portuguesa coexiste com o outro Brasil, mesmo em áreas urbanas, nas favelas e cortiços, nomeadamente – onde tive a sensação do tempo parado.

 

Na imensidão do gigante sul-americano, à medida que nos afastamos dos grandes centros do litoral somos projetados no espaço para cenários de estagnação, para um passado remoto.

 

Em sertões do Nordeste e na espessura das matas amazônicas, a vida mudou pouco em enormes regiões; ali os homens e as coisas empurram a memória e a imaginação para arcaísmos africanos. Um caboclo do alto rio Negro ou do Madeira está culturalmente mais próximo do morador de um Kimbo do Kuando Kubango que de um operário paulista ou carioca.

 

Contradições

 

Conheço poucos países onde as contradições marquem tão profundamente o fluir da vida. Uma das que mais surpreende os estrangeiros é a que distancia, nas chamadas elites, uma intelectualidade brilhante e criativa de uma colmeia de aventureiros ambiciosos e medíocres (muitos corruptos), que exerce uma influência decisiva no mundo apodrecido da política.

 

O Brasil, onde surgiram intelectuais como Niemeyer e Florestan Fernandes, gerou figuras públicas sórdidas como Jânio Quadros, Adhemar de Barros e Maluf, produz em série deputados e senadores que tipificam admiravelmente aquilo a que Marx chamou “o cretinismo parlamentar”.

 

O contraste entre esses dois Brasis, coexistentes e antagônicos, é identificável – mais um exemplo – numa simples visita às grandes livrarias de São Paulo e do Rio.

 

Nas estantes encontra-se o que de melhor o homem criou desde a antiguidade nos domínios do pensamento, da arte, da ciência. As principais editoras lançam também no mercado, traduzidas, obras inovadoras, recentes, sejam ensaios ou romances publicados na Europa, nos EUA, em diferentes países definidos como emergentes.

 

Considero indispensável uma referência especial à Editorial paulista Boitempo, de Ivana Jinkings, que lançou no Brasil, além de obras dos principais clássicos do Marxismo, autores contemporâneos tão importantes como o húngaro Istvan Meszaros e o inglês David Harvey.

 

Mas, num país onde a contracultura exportada pelos EUA pesa decisivamente na mentalidade e nos gostos da pequena burguesia, os livros mais vendidos são outros: o lixo impresso sobre temas do gênero “como enriquecer”, “como mudar de profissão ou personalidade”, “como conquistar amigos”, sobre ocultismo, questões astrais, religiões exóticas e outras imbecilidades.

 

Esperança

 

Quatro dias em Minas Gerais, revisitando Ouro Preto, Mariana e Congonhas do Campo, proporcionaram-me uma estranha viagem pela História e pela minha vida, recordando alguém que viveu no meu corpo.

 

Foi há mais de 40 anos. Andei então pelas serranias e vales onde o bandeirante Fernão Dias Pais descobriu o ouro que, passando por Portugal, contribuiu para financiar a revolução industrial inglesa.

 

Acompanhei nessa visita dois historiadores amigos: o francês Albert Soboul e o português Barradas de Carvalho.

Muitos dos casarões setecentistas de Ouro Preto ameaçavam, na época, desmoronar-se. Foram recuperados e a cidade é hoje um polo turístico onde aflui gente de todo o mundo.

 

O Aleijadinho, o arquiteto e escultor que conferiu dimensão internacional ao barroco mineiro, não teve, em vida, sua genialidade reconhecida. Morreu pobre e quase ignorado pelos seus contemporâneos.

 

Meditando sobre o tempo morto nas suas igrejas, ou acariciando a pedra escura dos Profetas de Congonhas, percorrendo as salas do Museu da Inconfidência em Ouro Preto, atravessei neste inverno da vida a ponte invisível que liga o Brasil que caminhava para a Independência para o Brasil gigante de hoje, um país e um povo então inimagináveis.

 

Para onde vai esta terra irrepetível, que ainda não se construiu como nação? Não ouso responder a pergunta.

 

No Brasil, persistem desigualdades ofensivas da condição humana. Uma classe dominante repulsiva enfeixa nas mãos o poder político, compartilhando o econômico com o imperialismo.

Sendo sombrio o presente e nevoento o futuro imediato, admito que o Brasil está vocacionado para desempenhar um papel significante no amanhã da humanidade.

 

Amo profundamente – repito – a gente brasileira. A violência, que hoje alastra como flagelo nas grandes cidades, vai acabar quando as causas sociais que a geram forem eliminadas numa distante sociedade socialista. A cordialidade, a ternura, a alegria brasileiras, essas vão permanecer.

Não identifico no caótico sincretismo brasileiro um prólogo de futuras desgraças. Pelo contrário.

 

Imaginando um futuro distante, o povo do Brasil aparece-me como uma antecipação da humanidade mestiça que nascerá lentamente da atual.

 

 

Miguel Urbano Rodrigues é jornalista e escritor português.


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Última atualização em Terça, 09 de Dezembro de 2014
 

A publicação deste texto é livre, desde que citada a fonte e o endereço eletrônico da página do Correio da Cidadania




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