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Andres, aqui só tem burguês! Imprimir E-mail
Escrito por Gabriel Brito, da Redação   
Qui, 27 de Novembro de 2014
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Metaforicamente, a partida deste domingo entre Corinthians e Grêmio se encaminhava para uma importante vitória de 1-0 do time local, mas um incrível gol contra aos 48 minutos do segundo tempo estragou o domingo da Fiel. O inédito, ao menos neste clube, é que tal infelicidade foi protagonizada pelos próprios torcedores.

 

Objetivamente, não falta mais nada pra elucidar o processo de “modernização conservadora” que coloniza o futebol brasileiro. Foi adaga no coração ver corintianos cheios de ódio xingando seus “iguais” (cada vez menos…), que detrás do gol onde Guerrero estufou as redes, já nos momentos finais, acenderam meia dúzia de sinalizadores de fumaça.

 

Não só estufaram o peito e soltaram a voz, conforme nenhum momento do jogo, como alguns ainda agrediram e entregaram pra polícia os “vândalos”. Tudo sob a confortável desculpa de que devemos evitar punições no tribunal.

 

Difícil saber por onde começar, tamanha a complexidade do momento. Sabemos que estão nos massacrando com uma ofensiva capitalista que o futebol brasileiro jamais viu. E temos de chamar as coisas pelo nome: ofensiva capitalista. Tudo pelo lucro, nada pelo histórico e cultural. Os valores que pairam no imaginário coletivo só servem como slogans a vender produtos.

 

O pior de tudo é que o processo está apenas em seu início, a abocanhar os grandes clubes e suas vastas audiências. Em breve, veremos se alastrar pelos médios e pequenos, que tentarão, inutilmente, emular os manuais de marketing esportivo de potências inigualáveis nacionalmente, que ainda por cima desfrutam de monopólios midiáticos no grande público (se bem que o futebol europeu taí nas nossas pistas…).

 

Portanto, é um tema que discutiremos à exaustão. Fiquemos, neste texto, restritos a esse fenômeno no clube que foi fundado “pelo povo e para o povo”, conforme reza a ata de fundação lavrada naquele que já foi um bom retiro para trabalhadores e imigrantes empobrecidos.

 

Não podemos negar que o Corinthians foi o primeiro clube brasileiro a realmente entender o modelo de negócio que rege o futebol atual – e a capitalizá-lo. Desde o descenso à Série B, a torcida ouve a cantilena de que é preciso gastar mais para se manter no futebol de alto nível. Ano após ano, nos deparamos com ingressos e produtos mais caros. Sabendo do tamanho da “marca”, e da eterna impossibilidade de rejeição a ela, pois estamos falando de sentimento, não de um telefone celular, os novos donos do clube sabiam do tesouro que tinham em mãos. Além disso, pra resumir logo, havia uma Copa no meio do caminho, a brincadeira ficou grande e as raposas políticas juntaram o útil ao agradável.

 

Assim chegamos ao Itaquerão, segundo a mídia, o grande sonho do corintiano. Eu sempre vi esse corintiano feliz da vida no Pacaembu e no Morumbi, mas na segunda-feira descobria na TV e no jornal que não.

 

Estádio hiperfaturado, construído à base de super-exploração, com três mortes no registro e claramente anódino às características históricas, e até estéticas, do clube. Aparentemente, valeu tudo pelo “sonho”. Mas precisamos bancar esse sonho. Portanto, apertem os bolsos, logo avisaram.

 

Começaram os jogos em Itaquera e a contemplação inicial já deu lugar ao de sempre: torcer, vibrar, sofrer, vencer, perder, disputar títulos. E só agora, com o fato consumado, as pessoas se dão conta do que vinha sendo avisado pelos poucos de sempre: a elitização do futebol é fato.

 

O torcedor que sempre carregou o clube nas costas e construiu toda sua mística começou a perceber que o palácio de mármore não lhe reservou um lugar. Que a família que os bons moços do mercado e da tevê defendem no estádio não é exatamente a dele. Que as faixas e bandeiras, definitivamente, têm de dar lugar a aparelhos eletrônicos.

 

Como em tudo na vida, se há muitos perdedores, temos alguns vencedores. Eles estão aí, defendendo seus direitos de consumidor que já pagou ingressos pela internet e “não quer perder o mando de campo”.

 

Pois bem. Esse público passivo por 85 minutos é tudo que eles, da turma da “modernização conservadora”, sonham. Entre contestar um tribunal ridículo, que até de virada de mesa voltou a brincar, pelo direito de torcer como sempre se torceu, ou agredir torcedores que contrariam a ordem imposta por engravatados que só pensam em dinheiro, ficam com a segunda posição.

 

Façamos a luta e a resistência, para um dia reviver o futebol que nos educou, apaixonante e carnavalesco, e também, quem sabe, nos sentir à vontade onde dizem ser a nossa casa.

 

Mas, para ser franco, não tenho a pretensão de convencer os fãs que acreditam nesse nada admirável mundo novo. Acredito que tenham posição formada, por tudo aquilo que vivenciam em suas vidas e rotinas.

 

Desencano, até porque muitos nunca frequentaram pra valer o estádio. Não têm o gene de quem viveu os dias áureos da festa e do próprio jogo – tão incompatível com os valores cobrados. Sequer conhecem profundamente a história do clube, suas referências, epopeias, façanhas, tragédias e loucuras. São frutos de um novo Corinthians, ultramidiatizado nos últimos anos, com músicas da torcida legendadas na matéria do Globo Esporte e um departamento de marketing insaciável.

 

Estamos falando de quem nunca fez a própria faixa ou bandeira e a levou ao campo. Mas não fica um jogo sem tirar fotinhos inúteis, adora aparecer no telão e paga oito reais de boa no cachorro quente. Aliás, acha o máximo, por si só, o conceito de “arena”, exportado aos quatro cantos do mundo.

 

Duvidam que são assim? Pois bastaria aos inquisidores lembrarem da final da Libertadores de 2012. O Corinthians acabara de sofrer o gol do Boca, os argentinos estavam melhores e o jogo ia para os minutos finais. Do nada, os corintianos acenderam dezenas de sinalizadores e pararam o jogo por alguns instantes. Logo depois, surgiu a primeira e única jogada lúcida do ataque da equipe, o gol de Romarinho e uma estupefação que raramente se vê na cara da torcida xeneize, ainda mais em sua Bombonera. O resto da história acredito que eles recordem.

 

Voltando ao domingo, foi tudo muito lamentável. No intervalo, portanto antes do fato central, começaram as tradicionais provocações na divisão de torcidas. “Gaúcho, viaaado!”, como sempre, ecoou. Para ver como estamos, um gremista filmou alguns torcedores e mostrou suas imagens aos policiais, acusando homofobia. Quem já foi de visitante sabe o que quero dizer de tal atitude – mesmo que sejamos a favor da criminalização da homofobia e tenhamos asco dos gritos de bicha que se tornaram parte da “festa moderna”.

 

“Assassinos”, gritaram de volta os gremistas. Pra fechar o círculo, os corintianos do setor leste, os mesmos que xingariam a turma do sinalizador, gritaram “racista, racista!”, ainda que não se importem em ver um Corinthians de torcida cada vez mais branca, especialmente no lugar onde sentam.

 

O anti-espetáculo já tinha sido dado antes da fumaça da discórdia. Os aplausos às prisões apenas emolduram tudo.

 

E como dito, não quero convencer os novos fãs de nada. Quero apenas que afirmem em alto e bom som o caminho que estão escolhendo.

 

Se for o deste domingo, que peguem os slogans repetidos de modo autômato – “time do povo”, “maloqueiro e sofredor”, “bando de loucos”, “festa na favela” – e enfiem num lugar bem escuro e remoto.

 

Que não reivindiquem as façanhas da torcida mundo afora, seus espetáculos, caravanas e vitórias a puro bafo. Que não reivindiquem os inúmeros jogos com 100 mil no Morumbi, a invasão do Maracanã em 1976, as entradas em campo, entre outros momentos regados a “foguetes e bandeiras”, como dizia uma música que não se canta mais. Que não reivindiquem a loucura generalizada dos 23 anos de fila, a camisa ensanguentada do Zé Maria, o manto que nasceu bege e se definiu branco por falta de condição de comprar um melhor. Que, jamais!, reivindiquem a democracia socrática que contestou um regime político muito mais duro do que um tribunalzinho esportivo.

 

Enfim, que façam tudo que já fazem, porém, de modo mais autêntico: basta pegar aquela ata que citamos no início, rasgá-la e escrever uma nova. Só isso. Eu até ajudo com uma sugestão para intitular a nova fase da história: “esqueçam tudo o que vivi”.

 

* * *

 

Aqui, meu primeiro texto sobre a nova vida: Minha segunda primeira vez

 

Outras leituras recomendadas:

Sinalizador dos tempos

O homem domesticado

 

Obs: o título do texto é referenciado no protesto de alguns grupos de torcedores do clube, em direção ao presidente anterior e mentor da construção do estádio: ‘Andrés, aqui não tem burguês’.

 

 

Gabriel Brito é jornalista e escreve no blog da Rádio Central 3 semanalmente. Além disso, é o apresentador do programa Central Autônoma e participa do Conexão Sudaca, dois programas que você acessa, respectivamente, aqui e aqui.


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Última atualização em Segunda, 01 de Dezembro de 2014
 

A publicação deste texto é livre, desde que citada a fonte e o endereço eletrônico da página do Correio da Cidadania




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