Um governo com os capitalistas

 

 

Se alguém tivesse entrado em coma logo após os resultados do 1º turno das eleições presidenciais e acordasse hoje seria capaz de perguntar:  então, foi o Aécio que ganhou as eleições?

 

Vejamos. Um homem do Bradesco e, portanto, do mercado financeiro é indicado para o Ministério da Fazenda, este é Joaquim Levy; para o Planejamento, um defensor do ajuste, o ex-secretário da Fazenda e professor da FGV, Nelson Barbosa; para o Ministério do Desenvolvimento, um homem do grande empresariado, ex-presidente da CNI, Armando Monteiro; para o Ministério da Agricultura, uma dos ícones e porta-vozes do agronegócio, a senadora Katia Abreu.

 

Só faltou um representante direto das grandes empreiteiras, mas, como vários deles estão na cadeia... parece que não pegaria muito bem dar um ministério assim para essa turma. Mas não sejamos precipitados, a composição final do ministério não foi anunciada...quem sabe ainda não tenhamos outras indicações interessantes.

 

Na verdade, esta composição ministerial que se anuncia não é grande surpresa. Salvo tenhamos levado a sério os discursos de dia de festa ou a retórica eleitoral do PT, muito utilizada na reta final do 2ª turno para mover a militância, que, verdadeiramente, temia um retrocesso com a possível vitória de Aécio.

 

Um governo tucano poderia ser uma linha direta mais clara com os princípios da ortodoxia neoliberal. Não duvidamos. Mas os olhares tucanos devem estar um tanto perplexos com tamanho papo reto da presidente Dilma na montagem do governo. Talvez até indignados, afinal, foram acusados à exaustão de que iriam fazer algo muito parecido ao que está sendo anunciado agora.

 

E os governistas nem estão disfarçando, visto que o futuro ministro do Planejamento, Nelson Barbosa, na véspera da sua indicação, estava defendendo ajustes em palestra para executivos na cidade Campinas.

 

Em meio a um escândalo que está abrindo uma grave ferida nos mecanismos de funcionamento e financiamento das campanhas eleitorais e nas relações para lá de promíscuas entre empresas públicas e empreiteiras, o governo Dilma tenta a todo custo descolar-se do Petrolão.  Mas como faz isso? Recorrendo à mobilização popular para aprovar um plebiscito para acabar com o financiamento empresarial ou para estabelecer uma consulta sobre as reformas e demandas populares? Não, nada disso, atira-se aos braços do mercado para estabelecer, a partir daí, um novo pacto de governabilidade e confiança com o Grande Capital para o segundo mandato.

 

Parece cair por terra qualquer expectativa ou discurso sobre possíveis inflexões do governo em relação ao período anterior. Nada disso, o PT continuará fazendo o que faz há doze anos: governar essencialmente com os capitalistas, para o mercado, para o agronegócio, para os grandes monopólios e também para as empreiteiras (um pouco mais discretamente talvez, mas que ninguém esqueça que o PAC e a expansão dos negócios brasileiros para além das fronteiras nacionais praticamente não existem sem as grandes empreiteiras).

 

A diferença para os mandatos anteriores é que talvez o PT tenha, neste, uma relação mais enfática e direta com o capital, dadas as fragilidades com as quais saiu das urnas, mesmo com a vitória, além do escândalo do petróleo e a economia estagnada. Pelo menos é o que sinaliza a montagem dos cargos chaves do ministério do segundo mandato dilmista.

 

Tudo indica que iremos às ruas para, não apenas pedir mais direitos, mas, em primeiro lugar, para defendê-los, pois o cenário de ajustes já está sendo desenhado. E não apenas com nomes, mas também com medidas, como foi a elevação dos juros, o aumento dos combustíveis, e as sombrias ameaças de ataques ao seguro desemprego e às pensões e aposentadorias.

 

A propósito, quem ganhou mesmo as eleições?

 

Fernando Silva é jornalista, secretário-geral do PSOL e colunista do Correio da Cidadania.

Comentários   

0 #1 RE: Um governo com os capitalistasSandro 06-12-2014 22:07
E preciso fazer a meia culpa , o correio da cidadania tambem tem culpa pela despolitizacao da sociedade ao apoiar o PT ;no qual representa nao um governo progressista mas muito pelo contrario.
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