Estados Unidos e Brasil: expectativas iniciais com Barack Obama

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A última metade do segundo mandato do presidente Lula da Silva coincidiu com a primeira da administração de Barack Obama, vitorioso com 365 votos no colégio eleitoral em novembro de 2008. Após oito anos à frente da Casa Branca, os republicanos foram defenestrados de lá sem muita dificuldade.

 

No Brasil, o êxito dos democratas ensejou a muitos a perspectiva de maior aproximação entre Brasil e Estados Unidos, em virtude de uma aparente afinidade ideológica entre as agremiações partidárias dos dois mandatários, consideradas de maneira indevida distantes do conservadorismo.

 

A expectativa positiva de intensificação do relacionamento entre os países não decorria de nenhuma desinteligência de monta entre o governo petista e o republicano. Ao contrário, a cordialidade assinalava os contatos formais entre os dirigentes.

 

Prova da estima mútua havia sido a ocasião – março de 2007 - em que o brasileiro se tornaria o primeiro governante sul-americano a ser acolhido oficialmente na base militar Camp David, local em que o titular do Executivo estadunidense costuma refestelar-se. Fernando Henrique Cardoso estivera lá, porém de modo informal durante a gestão de Bill Clinton.

 

Às vésperas do encerramento do mandato, George Bush comunicou-se com Lula da Silva. Naquela ocasião, não tratou de assuntos administrativos. Aproveitou o momento com a finalidade de invitar o brasileiro a visitá-lo no Texas. Este, por sua vez, retribuiu, ao chamá-lo a uma pescaria. Em seu programa semanal de rádio, ele reconheceu a boa convivência entre as duas sociedades:

 

“Aqui no Brasil, nós certamente vamos continuar com a boa política que temos com os Estados Unidos. Ela é histórica e eu penso que o Obama, se quiser, pode aprimorar essa relação com o Brasil, aperfeiçoar, porque, se os Estados Unidos são o país mais importante do mundo, o Brasil é o país mais importante da América Latina”.

 

Apesar da avaliação positiva, havia a esperança de maior boa vontade para a região depois de anos de fixação militar norte-americana no Oriente Médio: “Acho que o presidente Obama vai ter de ter uma política especial para a América Latina, ou seja, não é possível que os Estados Unidos, em algum momento, não tenham uma política, eu diria preferencial na sua relação com a América Latina”. http://historico.cafe.ebc.com.br/cafe/programas/334.2009-10-06.4306859640.

 

O estreitamento dos laços com o Brasil não atraiu atenção especial dos Estados Unidos naquela altura, não obstante a retórica de vincular-se mais à parte sul do continente, conforme o próprio Obama havia aludido em viagem ao México em janeiro de 2009, oportunidade em que afirmou desejar a superação do motivo de tensão entre seu país e os demais latino-americanos, isto é, a desatenção existente.

 

Mesmo assim, duas aspirações brasileiras não encontrariam abrigo diferente com a vinda dos democratas ao poder: a firme retomada das negociações da Rodada de Doha e a eliminação dos subsídios ao biocombustível estadunidense e da taxação ao similar brasileiro, considerado o mais competitivo.

 

Voltado de maneira genérica à América Latina, os democratas mencionavam a necessidade de modificação da legislação relativa à imigração – em face do número de 10 milhões de clandestinos. Além do mais, a degradação da segurança pública do México refletia-se de modo negativo na fronteira dos Estados Unidos, por causa da movimentação do narcotráfico, e a transformação da base militar de Guantánamo em presídio terrorista causava desgaste à imagem do país, porque denúncias de violações aos direitos humanos pululavam nos meios de comunicação.

 

Em que pesasse a obrigação moral de rever as linhas gerais da política externa, a prioridade no alvorecer de 2009 era interna, ao concentrar-se em medidas estimulantes à economia, após o baque em fins de 2008. Obama assumiria a Casa Branca com deflação à vista e inadimplência significativa no setor imobiliário.

 

Com o propósito de evitar a recessão, um plano de emergência enviado ao Legislativo previa destinar cerca de 800 bilhões de dólares para superá-la, dos quais pouco mais de 500 bilhões conectar-se-iam com infraestrutura, pesquisa e inovação, educação e saúde.

 

Diante disso, o aguardamento de um convívio mais próximo entre Brasília e Washington nas primeiras semanas da administração de Obama não frutificou. No entanto, isto não desapareceria de imediato, dado que, no primeiro semestre de 2009, uma reunião de cúpula entre os países de toda a região ocorreria e poderia renovar a pauta do continente.

 

 

Virgílio Arraes é doutor em História das Relações Internacionais pela Universidade de Brasília e professor colaborador do Instituto de Relações Internacionais da mesma instituição.

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