Aberta a caixa-preta dos contratos militares do Brasil com Israel

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Os ataques do exército israelense contra a população civil na Faixa de Gaza, em julho deste ano, deixaram 2016 palestinos mortos, dentre os quais 541 crianças, 250 mulheres e 95 idosos. Foi, sem dúvidas, um dos mais sangrentos massacres do século XXI. Apesar do repúdio internacional, os ataques de Israel ficaram impunes, mais uma vez. Poucos foram os governos que tomaram medidas práticas, para além dos recursos simbólicos previstos pela diplomacia, como a convocação de embaixadores ou a condenação verbal nos fóruns internacionais.

 

No Brasil, os movimentos sociais exigiram o rompimento das relações diplomáticas e comerciais do governo brasileiro com Israel, organizando protestos e buscando sensibilizar o governo Dilma. Tudo em vão: tão logo os ataques israelenses foram interrompidos, a diplomacia brasileira voltou a manter relações amistosas com o governo genocida de Israel.

 

No auge daqueles ataques, o deputado federal Ivan Valente (PSOL/SP) solicitou formalmente um pedido de informações ao Ministério da Defesa para que este divulgasse todos os contratos militares mantidos com Israel. Para os movimentos sociais que exigiam o rompimento de relações comerciais e diplomáticas com Israel, conhecer os contratos militares que o Brasil mantém com aquele país seria fundamental. A partir disso, seria possível, ao menos, exigir o fim da cooperação militar entre o governo brasileiro e o Estado genocida de Israel.

 

Usando de todos os prazos possíveis, o Ministério da Defesa só apresentou as informações requisitadas na última semana, após as eleições. Os dados são reveladores e demonstram um intenso fluxo comercial na área militar, o que explica a conivência brasileira diante do massacre na Faixa de Gaza.

 

Embora o suposto convênio de cooperação militar Brasil-Israel (noticiado pela imprensa israelense em 2010) ainda não esteja em vigor, como informa a resposta do Ministério da Defesa ao requerimento do deputado Ivan Valente, há vários contratos com empresas israelenses. O gabinete do Comandante da Marinha, por exemplo, informa que há contratos com as empresas Israel Military Industries (IMI), Hagor Industries Ltd, Achidatex Nazareth Elite Ltda. e Israel Aerospace Industries (IAI), que alcançam a cifra de quase R$ 19 milhões.

 

Porém, são os contratos do Exército Brasileiro os que mais chamam a atenção. São mais de R$ 60 milhões em contratos que envolvem desde a compra de equipamentos, como lunetas e giroscópios, até um produto chamado "Sistema de Apoio e Decisão", que custou 4,8 milhões de dólares (cerca de 12 milhões de reais) e que, rigorosamente, não podemos saber do que se trata. Pelo menos um desses contratos, no valor de U$ 13,5 milhões, foi estabelecido com a Elbit Systems, empresa que mantém unidades nas áreas ocupadas ilegalmente por Israel na Palestina.

 

No final do ofício, porém, vem a informação mais reveladora das relações com Israel: o Exército Brasileiro é responsável pela gestão de um termo de contrato (nº 27/2012) no valor de R$ 839 milhões de reais, para a implantação do sistema de "Sensoriamento e de Apoio à Decisão do Projeto Piloto SIFRON - assinado com o consórcio Tepro". Esse consórcio é formado por duas empresas brasileiras (Savis e Bradar), pertencentes à Embraer Defesa e Segurança, e pela Elbit Systems!

 

A Elbit é acusada de colaborar com diversas violações aos direitos humanos e ao direito internacional. Muitos países, em represália à política genocida do Estado de Israel, têm rompido qualquer forma de relação militar, antes mesmo de recorrer a outras formas de afastamento diplomático. No caso da Elbit, especificamente, países europeus têm desestimulado mesmo relações comerciais de acionistas com esta empresa, tal a notoriedade de seus crimes. No Brasil, por conta dos megaeventos esportivos, outros contratos estão sendo preparados, especialmente aqueles envolvendo veículo aéreos não-tripulados (VANTs).

 

Os dados que vêm à tona a partir do requerimento de informações protocolado por Ivan Valente demonstram a profundidade das relações militares do Brasil com Israel e a dificuldade do governo brasileiro em ir além da retórica diplomática: quase um bilhão em contratos militares, que impediram o governo, até aqui, de tomar qualquer medida prática contra os recorrentes massacres contra civis na Palestina.

 

 

Juliano Medeiros é Secretário Nacional de Comunicação do PSOL.

Fonte original: Diário Liberdade.


Comentários   

0 #2 RE: Aberta a caixa-preta dos contratos militares do Brasil com IsraelJosé Marques 22-11-2014 00:10
A democracia não salvou os judeus do holocausto, Guernica na Espanha, como não está salvando os pobres americanos, os sem teto no Brasil, mortes por ebola, há uma ditadura no Egito, tragédia no México, fundos abutres na Argentina, etc. Situações bem complexas.
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0 #1 É conivênia e é grave!marilia canabrava 06-11-2014 21:57
Com tantos países cm os quais o Brasil pode comercializar materiais bélicos e outros e vai logo a Israel! Era só o que faltava.
Um dia desses fiquei sabendo que a prefeitura de Curitiba mantém relações comerciais com esse país criminoso.
Pergunta: Se uma das funções do Congresso brasileiro é fiscalizar as ações do Executivo, por que é que só um deputado levantou a lebre e cobrou do Governo informações a respeito?
obtidas as informações, tomou-se alguma providência ou pediu explicações a respeito do assunto?
isso é conivência com o crime contra a humanidade e, é grave!
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