Dilma no fim das contas terá sido um “bom negócio”?

 

 

Basta contabilizar para conferir a inversão de posições. A candidata à reeleição, antes esconjurada pelos capitais apátridas e hematófagos, tornou-se a mandatária de seus mais cálidos sonhos de sangria. O aumento da taxa SELIC demonstrou que Dilma, ao invés de escorar-se na mobilização popular e na derrota momentânea da onda fascista, preferiu ceder aos apelos e chantagens do mercado financeiro. O “diálogo” prometido pela presidente, desse modo, parece mais um monólogo roteirizado pelos setores rentistas.

 

Títulos pós-fixados são a melhor “oportunidade de curto prazo”, corneteiam triunfantes os analistas de mercado, confiantes no grau de profundidade dos ajustes previstos para 2015. O índice que dimensiona a média dos dividendos auferidos pelas empresas abertas, o IDIV, indica que é hora de recompra e de um novo ciclo de concentrações, fusões e aquisições.

 

Querem nos fazer crer que a confiança dos investidores é que viabiliza o governo e o próprio país. Isso é apequenar-se de antemão, é trocar um mandato popular com apoio de mais de 50 milhões de votos por um mandato econômico pré-determinado por um “punhado de especuladores”.

 

O Banco Central, em período de transição, ao tomar essa decisão, antecipou de forma objetiva e incisiva o caminho escolhido para o enfrentamento da crise a partir de 2015. É preciso, portanto, repelir com todas as forças o “reenquadramento neoliberal” do segundo mandato de Dilma, antes que a capitulação se consuma ou se naturalize. Depois disso, Inês é morta, ou natimorta.

 

Foi rápido e intensivo o apagamento da memória das eleições, a começar pelo teor protocolar e despolitizado do discurso de vitória de Dilma, enquanto a plateia tentava ecoar, no fundo do salão, os coros históricos das lutas populares e dos últimos enfrentamentos de rua protagonizados pelos movimentos de esquerda. No dia seguinte, declarações de princípios e de fidelidade às políticas de mercado e juras de combate à inflação foram proferidas pelos emissários do Planalto, estabilizando as bolsas.

 

Enquanto isso, negociações de bastidores com os interlocutores do mercado prosseguiram. Nelson Barbosa, que entendeu como poucos o sentido da longa “fritura” de Mantega, passou os últimos dias em reuniões com representantes dos bancos e investidores estrangeiros, apresentando e "adensando" sua proposta de pacote fiscal. Assim como Palocci se cacifou em 2002, em situação similar, para gerir o Ministério da Fazenda, Barbosa procura encarnar o mesmo perfil de atuação: de fora para dentro da máquina, com informações e acessos privilegiados, de um lado e de outro, entre mercados e governo.

 

A retomada da política de juros crescentes foi um sinal verde para essas tratativas, pondo no horizonte o ajuste fiscal "que se fizer necessário" – como preconizava o programa neoliberal ("com DNA autenticado") derrotado nas urnas. As antes condenadas “medidas impopulares” se tornaram agora “medidas necessárias”?

 

Possíveis componentes da futura equipe econômica, colocados literalmente na bolsa de apostas (no caso a BOVESPA), não surgiram ao léu, nem são fruto de especulações vazias. São nomes “próximos” ao mercado, com trânsito nos governos Lula e Dilma (2003-2014) e que só circularam por conta de “vazamentos seletivos” – chamemos assim os intentos de controle e manipulação de informação com fins golpistas.

 

Prova disso é que outros nomes mais alinhados com a proclamada pretensão da presidente de não reeleger-se "para pôr o país de joelhos perante quem quer que seja" foram banidos de qualquer lista, pleito ou discussão desse grupo que nucleia a transição para o segundo mandato de Dilma. Por que será que nomes como Luciano Coutinho, Luiz Belluzzo e Paulo Nogueira Batista Jr., que tão “civilizadamente” conviveram com os mercados ao longo dessas décadas, produzem hoje calafrios neles? Porque os assim chamados “mercados” já não conseguem conviver com limites definidos fora de seu escopo, ou seja, são incompatíveis com qualquer regime democrático que imaginemos.

 

Os segmentos petistas que calçaram a estratégia polarizadora da campanha de Dilma irão se submeter a essa realpolitik de contemporização com o fascismo golpista e com a sabotagem financeira? Eles bem sabem aonde leva a "política de apaziguamento", aonde se chega com concessões continuadas e que só "desacumulam" força social. Procurarão tensionar os rumos do segundo mandato, sendo absorvidos ou expelidos em disputas intestinas? Ou se somarão desde já, em frente unida com a esquerda social, na luta contra a nova ofensiva do capital que busca garantir o controle direto sobre as instâncias de formulação da política econômica do país?

 

O método de antecipar cenários a partir dos movimentos e entrechoques de forças sociais não deve servir para depois atestar, cômoda e doutrinariamente, mais uma leva de capitulações do social-liberalismo. Precisamos, sim, estar atentos à temporalidade muito curta para formarmos um arco amplo de contestação a esse autogolpe. E prontos para a “ocupação” em regime de urgência desse cenário pré-montado.

 

A premissa para qualquer reforma institucional é romper com a lógica da financeirização do nosso Estado. É devassar a caixa-preta macroeconômica, que se refaz descaradamente debaixo de nossos narizes. É multiplicar manifestações e plenárias que tenham como foco a “desconstrução” das contrarreformas neoliberais, sem abrir mão de ações diretas e “escrachos” contra aqueles atores e espaços que estão pagando para ver a efetivação de cada uma delas.

 

 

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O FMI, a burguesia sem príncipe e os órfãos de Junho

Quanto vale o arranjo social-liberal em tempos de ajuste neoliberal?

 

Luis Fernando Novoa Garzon é sociólogo e professor da Universidade Federal de Rondônia.

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