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Dirigente camponês assassinado no Norte de Minas Imprimir E-mail
Escrito por Mario Lúcio de Paula   
Terça, 04 de Novembro de 2014
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Na tarde de 22 de outubro, o dirigente camponês, coordenador político da Liga dos Camponeses Pobres do Norte de Minas e Sul da Bahia – LCP, Cleomar Rodrigues de Almeida, 46 anos, foi assassinado por pistoleiros a mando de latifundiários com um disparo de escopeta calibre 12 quando voltava do município de Pedras de Maria da Cruz para a Área Unidos com Deus Venceremos, onde vivia.

 

Cleomar era um dos “filhos do meio” de uma família numerosa de 18 filhos concebidos em dois casamentos. Seu pai nos contou um pouco da saga de uma família de trabalhadores. Alguns foram para a cidade, tornando-se operários ou assumindo outras profissões. Cleomar também tentou a vida na cidade, foi viver em São Paulo, tornou-se operário da construção. Voltou às suas origens em Pedras de Maria da Cruz, montou um pequeno comércio e se integrou à vida e luta dos camponeses, fazendo-se ativista e forjando-se na luta contra o latifúndio, como um destacado e respeitado dirigente da Liga dos Camponeses Pobres.

 

Na cerimônia do funeral, presidida pela coordenação da LCP do Norte de Minas e Sul da Bahia, tomaram a palavra Comissão Nacional das LCPs, Liga Operária, Sindicato dos Trabalhadores da Construção de Belo Horizonte e Região – MARRETA, Movimento Feminino Popular, Movimento Estudantil Popular Revolucionário, Associação Brasileira dos Advogados do Povo - Abrapo, Centro Brasileiro de Solidariedade aos Povos, que transmitiram mensagem de solidariedade da Frente Independente Popular do Rio de Janeiro. Uma guarda de honra formada por ativistas camponeses foi montada diante do corpo de Cleomar, coberto pela bandeira vermelha da LCP.

 

Um coordenador regional da LCP abriu a cerimônia com as seguintes palavras:

 

“Entendemos que existe essa divisão de classes em nosso país. Há muitos que estão no poder e que se posicionam de forma contrária, dizem que não existe luta de classes em nosso país, que vivemos em um país democrático e as leis existem para todos. Mas isso não acontece.


Foi por causa da classe que o companheiro representa que estamos aqui diante dessa situação, mas queremos falar para todos os companheiros presentes, para todos os familiares, que estamos no caminho certo.


Representamos a classe dos oprimidos, dos mais sofridos, daqueles que constroem tudo e não têm direito a nada, não têm direito à saúde, à educação, não têm direito ao laser, ao ao transporte que satisfaça nossos interesses; por isso hoje estamos fazendo essa homenagem ao companheiro, para reafirmar e deixar claro o quanto esse companheiro serviu a luta e o quanto ele representa para a gente que representa a nossa classe. Tivemos a felicidade de nos últimos três dias estarmos junto com o companheiro, dia e noite, defendendo isso que acreditamos, que é uma Revolução Agrária, que é a transformação de nosso país em uma Nova Democracia, em que todos tenham os direitos que hoje nos são negados”.

 

O boletim de denúncia publicado pela LCP foi lido durante a cerimônia. Parte desse boletim foi redigida pelo próprio Cleomar pouco antes de seu assassinato. São palavras que ele disse em alto e bom som diante de “autoridades”, representantes do governo, Ministério Público e comando da polícia militar, em uma Audiência Pública realizada no dia 9 de outubro, revelando ameaças que ele e vários camponeses vinham sofrendo por parte do latifúndio. Nessa audiência pública, Cleomar denunciou, inclusive, a participação de policiais e de um oficial de justiça em ações para expulsar camponeses das terras tomadas do latifúndio e pescadores que vivem e trabalham nas vazantes (regiões de terras baixas e férteis que passam algum tempo alagadas pelas águas dos rios e que, nos períodos de seca, são utilizadas para a produção). O representante da Abrapo, que esteve presente nessa audiência, contou que Cleomar apontou “Marquinhos”, conhecido por todos na região como pistoleiro a soldo do latifúndio, como elemento que ameaçava os camponeses.

 

Ao denunciar a ação de policiais e da pistolagem em Pedras de Maria da Cruz, Cleomar foi aplaudido pelos camponeses presentes na Audiência, que reconhecerem sua verdade e sua firmeza.

 

O projeto do panfleto que estava em sua bolsa ficou crivado de projéteis de chumbo e manchado com seu sangue.

 

Uma dirigente da LCP se dirigiu aos familiares, companheiros e amigos de Cleomar com as seguintes palavras:

 

“Tenham certeza que nós da LCP vamos reafirmar em toda nossa luta a luta do companheiro, fazer valer o sangue que o companheiro derramou pela destruição do latifúndio em nosso país e pela construção de uma sociedade nova pela qual ele lutou e os companheiros que lutavam com ele também.


Ele era exemplo de que não devemos ter ilusões com esse Estado que negou terra, que negou água aos camponeses. Romper qualquer ilusão com esse Ministério Público que negou justiça para o companheiro. Quantas vezes ele foi ameaçado? O que foi feito? Nada! Nenhuma medida foi tomada. O companheiro chegou a ser ameaçado pelo investigador da polícia civil de Januária porque ele organizava os camponeses para lutar.


O companheiro Cleomar vive na nossa luta, nas nossas palavras de ordem, nos compromissos que assumimos coletivamente com o companheiro de tomar as terras do latifúndio, de fazer avançar a Revolução Agrária, esse é o juramento que ele fez, deu a vida, e reafirmamos a decisão de honrar esse juramento”.

 

Após a cerimônia política, os familiares e amigos fizeram suas últimas despedidas. O caixão com o corpo de Cleomar percorreu as ruas de Pedras de Maria da Cruz em um cortejo silencioso, aberto pelos guardas de honra empunhando as bandeiras vermelhas da LCP. Várias pessoas se revezaram segurando as alças do caixão.

 

Dor e revolta. Populares se aglomeravam nos comércios e acompanhavam com olhares silenciosos de solidariedade. No cemitério, após breve cerimônia religiosa, o corpo de Cleomar foi sepultado. Uma dezena de coroas de flores enviadas por apoiadores da luta camponesa de todo o país foram depositadas sobre sua sepultura.

 

Pistoleiro preso


Advogados da Associação Brasileira dos Advogados do Povo - ABRAPO, que fazem a apuração do assassinato de Cleomar nos municípios de Januária e Pedras de Maria da Cruz, informaram, na tarde de 30 de outubro, que o pistoleiro Marcos Ribeiro Gusmão, vulgo 'Marquinhos", foi preso preventivamente e que outros mandados de prisão estariam sendo cumpridos.

 

“Esperamos que entre estes esteja o do latifundiário Antônio Aureliano Ribeiro de Oliveira, para quem Marcos Gusmão prestava serviços e, muito provavelmente, foi o mandante do crime. Solicitamos que divulguem esta informação, bem como algumas fotos do companheiro assassinado, para que se mantenha a pressão e a cobrança por justiça. Os pistoleiros, os mandantes e os gerentes de órgãos públicos que se omitiram e permitiram que este crime tantas vezes anunciado e denunciado ocorresse têm de ser punidos” – declarou a Comissão Nacional das Ligas de Camponeses Pobres em nota enviada por e-mail.

 

Mario Lúcio de Paula é jornalista.

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Última atualização em Sexta, 07 de Novembro de 2014
 

A publicação deste texto é livre, desde que citada a fonte e o endereço eletrônico da página do Correio da Cidadania




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