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O PD de Renzi despreza os sindicatos e promove soluções neoliberais Imprimir E-mail
Escrito por Achille Lollo, de Roma para o Correio da Cidadania   
Sexta, 31 de Outubro de 2014
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Após o susto que o referendum separatista escocês deu no governo conservador da Grã Bretanha, a relativa “paz social” foi interrompida pelas greves dos funcionários públicos - com destaque o pessoal da educação e da saúde –, que, de forma unitária, manifestaram na capital Londres e em todo o país para exigir o fim das medidas de austeridade. Medidas que, desde 2008, congelaram seus salários, além de impor individualmente uma redução de cerca 2.500 euro por anos (cerca de 7.500 reais). De fato, apesar do bom desempenho da economia, o nível de vida para as famílias britânicas, onde somente o pai ou a mãe são empregados, baixou consideravelmente nos últimos seis anos. Um fator que explica o crescente abandono, por parte dos jovens, das escolas secundaristas, para procurar um trabalho e o desemprego que afeta cada vez mais as camadas juvenis.

 

As manifestações que paralisaram todas as grandes cidades da Grã Bretanha, de Belfast até Glasgow, passando por Manchester e Londres, na realidade estremeceram o governo conservador de Nick Cameron, porém não ao ponto de determinar mudanças concretas na agenda institucional dos ministros de Down Street.

 

Os compromissos assumidos com a Tríade (FMI, Banco Mundial e BCE) e em nível de União Europeia com Ângela Merkel, bem como a dependência da constante valorização do dólar estadunidense, devem manter a Grã Bretanha, a França e os demais países da União Europeia fieis às regras ditadas pelo mercado.

 

Um contexto onde a crise econômica e social - excluindo, obviamente, a Alemanha, que, além de ser dona das dívidas soberanas dos outros estados, é também quem define a política econômica da União Europeia -, na realidade, atingiu níveis alarmantes, tanto que, nos 28 países da União Europeia, se contam 126 milhões de pobres e 43 milhões de famintos (dados elaborados na campanha “Miséria Ladra”). Mesmo assim, os governos europeus ficam impassíveis e até desinteressados em escutar as reivindicações das camadas populares atingidas com as medidas recessivas do chamado “Fiscal  Compact”.

 

Também, na próspera Alemanha houve muitas greves que não modificaram, em nada, a política do governo. De fato, as regiões de Lipsia, Halle, Hamburgo, Hannover, Berlin, Monaco e Frankfurt ficaram paralisadas durante uma semana a partir do dia 20, à causa da greve dos condutores de trens, cujo líder, Claus Weselsky, além de reivindicar o aumento salarial de 4,5%, queria reabrir o debate sobre as negociações que os governos de Ângela Merkel e a poderosa HDE (Fiesp alemã) realizaram no passado, enjaulando os sindicatos e todos os movimentos de lutas.

 

O sindicato dos condutores de trens (GdL) conseguiu lograr um aumento salarial de 0,25% em função da intermediação da direção do partido socialdemocrata (SPD), que agora na Alemanha é considerado o “bombeiro social” da coalizão chefiada por Ângela Merkel. De fato, antes de o sindicato GdL iniciar as negociações com a diretoria do HDE, os chefões da SPD contatavam as TVs e os principais jornais para se vangloriar de terem conseguido restabelecer a “paz social”. Nesse clima de perfeita manipulação da opinião pública alemã, não podia faltar a poderosa confederação sindical DGB (Deutscher Gewerkschaftsbund), que, após ter arrefecido o líder da GdL,  Claus Weselsky com promessas formais (que, na realidade, nunca serão realizadas), voltava a apoiar a política econômica do governo.

 

Contra o trabalho com o “Jobs Act”


Se na Alemanha e na Grã Bretanha o argumento central das lutas dos trabalhadores é a recuperação das perdas salariais sofridas, na Itália o que está em jogo é o próprio emprego, no momento que o desemprego, atualmente atinge 12,3%  da força de trabalho ativa. De fato, segundo o ISTAT (Sistema Estatístico Nacional), de 2008 a 2014 o desemprego dos Under-35 (os jovens entre 25 e 34 anos) passou de 5.129.000 para 7.236.000. O que na prática significa que, nos últimos seis anos,  o desemprego dos Under-35 italianos aumentou de 39,2% para 51,2%, com mais 2.107.000 jovens que ficaram na rua e sem nenhuma perspectiva de trabalho.

 

Por isso, nas principais cidades industriais da Itália, os operários, os trabalhadores precários, os desempregados e os  estudantes (que serão os desempregados do futuro próximo) começaram a exigir das adormecidas confederações sindicais (CGIL, UIL e CISL) uma resposta firme. Como sempre, a CISL se distanciou  dos trabalhadores, assumindo uma posição oportunamente associada ao projeto neoliberal do governo de Matteo Renzi, que, no dia 15 de outubro, lançou a nova Lei do Trabalho “Jobs Act”.

 

A direção da UIL, em função de sua tradição progressista, com medo de ficar seriamente contestada pela base, decidiu apoiar o protesto da CGIL do dia 25 de outubro contra as medias recessivas do governo, mantendo, porém, uma porta  aberta para “renegociar com o governo um eventual melhoramento do Jobs Act”.

 

Por sua parte, a direção da CGIL e a própria secretária-geral da Confederação, Susanna Camusso, decidiram jogar todo seu peso político na manifestação do dia 25 de outubro, em Roma, na esperança de convencer o primeiro-ministro, Matteo Renzi, e, sobretudo, a maioria dos deputados do PD que apoiam o governo em retirar o decreto lei sobre a abolição do Art. 18 do Estatuto dos Trabalhadores.

 

Um decreto-lei que – ao permitir às empresas italianas desempregar com a máxima liberdade – finalmente agrada os comissários da Comissão da União Europeia e a Confindustria (FIESP italiana), que desde 1996 exigiam dos governos italianos a modificação da legislação trabalhista.

 

É bom lembrar que Silvio Berlusconi, durante os 15 anos em que chefiou governos de direita e de centro-direita, sempre quis impor a abolição do Art. 18, mas nunca conseguiu. A última vez que tentou, aos 23 de março de 2002, a CGIL respondeu com uma greve geral nacional, ocupando o centro da cidade de Roma com cerca de três milhões de trabalhadores. Uma manifestação que obrigou Berlusconi não só a retirar a proposta de lei, mas a resenhar suas demissões.

 

De fato, quando Berlusconi agora tenta de explicar por qual motivo apoia e sustenta o governo de Matteo Renzi, não hesita em dizer”...o nosso apoio ao governo Renzi é para ele poder fazer aquelas reformas que os sindicatos e a esquerda comunista nunca  nos deixou fazer. Aliás, essa é uma forma para evitar que a CGIL realize o mesmo golpe de Estado que os comunistas fizeram em 2002 contra o nosso governo!”.


A verdade é que ,por traz do aparente jogo de palavras do primeiro-ministro Matteo Renzi, da vice-secretária do PD, Débora Serrachiani,  e do ministro da economia, Píer Carlo Paduan, há um formidável e bem concentrado ataque político e midiático contra o mundo do trabalho e contra todos aqueles que defendem os trabalhadores.

 

A Leopolda e o novo PD


O enfrentamento entre o governo e o mundo do trabalho começou no dia 24 de outubro, quando a USB (Confederação dos funcionários públicos), à causa da histórica relação litigiosa que mantém com a CGIL, proclamou uma manifestação no centro de Roma que foi um sucesso, além de realizar uma greve de 4 horas dos transportes públicos (trens regionais, metro e ônibus de Roma). Por sua parte, os movimentos sociais optavam por  realizar em Roma, Milão, Turim, Bolonha e Nápoles manifestações nos bairros suburbanos para protestar contra a política  econômica do governo.

 

Depois, no dia 25, a poderosa Confederação Geral Italiana dos Trabalhadores (CGIL) realizou uma manifestação nacional em Roma, onde a líder, Susanna Camusso, diante de mais de um milhão de trabalhadores, dava o aviso ao governo, prometendo uma greve nacional geral caso o mesmo continuasse mantendo o pacote de leis que praticamente desmonta o antigo Estatuto dos Trabalhadores.

 

Nessa manifestação, participaram todos os parlamentares do PD “contrários a Renzi” que, pela primeira vez, ousaram enfrentar diretamente a nova maioria do PD construída por Matteo Renzi e logicamente homenageada pela mídia e vários setores do empresariado.

 

Para legitimar a existência de dois PD e, talvez, promover uma cisão partidária, Matteo Renzi pediu apoio aos empresários que “ofereceram” dois milhões de euros para realizar, em Firenze, um encontro “interclassista” no tradicional local denominado “Leopolda”, nos mesmos dias (24, 25 e 26) em que a USB, a CGIL e os movimentos manifestavam contra  a austeridade e a política recessiva do governo.

 

É inútil dizer que a mídia aclamou e louvou o encontro de Leopolda, que foi realizado com a presunçosa etiqueta de querer  “...debater as razões da crise e individuar as possíveis soluções para a indústria voltar a crescer...”. Não é preciso ser um cientista político para entender que a turma de Matteo Renzi  organizou o encontro “Leopolda 2014”, primeiro, para desqualificar a minoria de esquerda do PD e, em segundo lugar, para silenciar todos os defensores do mundo do trabalho, sejam eles parlamentares, juristas, sindicalistas, intelectuais, jornalistas. Uma operação política muito arriscada, do momento que 65% dos votos do PD são originários da classe trabalhadora.

 

De fato, em Leopolda o “guru” de turno não foi um intelectual de  esquerda, mas, sim, o banqueiro Daniele Serra que, juntamente aos representantes dos pequenos e médios empresários, simbolizou o “novo amor” entre Matteo Renzi e o mercado, tanto que a Confindustria (FIESP italiana), após a apresentação do pacote de lei “anti-trabalhista” (Jobs Act), saudou o PD de Renzi como o novo Partido Nacional. E como se se tratasse de um roteiro de novela, o primeiro-ministro e, também, secretário geral do PD, Matteo Renzi, na sua  última intervenção em Leopolda, declarou: “...De fato o futuro do PD corre cada vez mais em direção de se tornar o Partido da Nação...”.

 

Um futuro difícil do momento que a manipulação da história do PD e de suas raízes políticas com a classe operária e os trabalhadores em geral está por ser desestruturada por esse novo PD de Matteo Renzi, que faz de tudo para enterrar uma tradição política que representa a história da esquerda italiana. De fato, depois da manifestação da CGIL, que levou a Roma um milhão de trabalhadores, a posição de Renzi e do seu PD-Partido da Nação se tornou ainda mais dura com os sindicatos, ao ponto de declarar publicamente “...Uma manifestação de rua da CGIL  não pode, de forma alguma, modificar o que nós, que somos o governo, decidimos e que o Parlamento aprovou. Por isso tudo nós vamos em frente...”.

 

A este ponto, Susana Camusso, secretária-geral da CGIL, diante da arrogância de Renzi e da maioria de seus ministros (que deveriam ser companheiros do mesmo partido!), ao ser entrevistada pelo jornal La Repubblica – que é o principal suporte do governo –. Declarou “...Renzi está no Parlamento porque foram os poderes ocultos que o decidiram e quem confirmou isso foi o próprio Marchionne, o administrador geral da FIAT que nunca desmentiu ter dito que Renzi estava no governo porque  eles o colocaram lá, para desbloquear as leis trabalhistas...”.

 

A resposta do governo veio logo, no dia 29, mas com os cassetetes da polícia, que na estação de trem de Roma massacrou  os metalúrgicos da AST de Terni, que pretendiam protestar diante do Parlamento para denunciar o fechamento de outra fábrica metalúrgica por parte da multinacional alemã, ThyssenKrupp. A ordem do ministro do interior, Angelino Alfano, foi tão enérgica que nem o secretário geral da Federação dos Metalúrgicos (FIOM), Maurizio Landini, escapou das porradas policiais.  Em resposta, a FIOM anunciou uma greve geral do setor metalúrgico para dia 11, chamando para a greve os movimentos sociais, as outras federações e em particular a própria a CGIL.

 

Um novo outono quente?


Quando, no dia 29, as unidades da polícia antimotim atacaram os operários que estavam saindo da estação de trem de Roma com as bandeiras vermelhas da FIOM, muitos se lembraram do “outono quente” de 1969, altura em que os governos da Democracia Cristã tentaram silenciar com a violência da polícia a voz dos operários e dos estudantes.

 

Infelizmente, a verossimilhança se limita, apenas, à dinâmica agressiva e selvagem dos cassetetes policiais do momento que, em termos políticos, tudo mudou: a classe operária já não é mais a mesma, a crise econômica depende de fatores mundiais, o capitalismo nacional foi suplantado pelas transnacionais, a classe política é mera  expressão dos poderosos lobbies, enquanto a soberania do Estado é cada vez mais dependente dos interesses do mercado.

 

Hoje, na União Europeia e, em particular, na Itália, estamos assistindo ao último combate entre as duas principais doutrinas econômicas que simbolizaram o sucesso do capitalismo no mundo inteiro: o keynesianismo e o neoliberalismo. Este último, na realidade, começou a ganhar quando, da intransigência de Ronald Reagan e de Margareth Thatcher, se passou às sofisticadas temáticas do social-neoliberalismo com a Terceira Via de Tony Blair, a quem se deve juntar a famosa “Carta aos Brasileiros” de Inácio Lula da Silva (que abriu as portas do Planalto ao PT lulista) e a “Grande Coalizão” da poderosa socialdemocracia alemã (SPD).

 

Manobras políticas que permitiram, sobretudo nos países da União Europeia, a realização de uma autêntica contrarrevolução neoliberal que, antes de tudo, derrubou a soberania dos Estados, para permitir que, em cada nação, fossem privilegiadas, em termos institucionais, as leis do mercado.

 

A Itália foi o país da União Europeia que, mais que os outros,  resistiu ao “forcing” do social-neoliberalismo. Porém, em julho de 2012, o governo, liderado por Mario Monti, graças ao apoio do PD, conseguiu a aprovação da nova  lei constitucional que obriga o governo a providenciar a paridade orçamental conforme decidido pela Tríade (FMI, Banco Mundial e BCE). Uma lei que anula o artigo 81 da Constituição italiana, com base na qual o Estado jogava um papel determinante no desenvolvimento do país e que, a partir de agora, é definido com base em regras e interesses do mercado.

 

É por isso que Matteo Renzi, em pouco menos de seis meses, se tornou secretário-geral do PD, para depois fazer cair o primeiro-ministro, Letta  (um keynesiano do PD), e exigir do presidente Napolitano o cargo de primeiro-ministro. Feito isso, ele começou a promover: 1) a total dependência estratégica aos EUA; 2) o ataque ao mundo do trabalho, invalidando o Artigo 18 do Estatuto dos Trabalhadores; 3) a apropriação do PD para transformá-lo em um partido semelhante ao partido Democrata de Bill Clinton; 4) a desqualificação das tradições políticas e ideológicas da esquerda e da classe operária, consideradas algo de “antigo”; 5) a afirmação de um modelo econômico orientado e monitorado pelas lobbies das transnacionais e dos conglomerados financeiros.

 

Uma verdadeira contrarrevolução que assustou até o Prêmio Nobel pela economia de 2008, Paul Krugman, e o filósofo moderado Jürgen Habermas. De fato, para Krugman “...A decisão de realizar primeiro a união monetária dos países europeus, no lugar de tornar efetiva a união política, econômica e social, foi uma consequência da mentalidade mercantilista do setor financeiro”. Por sua parte, o filósofo Habermas foi mais a fundo, alertando: “...os lobbies industriais e sobretudo as financeiras pretendem desqualificar o poder decisório dos povos, para impor democracias de fachada no continente europeu...”.

 

O grande problema é que a afirmação desse novo modelo econômico vai determinar a consequente consolidação de um tipo de sociedade perfeitamente estruturada para servir os interesses dos mercados e sem instrumentos de defesa. Por isso tudo, a greve geral proclamada pela FIOM para dia 11 de novembro, em termos políticos,  é de extrema importância, podendo determinar o surgimento de uma nova  esquerda ou o definitivo sucesso da contrarrevolução neoliberal na Itália.

 

 

Achille Lollo é jornalista italiano, correspondente do Brasil de Fato na Itália, editor do programa TV “Quadrante Informativo” e colunista do "Correio da Cidadania"


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Última atualização em Qui, 06 de Novembro de 2014
 

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