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As origens do golpe de Estado de 11 de setembro de 1973 Imprimir E-mail
Escrito por Jorge Magasich   
Quarta, 29 de Outubro de 2014
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O golpe cívico-militar e o terrorismo

 

Hoje se sabe que o golpe, designado muitas vezes como “golpe militar”, foi na realidade iniciado por civis que se puseram em relação com militares. Foi entre presidentes de corporações patronais, proprietários de meios de comunicação, editorialistas do El Mercúrio, que se decidiu a fazer campanha de imprensa, investidas institucionais, greves insurrecionais para paralisar o país e também ondas de mais de mil atentados terroristas contra infraestruturas – estas com ajuda de marinhas golpistas – que provocaram impressionantes destruições e morte de pessoas. Os poucos responsáveis que puderam ser apreendidos, como o grupo que atentou contra o assessor Arturo Araya, terminaram perdoados depois do golpe ou se beneficiaram do fechamento dos casos por tribunais cúmplices, que perpetraram o delito de prevaricação mais importante da história.

 

O primeiro cenário que reúne civis que acariciam a “opção militar” com militares é o Club Cofradia Náutica do Pacífico Austral. Ali se encontram, desde 1968, altos oficiais navais como Toribio Merino, Patrício Carvajal, Arturo Troncoso, Pablo Weber José Radic Pardo (quem levará o “Plan Z” a revista Qué Pasa), com “uns poucos civis cujo número vai aumentando”, reconhece Arturo Fontaine. Estão Augustín Edwards e seus três homens: Roberto Kelly (ex-marinheiro e futuro ministro do Escritório de Planejamento), Hernán Cubillos (ex-marinheiro e futuro ministro das Relações Exteriores) e Fernando Léniz (administrador de Edwards e logo ministro da Fazenda), entre outros (1).

 

Em 1972, integraram-se o general Sérgio Arellano e o general de carabineiros, Arturo Yovanne, organizadores do golpe em suas instituições. Aparentemente, a Cofradía continua funcionando depois do golpe, e conta entre seus membros com Jorge Ehlers, ex-cadete naval, diretor de esportes sob a ditadura e implicando no assassinato do assessor Araya em 1973 (2).

 

O segundo grupo é uma organização empresarial constituída em Viña del Mar, em setembro de 1971, com um propósito explícito: “a derrubada do regime do senhor Allende”, afirma seu fundador Orlando Sáenz (3), presidente da SOFOFA. Chega a ter 70 pessoas dedicadas a organizar a crise econômica e a desordem social que infundam pânico na população e incitam por uma intervenção militar. Este grupo organiza a greve de outubro de 1972 e a de julho e agosto de 1973. Dispõe de cinco contas na Europa, Estados Unidos e América Latina, copiosamente alimentadas: “Prata da CIA? Pra da  ITT ou de outras empresas transnacionais? Esse não era nosso problema”, explica Sáenz. O dinheiro era entregue a Léon Vilarín (presidente dos caminhoneiros); a Pablo Rodriguez (chefe da Pátria e Liberdade); a Pedro Ibáñez (que correspondia ao Partido Nacional); a Felipe Amunátegui (o que correspondia a Democracia Cristã) e a Jaime Guzmán, (encarregado dos sindicalistas). O grupo se reunirá em breve com os oficiais da marinha (4).

 

O terceiro grupo foi revelado pelo general aéreo Nicanor Díaz (ministro do trabalho da ditadura), em 1990. Ele resolveu “derrubar Allende” e se reuniu na segunda-feira, na casa de Hugo León Puelma (presidente da Câmara chilena da Construção e ministro de Obras Públicas de 1975 a 1979). Compõem, entre outros, os presidentes das associações de patrões: Julio Bazán (Confederação de Colégios Profissionais); Alfonso Márquez de la Plata (Sociedade Nacional de Agricultura, ministro da Agricultura da ditadura); Orlando Sáenz (SOFOFA) e Manuel Valdés (Confederação Nacional de Empregadores Agrícolas). “Eu sei – afirma Nicanor Díaz – que manteve contato com os marinheiros, com os capitães de navio que estavam metidos no baile”. Por exemplo, o almirante Patrício Carvajal se apresenta no escritório do general Díaz, para uma reunião golpista, acompanhado de Hugo León (5).

 

Ao mesmo tempo, funciona um comitê coordenador golpista que se reúne semanalmente no escritório de Cubillos, na editoria Lord Cochrane, para decidir sobre as campanhas de imprensa. Compõem Roberto Kelly, René Silva Espejo (diretor do El Mercúrio), Arturo Fontaine (subdiretor), Orlando Sáenz, Hugo León, Jaime Guzmán, Carlos Urenda, Jorge Ross, Edmundo Eluchans e outros. Kelly e Cubillos são chamados mergulhadores táticos, pois, “mergulham na Marinha graças a seus contatos com Merino, Troncoso e Castro” (6).

 

Entre as "ações" organizadas nestes círculos estão as ondas impressionantes de "terrorismo frio e desonesto", conforme classificou Salvador Allende. Um verdadeiro frenesi destrutivo um tanto esquecido pelos historiadores.

 

Balanço do terrorismo


A primeira onda terrorista acontece durante a greve de outubro de 1972: miguelitos destroem milhões de pneus, de caminhões, automóveis e também de ambulâncias, e registram 52 atentados contra torres elétricas, ferrovias e empresas públicas. A segunda onda, de 25 de julho de 1973 até o golpe, é 25 vezes maior: perpetraram mais de mil atentados que provocam imensas destruições e vítimas mortais.

 

Já em 9 de agosto, Allende denuncia a “onda fascista” que sacudiu o Chile: 215 atentados, com destruições materiais incríveis e quatro mortos, que deixaram 25 órfãos. Quatro dias depois, o presidente precisa: 21 atentados contra caminhões; 77 contra ônibus; 16 contra postos de gasolina; 37 contra ferrovias; 10 contra pontos importantes; 6 contra oleodutos; um contra um túnel e outros tantos contra serviços públicos, luz, água, casas particulares, canais de TV. “Só ontem à noite, em Santiago estouraram 14 bombas”. Sua palavra é inacabada, pois um atentado deixa sem eletricidade a zona central.

 

O último balanço do terrorismo é apresentado pelo secretário geral do Partido Socialista, Carlos Altamiro, em 9 de setembro: entre 23 de julho e 5 de setembro são perpetrados 1.500 atentados, 24 por dia, um a cada hora, com um saldo de mais de 10 mortos, mais de 117 feridos, além do gigantesco dano econômico (7).

 

Treinados na Armada


Parte dos atentados tem sua origem na Marinha. Desde 1972, os marinheiros constitucionalistas escutam oficiais pronunciarem discursos inflamados contra o governo, enquanto lhe dão instruções militares “anti-subersivas” contra inimigos como “os comunistas e o MIR”. E, mais grave, advertem que estão entrando grupos de extrema direita (8).

 

Em novembro de 1972, aparece uma bomba sem explodir no jardim da casa do almirante Ismael Huerta, um golpista de primeira hora. O almirante Merino reclama do “caos” e exige culpar membros de ultraesquerda.

 

Investigações revelam os autores em junho de 1973: trata-se de um grupo dirigido por Jorge Young Montesinos, um ex-oficial da Marinha relacionado com Ismael Huerta, que havia lançado uma bomba contra a casa da inspetora do Liceu de Niñas de Viña, Lucia Kirbeg, “por ser comunista”; outra contra a residência do ministro da Corte de Apelações Sergio Agüero, pois não era duro com os presos de esquerda; e outra contra um depósito de combustível do palácio presidencial do Cerro Castillo, que não explodiu.

 

A bomba encontrada no jardim do almirante Huerta foi jogada por Arturo Pinochet, um sobrinho do futuro ditador, talvez envolvido para desestabilizar o seu tio, até então catalogado como um general leal (9).

 

A segunda greve insurrecional se destaca com o assassinato do assessor Arturo Araya na noite de 26 de julho. Investigações lançam uma intensa campanha de desinformação que acusa os cubanos e escoltas do presidente e conseguem deter os culpados: Guilherme Claverie, Guilherme Bunster e outros, conduzidos pelo ex-cadete naval Jorge Ehlers. Serão perdoados por Pinochet e vários ingressam no Comando Conjunto. Uma interessante investigação do jornalista Jorge Escalante indica que houve outros envolvidos e que Arturo Araya foi finalizado por um franco-atirador em uma varanda em frente a sua casa. O assassino atuou “por encargo de alguns setores da Armada e políticos” (10).

 

Pouco antes, em 13 de julho, havia ingressado ilegalmente no Chile o chefe do Pátria e Liberdade, Roberto Thieme (exilado no Equador para escapar do juízo por sua participação no “Tanquetazo”) e informa à imprensa que inicia as “ações”. O governo ordena sua captura, que se concretiza em 22 de julho. Mas, dias antes, oficiais da Marinha pedem uma reunião urgente.

 

Embora fugitivo, Thieme se reúne com o capitão Hugo Castro (logo ministro de educação) e outro oficial. E informam que em 25 de julho se inicia a nova greve que busca paralisar o país e criar condições para dar o golpe. Pedem que o Pátria e Liberdade “contribua”, sobrevoando ferrovias, rodovias e oleodutos, mas evitando danos maiores; para isso a Marinha indicará os objetivos e proporcionará explosivos (11).

 

Um “alvo” foi o gasoduto da ENAP, que vai de San Fernando a San Vicente. Os explosivos eram de tal poder que, perto de Curicó, sobrevoaram um trecho de 30 metros deixando nove feridos e dois mortos por queimaduras. Como no caso do assessor, uma campanha de imprensa acusa um tal Sabino Romero, transformado em um terrível “comandante Sabino”, quem estaria sob forte proteção porque “sabia muito”, explica El Mercúrio de 17 de agosto. Mas a Corte de Apelações de Talca o põe em liberdade por falta de méritos. Os verdadeiros culpados – conhecidos – nunca tiveram de responder pelo atentado nem pelas mortes.

 

Outro “alvo” foi a torre de alta tensão sobrevoadas com explosivos facilitados por Hugo Castro e detonadas por um grupo vinculado ao Pátria e Liberdade, dirigido pelo ex-oficial naval Vicente Gutiérrez.  Cortou o fornecimento elétrico da região central e interrompeu a comunicação do presidente. E continuaram outros atentados...

 

Impressiona que certa imprensa nunca qualificou como “infiltração” ou “motim” as reuniões conspiratórias entre civis como Sáenz, Claro, León, ou os homens de Edwards, com altos chefes militares, nem sequer quando Kelly e Cubillos “mergulhavam” na Marinha. Tais termos são reservados para se referir às reuniões que, pouco antes do golpe, argumentaram os chefes de PS, do MAPU e do MIR com um grupo de marinheiros constitucionalistas que denunciavam o golpe iminente (12). Embora tenha sido demonstrado que ouvir uma denúncia de conspiração contra o governo legítimo não é delito (Oscar Garretón, o único parlamentar julgado por isso, foi absolvido pela Corte Suprema, por unanimidade), os textos navais evitam falar em “infiltração”. Até hoje.

 

Notas:

1. Como Jorge Ross, Enrique Puga, Isidoro Melero, Lord Dramon, Alfredo Barriga, Marcos Cariola, Emilio Sanfuentes.

2. Arancibia Patricia, 2005, Conversando com Roberto Kelly V. Recuerdos de uma vida, Ed. Biblioteca Americana, 109-111; 117-118 ; Fontaine Arturo, 1988, Os Economistas e o Presidente Pinochet, Ed. Zig-Zag, Santiago, 16-17 ; Reportage do canal 13, Antesala do golpe.

3. El Mercurio, 29/9/2002.

4. Verdugo Patricia, 2003, Allende. Como a Casa Blanca provocou su morte, Ed. Catalonia, 117. Orlando Sáenz, entrevistado na emissão Relatório Especial, quando o Chile mudou o golpe, TV Nacional, agosto de 2003.

5. Marras Sergio, 1990, Confissões. Entrevistas de Sergio Marras, Ed. Ornitorrinco, 106.

6. Arancibia, 2005, 128-130 ; 134.

7. Salazar Gabriel, 2010, Conversações com Carlos Altamirano. Memorias críticas. Ed. Debate, 366.

8. Testemunhos em Magasich Jorge, 2008, Los que disseram ‘Não’. História do movimento dos marinheiros anti-golpistas de 1973, Ed LOM.

9. Vega Luis, 1983, A queda de Allende. Anatomia de um golpe de Estado, Ed. La Semana, Jerusalém, 220-223.

10. A Nação, 7-4-2005.

11. Fontes Manuel, 1999, Memórias secretas de Pátria e liberdade e algumas confessões sobre a Guerra Fria no Chile, Ed. Grijaldo, 295-297. Thieme repete este episódio e da em nome de Hugo Castro em [La Nación, 12-2-06], entrevistado por Jorge Escalante.

12. Reuniões descritas em Magasich, 2008, vol II, 83-108.

 

Leia também:

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Jorge Masasich é historiador chileno e leciona em Bruxelas. Série de artigos originalmente publicada pelo Le Monde Diplomatique francês e espanhol.

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