Estados Unidos e Brasil: aprofundar a relação desigual

 

No dia 26 de outubro, o Brasil chegou ao fim do processo eleitoral de 2014. Desde 2006, os dois principais partidos nacionais – PT e PSDB - esmeram-se na consecução de um neoliberalismo abrandado, outrora rejeitado de modo firme por um deles até a chegada ao poder em janeiro de 2003.

 

Como consequência do consenso econômico tácito, o país assiste à execução de amplas políticas sociais compensatórias. A partir do relativo êxito delas, a estrutura socioeconômica conserva-se sem sismos de monta. Aos olhos conservadores, é a consecução da chamada normalidade institucional.

 

Na política externa, há naturalmente diferenças entre as duas agremiações partidárias, porém sem significar o comprometimento da estrutura interna com mudanças significativas, mesmo que a longo prazo.

 

Mais próximo da América do Sul, ainda que em função da antiga atuação desenvolta da Venezuela na região também, o Brasil diversificou de forma correta o destino de suas exportações, mas com a permanência do perfil agrícola ou extrativista, muito mais sujeito às intempéries econômicas mundiais, como se observa nos dias de hoje.

 

Com os Estados Unidos, o relacionamento direto tem sido estável nos últimos anos, mesmo que abalado por um momento em decorrência das denúncias de espionagem eletrônica global por parte do governo estadunidense.

 

O símbolo do descontentamento temporário demonstrou-se no cancelamento da visita de Dilma Rousseff àquele país em outubro de 2013. À distância do evento, poder-se-ia avaliar que a ida teria tido efeito positivo maior, desde que houvesse lá a manifestação contrária do Planalto à postura da Casa Branca de observar de maneira secreta até seus aliados mais próximos.

 

O comportamento de espreitar outros governos por parte de Washington foi censurado até por seus próprios diplomatas, como foi o caso recente de Melvin Levitsky, ex-embaixador dos Estados Unidos junto ao Brasil entre o final do mandato de Itamar Franco e o primeiro de Fernando Henrique Cardoso – junho de 1994 a junho de 1998.

 

Em recente entrevista à Folha de São Paulo, ele fez alusão à diferença de tratamento entre Brasília e Berlim no tocante à questão, o que indica de certa forma o peso político de cada um aos olhos estadunidenses.

 

Enquanto a primeira-ministra Angela Merkel recebeu a atenção direta de Barack Obama, a presidente Dilma Rousseff teve de contentar-se com a de Joe Biden, número dois da Casa Branca.

 

Se o monitoramento era possível em termos tecnológicos, politicamente era desnecessário, uma vez que o Brasil não se distanciava muito da órbita norte-americana. Como o tópico até agora não foi passado a limpo, o estranhamento persiste.

 

Chamativa a análise do diplomata ao cotejar a administração de Dilma com a de Lula. Este teria estado mais ao ‘centro’ no campo econômico, porém compensado isto com uma política externa supostamente mais à esquerda, ao aproximar-se de Cuba, Venezuela e Irã.

 

Dilma, por outro lado, teria posição distinta da do predecessor, ao inclinar o pêndulo da economia brasileira à esquerda. Na política exterior, o norte teria sido mantido. Todavia, não se esclarece por que considerar como à esquerda uma proximidade eventual com o Irã, no caso de Lula, e críticas aos Estados Unidos no tocante a sua atuação junto ao Iraque e Síria.

 

De todo modo, o próprio diplomata reconhece que o Brasil não atrai muito a atenção porquanto não está em crise profunda, a despeito da economia estagnada, ou em atrito político sério com os norte-americanos.

 

Portanto, a relação bilateral também não destoa da citada institucionalidade acima. O lamento do ex-representante é a ausência de aprofundamento econômico entre um país bastante industrializado e outro sem esperança de chegar a um patamar próximo.

 

Virgílio Arraes é doutor em História das Relações Internacionais pela Universidade de Brasília e professor colaborador do Instituto de Relações Internacionais da mesma instituição.

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