Correio da Cidadania

A súbita paixão eleitoral

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As paixões despertadas pelas recentes eleições presidenciais foram surpreendentes. Em particular, causou espanto a mobilização nas universidades federais em favor de Dilma, uma vez que há dois anos estes mesmos professores enfrentaram uma longa greve, derrotada inescrupulosamente pelo governo. Povo brasileiro não tem memória, já repetia Pelé?

 

De um ponto de vista racional, o que se disputou era pouco: ambos os partidos reproduzem o Brasil como plataforma de valorização do capital financeiro e exportador de commodities. Em uma palavra, reatualizam o sentido da colonização, colocando o trabalho e as riquezas naturais a serviço de interesses alheios ao conjunto da população.

 

Após doze anos de gestão petista, ideologias como “arrumar a casa para depois mudar o Brasil”, ou “trata-se de um governo em disputa”, minguaram. E o que restou no campo da esquerda foi a defesa do mal menor, que também pode ser vista como uma ideologia: a reforma da previdência que FHC não conseguiu saiu no primeiro mandato de Lula, com apoio sindical. No campo houve menos sangue, e menos ainda reforma agrária.

 

Minha hipótese é que a recente paixão eleitoral é expressão de um sentimento generalizado de impotência. Sua fonte política remete às jornadas de junho, mas sua evidenciação mais recente foi a derrota para a Alemanha na Copa.

 

Aquela partida foi um desenlace trágico: quando a Copa parecia dar certo do ponto de vista da FIFA, porque aeroportos funcionaram, estádios pararam em pé e o povo aquietou na tevê, os brasileiros confrontaram-se com o desmoronamento da sua expressão cultural mais querida. O Brasil fez estádios e aeroportos, mas o futebol brasileiro está deixando de existir: a exportação acelerada de jogadores impede a formação de times, nossos melhores talentos tornam-se jogadores europeus, praticando um futebol em que abundam as faltas e escasseiam os gols. Para um país sem projeto de nação, uma seleção sem meio-de-campo.

 

Neste contexto, as equipes latino-americanas, e também as seleções, descobrem-se impotentes diante dos europeus. E os brasileiros, impotentes diante da crise: três dias após o término da Copa reiniciou-se o Campeonato Brasileiro, na toada de que o circo não pode parar. A diferença é que os palhaços estão todos assistindo, como deixou claro a CBF ao recolocar Dunga no comando.

 

Ao desarmar-se a tenda da FIFA, armou-se o circo eleitoral. E rapidamente ficou claro aos brasileiros que as jornadas de junho estavam fora da pauta. O povo que saiu às ruas, apanhou e voltou maior, foi ignorado.

 

Já em junho, observou-se que os abalos sísmicos tiraram da toca expressões sociais reacionárias. É recorrente na história: onde a esquerda faz o papel da direita, assenta-se o terreno para a reação. Nestas eleições, a direita em embalagem eco-evangélica ficou para trás. E então, os braços esquerdo e direito que há vinte anos atuam como o Partido da Ordem ocuparam o ringue. Variantes de um mesmo projeto, esta luta só poderia ser decidida por pontos. E seu desenlace, inconclusivo.

 

Na minha visão, esta impotência para mudar é o substrato das paixões exaltadas. Junho escancarou a insatisfação com o padrão lulista de gestão do subdesenvolvimento, insatisfação que teve expressões à esquerda e à direita. Na Copa, o país assistiu ao vivo à crise da nação, condensada em quarenta e cinco minutos em linguagem que todo brasileiro entende. Em ambos os casos, a resposta do partido da ordem foi diversionista: muda-se o foco, ignoram-se os temas para os quais nenhum dos polos tem resposta – e que são os que importam.

 

Confrontado com a impotência para desafiar o Partido da Ordem, o povo brasileiro assistiu à radicalização reacionária. Neste contexto, muitos de seus melhores quadros acudiram a uma defesa apaixonada do petismo. Os ânimos se exaltaram.

 

No entanto, subjacente à exaltação não há projeto, mas frustração. Uns, frustrados de que o Brasil não seja a Alemanha, e outros de que nunca chegue a ser o Brasil. Revela-se um padrão sentimental infantil, sugerindo imaturidade política.

 

Maturando, o time da nação brasileira precisará juntar forças dispersas em ruas e estádios, desfazer-se de ilusões modernizantes e reconhecer que a esperança só vencerá o medo quando confrontar o partido da ordem, do qual o PT há muito é parte.

 

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Fabio Luis é historiador e professor da UNIFESP.

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