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Jornadas de junho, as eleições e a onda conservadora Imprimir E-mail
Escrito por Bruno Fiuza, para Escrevinhador   
Qui, 23 de Outubro de 2014
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Assim que o TSE começou a divulgar os resultados do primeiro turno das eleições, um sentimento de perplexidade e prostração se abateu sobre aqueles que acreditam em um Brasil mais democrático e igualitário, sobretudo em São Paulo.

 

Depois da enorme demonstração de vitalidade política de junho de 2013, saía das urnas o Congresso mais conservador desde 1964 (leia aqui).

 

Geraldo Alckmin foi reeleito governador de São Paulo no primeiro turno; José Serra tirou de Eduardo Suplicy a vaga no Senado por São Paulo. Aécio Neves apresentava uma votação muito maior do que o previsto pelos institutos de pesquisa. À primeira vista, o PSDB e a direita mais retrógrada tinham sido os grandes vitoriosos.

 

A esquerda sentiu o golpe e, já no dia 9 de outubro, Guilherme Boulos, do MTST, alertava em sua coluna no portal da Folha de S. Paulo para o surgimento de uma onda conservadora.

 

De fato, a julgar pelos resultados do primeiro turno, o Brasil, com São Paulo à frente, parecia mesmo ter dado uma guinada à direita. Diante do resultado, ficava a questão: onde foi parar a energia libertária, democrática e igualitária que moveu parte das manifestações de junho de 2013 e das mobilizações que se seguiram? Alguns dias depois, Caio Dezorzi, da Esquerda Marxista, resolveu parar para analisar os dados do TSE com um pouco mais de calma e chegou a um resultado surpreendente (leia aqui).

 

Ao comparar os resultados do primeiro turno das eleições de 2006, 2010 e 2014, no Brasil e em São Paulo, Dezorzi constatou que as votações dos candidatos do PSDB para presidente e governador do estado de São Paulo se mantiveram praticamente estáveis.

 

O candidato que realmente surpreendeu em 2014 foi o segundo colocado na eleição para presidente: o candidato NDA (nenhuma das anteriores). Como as porcentagens divulgadas pelo TSE se referem apenas aos votos válidos, o peso das taxas de abstenção e de votos nulos e brancos não aparece nos resultados das eleições. Ao levar essas três categorias em conta, e creditá-las para um candidato imaginário – o candidato NDA – Dezorzi mostra que quem cresceu em 2014 não foi o PSDB, mas sim a rejeição ou o descaso com o processo eleitoral como um todo.

 

Dezorzi utiliza esses dados para rebater o argumento de Boulos, defendendo que o que existe no Brasil não é uma onda conservadora, mas sim um profundo questionamento do sistema eleitoral como um todo, que abriria espaço para o fortalecimento de forças sociais não só progressistas, como revolucionárias. Vistos do ponto de vista da análise de Dezorzi, portanto, os resultados do primeiro turno das eleições de 2014 se tornam absolutamente coerentes com as manifestações de junho de 2013, pois expressam um rechaço em bloco à política institucional.

 

A grande dificuldade ao confrontar os textos de Boulos e Dezorzi é que, de certa forma, os dois parecem ter sua parcela de razão. A grande pergunta a ser feita é: o fato de candidatos mais conservadores terem ganhado nas urnas significa que a população brasileira se tornou mais conservadora? Ou o resultado do primeiro turno é apenas mais um indício do divórcio entre a política institucional e a vida real dos brasileiros? A partir dessa pergunta, é possível formular outra: existiria uma alternativa política que, mesmo não se expressando nas urnas, estaria latente na sociedade brasileira?

 

Infelizmente, o resultado do primeiro turno das eleições não ajuda a responder a nenhuma dessas perguntas, por um motivo muito simples: abstenções e votos brancos e nulos são caixas-pretas políticas. É impossível saber quem o candidato NDA representa.

 

Em primeiro lugar porque, como vários institutos de pesquisa alertaram, muitos dos eleitores que não foram votar podem simplesmente estar mortos, já que o cadastro do TSE está desatualizado. Em segundo lugar, muitos eleitores que votaram nulo podem simplesmente ter errado ao digitarem suas opções na urna eletrônica.

 

Em terceiro lugar, mesmo quem se absteve ou votou nulo ou branco por convicção, pode ter feito isso pelos mais variados motivos. A abstenção e os votos nulo e branco não têm coloração ideológica. Entre os que rejeitam conscientemente o processo eleitoral há desde a extrema direita – aqueles que acham que os políticos são todos corruptos e por isso melhor mesmo seria entregar o poder a um líder iluminado e de pulso firme – até a extrema esquerda – aqueles que acreditam que a democracia burguesa é uma farsa e a única alternativa de transformação real é a auto-organização das classes exploradas para a construção de um poder popular paralelo.

 

Feitas todas essas ressalvas, acho razoável pensar que, em vez de enxergar o primeiro turno das eleições como um sinal de que o brasileiro se tornou mais conservador, é possível enxergar no processo uma janela de oportunidade para uma reorganização política que vá além das instituições tais como elas existem hoje. O problema é que essa oportunidade pode ser aproveitada por todo o espectro político, da extrema esquerda à extrema direita.

 

Isso quer dizer que, independentemente do resultado do segundo turno, se a esquerda quiser sobreviver no Brasil, ela precisa se reinventar, sob pena de abrir espaço não para uma onda conservadora, mas para uma onda fascista. A desmoralização de um eventual segundo governo Dilma pode alimentar a organização de uma direita muito pior do que a que está aí, e é por isso que a reorganização da esquerda é urgente.

 

Ok, mas o que, exatamente, significa uma reorganização da esquerda? Acho difícil que alguém tenha uma proposta pronta e acabada na ponta da língua, mas é tarefa fundamental de qualquer um que se reivindique desse campo começar a refletir a partir de agora. Pessoalmente, acho que um ponto de partida fundamental é recuperar a autonomia da esquerda social diante da esquerda partidária, reconhecer que as duas instâncias têm sua independência relativa e estabelecer um novo padrão de relacionamento entre elas.

 

Não há dúvida de que os governos do PT representaram avanços para a classe trabalhadora, mas o preço pela melhoria de vida de uma parcela significativa da população foi uma subordinação de grande parte das lutas sociais à razão de Estado. Como os movimentos sociais mais poderosos do país tinham ligações umbilicais com o PT, quando o partido chegou ao poder muitos militantes subordinaram suas ações aos interesses do governo. Assim, a governabilidade, preocupação central de quem está no poder, acabou contaminando os próprios movimentos. Com isso, a ruptura de 2013 se deu, em grande parte, contra o PT e contra parte desses movimentos sociais.

 

Diante dessa situação, acredito que uma reorganização da esquerda passa por pensar mais no que é melhor para a organização autônoma da classe trabalhadora e menos no que é melhor para o governo. Militantes partidários precisam ter o desprendimento de perceber que críticas aos seus partidos não são, necessariamente, golpismo da direita.

 

A grande novidade de 2013 foi o surgimento de um antipetismo popular, e os dirigentes do PT não podem fingir que isso é golpismo ou manipulação da direita. Logo, essa reorganização passa, necessariamente, pelo reconhecimento dos inúmeros erros que o PT cometeu no poder.

 

Feito esse reconhecimento, fica a dúvida: o PT ainda é um instrumento útil para a classe trabalhadora? Pois um partido nada mais é do que um instrumento – quando dirigentes partidários começam a acreditar que o partido está acima da classe, este é o princípio do fim de qualquer organização.

 

Nas suas origens, o PT soube, como poucas organizações na história dos movimentos da classe trabalhadora, articular a ação dos movimentos sociais e a atuação de seus militantes na política institucional. Isso, no entanto, se perdeu. Hoje, uma parte expressiva da militância petista está a reboque do governo, servindo de correia de transmissão para discursos bolados por marqueteiros para manter o partido no poder.

 

Acontece que, para se manter no poder, o PT é obrigado a fazer alianças que praticamente inviabilizam transformações sociais profundas. Enquanto o Brasil viveu um ciclo de crescimento econômico, foi possível garantir conquistas pontuais para a classe trabalhadora sem mexer nas estruturas do poder econômico. Com o esgotamento desse ciclo, no entanto, essa possibilidade evaporou. Junho de 2013 nada mais foi do que a recolocação do conflito, a retomada da luta de classes, o fim da conciliação.

 

Diante dessa conjuntura, é natural que a classe trabalhadora não confie a um PT manietado pelas alianças do governo a tarefa de fazer os enfrentamentos que o novo ciclo exige. O problema, portanto, é: qual ou quais vão ser os instrumentos de luta da classe trabalhadora daqui para frente? Enquanto estiver preso a Collor, Renan e Kátia Abreu, o PT não poderá desempenhar essa função.

 

O vácuo deixado pelo partido pode e precisa ser ocupado por diferentes forças, partidárias ou não, mas aí se coloca o outro problema: se a razão de Estado não pode subordinar a ação dos movimentos sociais, estes também não podem simplesmente ignorar o Estado, como se a simples negação anulasse os efeitos deste sobre a sociedade. A política institucional continua a interferir na vida das pessoas mesmo quando estas não reconhecem sua legitimidade. Por isso, apenas boicotar as eleições e não construir alternativas é uma tática absolutamente suicida.

 

Em artigo publicado na Folha de S. Paulo, Mauricio Puls chama a atenção para o perigo desse tipo de atitude (http://www1.folha.uol.com.br/poder/2014/10/1535593-opiniao-a-poeira-das-manifestacoes.shtml). Ao se recusar a participar do processo eleitoral, parte da esquerda abriu caminho para a eleição de candidatos ainda mais conservadores, o que vai interferir diretamente na vida cotidiana de todos os brasileiros a partir de 2015.

 

Com um Congresso mais conservador, um eventual segundo governo Dilma terá ainda menos margem de manobra, o que significa ou mais corrupção para aprovar projetos de interesse do governo, ou derrotas seguidas do Executivo. De uma forma ou de outra, não é um cenário promissor.

 

O texto de Puls é importante por apontar a contradição entre a emergência de movimentos libertários e o fortalecimento da direita partidária. Ele cita o Maio de 68 e a reeleição de De Gaulle na França e o 15-M e a eleição de Rajoy na Espanha, mas poderia ir além: o levante zapatista e a eleição de Fox no México, o 30-N de Seattle e a eleição de Bush nos EUA, enfim… a lista é longa.

 

Todos estes foram movimentos que negaram a política institucional em bloco, assim como fez o “Cacerolazo” argentino de 2001, os “Forajidos” equatorianos de 2005 e, em certa medida, a Guerra do Gás na Bolívia, em 2003. Ao contrário do que escreve Puls, o “Cacerolazo” de 2001 não era “contra um”, mas contra todos – o lema do movimento era “que se vayan todos”. O mesmo lema ecoou nas ruas de Quito em 2005, quando a multidão depôs Lucio Gutiérrez e expulsou a tapas os deputados do Congresso equatoriano, cena que vi com meus próprios olho.

 

Por que, então, levantes libertários na Argentina, no Equador e na Bolívia abriram caminho para a esquerda (Kirchner, Correa e Morales, respectivamente), enquanto outros movimentos igualmente libertários facilitaram a chegada da direita ao poder?

 

Acredito que a chave para a resposta esteja no Equador e, acima de tudo, na Bolívia. A grande debilidade de movimentos libertários como o Maio de 68 francês, o 15-M espanhol e o 30-N de Seattle foi sua incapacidade de construir organizações políticas alternativas àquelas que criticavam – debilidade, aliás, recorrente entre movimentos libertários.

 

No Equador e, sobretudo, na Bolívia, no entanto, a negação da ordem foi acompanhada pela construção de uma nova institucionalidade. No primeiro, o movimento cidadão que depôs Gutiérrez foi organizado em torno de Rafael Correa e instaurou uma nova assembleia constituinte. Na Bolívia, o Movimento ao Socialismo (MAS) de Evo Morales desempenhou um papel ainda mais pronunciado na reorganização institucional do país e na convocação de uma assembleia constituinte.

 

Diante desses exemplos internacionais, acredito que o que falta ao Brasil é uma disposição das várias forças de esquerda para atuar em conjunto no intuito de criar uma força política suficientemente poderosa para construir uma nova institucionalidade no país. Vale lembrar, no entanto, que a empreitada não está fadada ao sucesso. Se o MAS conseguiu refundar o Estado boliviano, a Outra Campanha zapatista, que tentou fazer algo parecido no México em 2006, deu com os burros n’água. Esses dois exemplos mostram claramente que uma “nova política” não vai sair da cabeça de um pequeno grupo de iluminados, como parece ter acreditado Marina Silva, mas sim da ação conjunta de uma multidão disposta a reconstruir a vida política a partir de baixo, a partir da vida social.

 

O problema é que isso não se faz do dia para a noite, e até construirmos um poder popular suficientemente vigoroso, precisaremos de representantes que defendam nossas causas no Parlamento e combatam o avanço da direita. Por isso, acredito sinceramente que a urgente reorganização da esquerda passa pela criação de uma nova dinâmica entre a esquerda social e a esquerda partidária, de modo que ambas saibam respeitar as especificidades de cada uma, mas saibam, também, trabalhar juntas quando necessário.

 

Essa reorganização, portanto, implica na criação de uma ampla articulação que inclua desde os grupos anarquistas até o PSOL. Só assim, sem sectarismo e sem subordinação ao poder, será possível dar novos instrumentos de combate para a classe trabalhadora nesses tempos tão difíceis. Só assim, junho de 2013 será capaz de “ganhar as eleições”.

 

 

Bruno Fiuza é jornalista, historiador e mestrando em História Econômica na Universidade de São Paulo.

Originalmente publicado em http://www.revistaforum.com.br/rodrigovianna/plenos-poderes/jornadas-de-junho-eleicoes-e-onda-conservadora/

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Última atualização em Segunda, 27 de Outubro de 2014
 

A publicação deste texto é livre, desde que citada a fonte e o endereço eletrônico da página do Correio da Cidadania




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