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Declaração de não voto (3) Imprimir E-mail
Escrito por Henrique Júdice   
Quarta, 22 de Outubro de 2014
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Quem (e como) faz o jogo da direita


Este jornal e outros espaços têm registrado diversos pontos de vista sobre a melhor postura a adotar no 2º turno destas eleições presidenciais sob uma perspectiva de esquerda. Em favor do não-voto sob qualquer de suas formas (nulo, abstenção ou branco), os motivos apresentados são diversos a ponto de ser possível defender essa posição discordando de vários deles. Na defesa do voto em Dilma Rousseff, o argumento, em que pese a diversidade de seus adeptos, é basicamente um: evitar o mal maior, a vitória do PSDB, a volta do neoliberalismo.

 

Há quem creia nisso honestamente. Mas, nas mãos do PT e seus burocratas, essa exortação à responsabilidade é tão só uma quimera passível de uso para chantagear a esquerda crítica. Não é algo levado a sério nem, muito menos, praticado.

 

No Rio Grande do Sul, a candidata do conúbio entre a RBS e as oligarquias rurais e empresariais mais retrógradas (Ana Amélia Lemos) está fora do 2º turno, que será disputado entre o atual governador petista, Tarso Genro, e um candidato do PMDB, José Ivo Sartori. A chance de Tarso – isso está claro desde o fim do 1º turno – é nenhuma. E ele não fez um governo mais à esquerda nem mais decente do que seu adversário afigura-se capaz de fazer.

 

Ao contrário: Sartori, até aqui, não armou nenhuma emboscada para lideranças indígenas em luta por terra, convidando-as para uma reunião da qual saíram algemadas (1); não nomeou nenhum torturador para a chefia da Polícia Federal nem, ao que se sabe, para cargo algum (2); não tentou entregar os ativos financeiros do estado a um banco transnacional ligado à Opus Dei na bacia das almas (3); não descumpriu acintosamente uma lei que leva sua própria assinatura (4); não compactuou com quadrilhas para abafar assassinatos num presídio cujas condições valeram uma intervenção da Corte Interamericana de Direitos Humanos, nem tentou desqualificar o juiz que denunciou o encobrimento(5). Não foi em seu governo que a repressão policial se abateu sobre a Federação Anarquista (6), nem foi ele quem fez acordos com a indústria bélica israelense (7). Se fizer metade dessas coisas, seu governo terá sido sensivelmente menos ruim que o de Tarso, que fez todas.

 

Num 2º turno entre PT e PMDB, porém, a direita dura que Ana Amélia representava no 1º passa à condição de fiel da balança, com a maior parte de seus dirigentes e eleitores pendendo, por antipetismo visceral, para Sartori. Esse quadro recomendaria a retirada da candidatura de Tarso para evitar que forças retrógradas inicialmente derrotadas condicionem o próximo governo. O PT gaúcho, porém, se aferra a suas posições na estrutura estatal até o último alento e ainda sai a campo para disputar apoios no PP, PSDB etc. (8).

 

Obviamente, isso acaba tendo desdobramentos sobre a eleição presidencial: Sartori, que, em qualquer outro contexto, não teria por que fazer isso, declarou – ante a identificação entre as candidaturas de Tarso Genro e da sra. Rousseff – apoio a Aécio Neves.

 

Caberia perguntar, então, por que a esquerda não-remunerada deveria amoldar sua conduta à busca da reeleição de Dilma, se nem Tarso Genro o faz. Ainda mais considerando o importante papel do PT na ascensão desse personagem chamado Aécio Neves. E não me refiro apenas à manobra de destruir Marina Silva para tê-lo como adversário, que já seria suficientemente grave. Falo de uma década inteira de cumplicidade em Minas.

 

Em troca da omissão de Aécio nas campanhas presidenciais de Serra, Alckmin e novamente Serra, o PT lançou candidaturas pro forma ao governo mineiro em, respectivamente, 2002, 2006 e 2010. Nas eleições de 2008, para a prefeitura de Belo Horizonte, apoiou o candidato de Aécio, entregando-lhe a troco de nada uma cidade que, face às boas administrações realizadas ali pela coalizão PT-PSB entre 1992 e 2004, não a teria trocado pelo PSDB, se ambas facções não tivessem resolvido se tornar uma só. O artífice dessa transação espúria, Fernando Pimentel, foi premiado com um ministério pela senhora Rousseff. Eleito agora governador de Minas, anuncia que não fará nada para elegê-la.

 

Por que, então, a esquerda não petista deveria fazê-lo?

 

Por medo de Aécio? Se ele é um janota, um toxicômano, um sócio de traficantes e um projeto de ditador, como sustenta a campanha do PT a partir de informações que já circulavam em Minas durante todo o período em que foram aliados, mais uma razão para não votar em quem tão decisivo papel desempenhou em sua ascensão, inclusive ressuscitando-o quando já estava batido no 1º turno desta campanha presidencial. Quem o pariu que o embale.

 

Por que as consequências de sua eleição recairiam menos sobre o PT que sobre a população trabalhadora? E quais têm sido, para ela, os efeitos do governo da senhora Rousseff?

 

Para evitar uma guinada da sociedade e do espectro político à direita? Isso foi o que o PT produziu em 12 anos de governo, e especialmente nos últimos 4. As concessões de 2002 ao liberalismo econômico deságuam nas de 2010 ao conservadorismo religioso e nas de 2014 ao ruralismo. O PSDB dobra a aposta defendendo o encarceramento de adolescentes.

 

Essas são as notas trágicas deste processo eleitoral. A nota cômica é que, se Aécio for eleito, são enormes – pelo conteúdo programático de sua candidatura e por suas características pessoais – as chances de que faça um governo desastroso e termine por liquidar o PSDB enquanto opção real de poder. Do outro lado, a conjugação entre a mediocridade do governo de Dilma Rousseff e o cenário econômico que se avizinha causará, quase certamente, um dano irreparável ao PT e a suas chances de voltar a governar o Brasil depois de 2018. Mas ambos parecem demasiado cegos para perceber isso.

 

Sempre se pode perguntar para que servem a abstenção e o voto nulo, já que, de qualquer modo, um dos dois será eleito. Em muitas circunstâncias, para nada. A decadência avançada do sistema político-partidário; a restrição da escolha a duas candidaturas intragáveis; e, principalmente, o elevado número de pessoas que fizeram tais opções no 1º turno fazem com que este processo eleitoral de 2014 seja uma exceção. Abstenções, nulos e brancos somaram 38,7 milhões de eleitores, 4 milhões a mais que Aécio e 4,5 milhões a menos que Dilma. Manter ou aumentar esse número passa a quem for eleito uma mensagem mais clara e inequívoca do que votar no PT por taticismos.

 

Notas:

(1) http://www.cimi.org.br/site/pt-br/?system=news&action=read&id=7518

(2)http://www.fenapef.org.br/fenapef/noticia/imprimir/21932

(3)http://zh.clicrbs.com.br/rs/noticias/noticia/2013/07/tarso-genro-negocia-venda-da-divida-ativa-do-estado-4194064.html

(4)http://jcrs.uol.com.br/site/noticia.php?codn=122543

(5)http://zh.clicrbs.com.br/rs/noticias/noticia/2014/01/subsecretario-de-seguranca-critica-juiz-e-pede-provas-de-mortes-no-presidio-central-4391664.html

(6)http://batalhadavarzea.blogspot.com.br/2013/06/o-enredo-de-uma-farsa-tentativa-de.html

(7)http://operamundi.uol.com.br/conteudo/noticias/28624/apesar+de+criticas+tarso+genro+assina+convenio+com+empresa+militar+israelense.shtml

(8) http://www.sul21.com.br/jornal/20-prefeitos-do-pp-discordam-da-sigla-e-apoiam-tarso-pt/

 

Leia também:

Declaração de não-voto

Declaração de não-voto (2)

 

Henrique Júdice Magalhães é jornalista, ex-servidor do INSS e pesquisador independente em Seguridade Social. Porto Alegre (RS).

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Última atualização em Segunda, 27 de Outubro de 2014
 

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