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Alberto Besouchet, fuzilado pelos republicanos na Espanha Imprimir E-mail
Escrito por Angela Mendes de Almeida   
Terça, 21 de Outubro de 2014
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Por generosa iniciativa do deputado Adriano Diogo, a Comissão Estadual da Verdade realizou, em 24 de setembro, uma audiência pública para homenagear todos os combatentes brasileiros (1) na Guerra Civil Espanhola, em especial David Capistrano e Apolônio de Carvalho. Com isso, estabeleceu um laço de solidariedade entre a militância dos anos 1930 e a resistência à ditadura, quarenta anos depois.

 

Estava presente a filha de Capistrano, Carolina, que trouxe lembranças muito vívidas a respeito dos comentários de seu pai sobre sua participação na guerra e também sobre como ele, apesar de ações militares ousadas e corajosas, guardou para sempre um sentimento de rejeição à brutalidade de qualquer guerra. Isso teria sido um dos fatores a levá-lo a aceitar a linha chamada de “convivência pacífica”, adotada pelos partidos comunistas depois de 1956.

 

Como resistência ao fascismo franquista tem tudo a ver com a resistência à ditadura, lembrou ela a morte trágica de David Capistrano. Enquanto militante do PCB, voltava ao Brasil em 1974 e seria recebido pelo militante José Maçon na fronteira, em Uruguaiana. Desapareceram os dois. Sabe-se hoje que eles foram levados para a prisão clandestina conhecida como Casa de Petrópolis, onde tiveram o fim trágico dos torturados até a morte e esquartejados.

 

Apolônio de Carvalho, que, depois de participar da Guerra Civil Espanhola, integrou-se à Resistência francesa à ocupação dos nazistas durante a Segunda Guerra Mundial, teve a sorte de sobreviver e deixou suas lembranças em Vale a pena sonhar (2), um manancial de informações sobre um largo período da história do Brasil.

 

Como se tratava de história e de verdade, tive a oportunidade de falar, na audiência, sobre o caso pouco conhecido de Alberto Bomilcar Besouchet, militante comunista que lutou na Espanha, mas que foi fuzilado pelos próprios republicanos. O que significava enveredar por uma história não linear e maniqueísta, abordar, na luta heroica, suas contradições e aberrações, retraçar a linha que levou do pensamento único à repressão policial.

 

O deputado Adriano Diogo deu provas, nesta ocasião como em outras, que na coordenação da Comissão Estadual da Verdade norteou sempre as atividades com isenção da concepção de pensamento único, que seu esforço pelo restabelecimento da verdade histórica incluiu sempre as várias vertentes que lutaram contra o regime militar.

 

O cenário mundial

 

O objetivo deste texto é o de relatar o caso do militante Alberto Besouchet. Ele também era comunista e também foi combater a rebelião franquista na Espanha, em 1936. No entanto, morreu, ou melhor dito, desapareceu, pela ação de policiais republicanos, auxiliados por agentes do serviço secreto soviético e militantes do Partido Comunista Espanhol. Seu desaparecimento aconteceu durante as famosas “Jornadas de Maio” de 1937, em Barcelona, episódio que foi retratado no filme de Ken Loach, “Terra e Liberdade”, que por sua vez está, em grande parte, baseado nas memórias de guerra do escritor inglês George Orwell, Homenagem à Catalunha (3).

 

Para entender como isto foi possível é preciso inserir a Guerra Civil Espanhola no contexto mundial daquela época. É preciso entender como, dentro da guerra civil entre oficiais do Exército rebelados sob o comando do fascista Franco e as forças defensoras da República espanhola, houve outra guerra, movida por Stalin e seus agentes, contra toda e qualquer esquerda anti-stalinista. Na Espanha estas forças eram representadas pelos anarquistas da CNT-FAI (Confederación Nacional del Trabajo – Federación Anarquista Ibérica) e pelos poumistas, isto é, militantes do POUM (Partido Obrero de Unificación Marxista), genericamente chamados de “trotskistas”.

 

A Guerra Civil Espanhola marcou profundamente a história dos soviéticos e do movimento comunista internacional. A Espanha foi o cenário em que os comunistas aplicaram a nova linha da Internacional Comunista, decidida pelo 7º Congresso, em 1935, a da Frente Popular. No período anterior, entre 1928 e 1934, os comunistas tinham sido guiados por uma outra linha (6º Congresso), completamente diferente, que determinava que o inimigo principal a combater eram os socialdemocratas, isto é, os partidos socialistas europeus, considerados “traidores da classe operária”. Os documentos e os líderes comunistas internacionais e, sobretudo, alemães, já que nesse período a Alemanha era o palco central da luta, diziam que Hitler não era importante, que o nazismo era um fenômeno passageiro que iria se exaurir com as primeiras vitórias. A aproximação da militância comunista às milícias nazistas em construção foi uma realidade, sempre aprovada pela direção comunista internacional e acompanhada de perto pela política exterior da União Soviética.

 

O ponto culminante dessa frente informal, que escandalizou comunistas e progressistas de outros países, foi a posição assumida pelos comunistas alemães em 1931, em um momento de ascensão dos nazistas nas eleições, no caso do referendo da Prússia. Os socialdemocratas alemães dirigiam esta que era a maior e mais importante província da Alemanha desde o início da República de Weimar. Sentindo-se fortes, os nazistas propuseram uma votação pedindo a dissolução do Parlamento prussiano. Por ordem da Internacional Comunista, os comunistas alemães declararam o voto com os nazistas (4).

 

A calamidade desta política sectária, que tem enorme responsabilidade pela ascensão de Hitler ao poder na Alemanha, em 1933, levou a uma mudança radical de linha, no 7º Congresso, em 1935. De repente, na França, em maio 1934, o Humanité, jornal comunista, publicou um artigo retirado do Pravda que dizia com todas as letras ser admissível propor a unidade de ação aos dirigentes socialistas (5). Estava dado o sinal para a mudança radical de linha. Agora, com a Frente Popular, era preciso fazer frente não apenas com os partidos socialistas, mas também com os partidos burgueses radicais e republicanos. E foi o que aconteceu na Espanha (6).

 

Mas ao mesmo tempo em que se abria à direita, a Internacional Comunista enviesava seu sectarismo contra todos os grupos à sua esquerda. Agora o inimigo principal a combater eram os esquerdistas e, principalmente, os “trotskistas”, isto é, os militantes do movimento trotskista e todos os que fizessem críticas à União Soviética e à “linha do partido”. A luta interna dentro do partido comunista soviético transplantou-se para o movimento comunista internacional e para a Guerra Civil da Espanha.

 

Acontecimentos dramáticos permearam esta transplantação. Em dezembro de 1934, um alto dirigente do partido soviético, Kirov, foi misteriosamente assassinado. Este crime nunca foi completamente elucidado, embora o Relatório Kruschev, de 1956, fale insistentemente na responsabilidade do Estado (7). Mas foi o fator determinante para desencadear um expurgo generalizado dentro do partido soviético, com prisões, torturas, fuzilamentos com ou sem processo, condenações a trabalhos forçados e a exílio na Sibéria.  Esse processo chega a seu ápice exatamente nos anos da Guerra Civil Espanhola.

 

Em uma atmosfera de medo e terror, na qual a delação de companheiros e colegas de trabalho, nas famosas sessões de autocrítica, aparecia como uma prova de fidelidade ao regime, realizaram-se os chamados “Processos de Moscou”, nos quais foi exterminada a “velha guarda bolchevique”. O primeiro em agosto de 1936, o segundo em janeiro de 1937 e o terceiro em março de 1938, condenaram ao fuzilamento imediato, entre outros, Zinoviev, Kamenev, Piatakov, Bukharin e Rikov, tendo como acusado máximo Trotsky e seu filho Lev Sedov, que estavam fora da União Soviética. Foram vergonhosas paródias de justiça, processos-espetáculo, em que os condenados se acusaram de complôs impossíveis e inverossímeis, previamente escritos pelos agentes do NKVD, a polícia secreta soviética.

 

É dentro deste contexto que aconteceu também o processo secreto contra oito grandes generais do Exército Vermelho, entre eles Toukachevtsky e Yakir, fuzilados em junho de 1937, ao qual se seguiu um expurgo e consequente repressão aos quadros do Exército, muitos dos quais tinham estado na Espanha.

 

Mas essa repressão não se limitou aos membros do partido soviético, atingindo também massas de cidadãos. Segundo o historiador Nicolas Werth, “de agosto de 1937 a novembro de 1938, cerca de 760 mil cidadãos soviéticos foram executados depois de terem sido condenados à morte por um tribunal de exceção, ao cabo de uma paródia de julgamento. (...) Ao mesmo tempo, mais de 800 mil soviéticos eram condenados a penas de dez anos de trabalhos forçados e enviados ao Goulag” (8).

 

O cenário mundial dentro da guerra da Espanha

 

Agora o inimigo principal era a esquerda: os esquerdistas e os trotskistas. Mas não era mais uma perseguição apenas política e a Espanha foi um laboratório de extermínio da esquerda. Muitos chamados esquerdistas foram assassinados pelos serviços secretos soviéticos e desapareceram, como, por exemplo, o alemão Erwin Wolf, ex-secretário de Trotsky, Camillo Beneri e Fracesco Barbieri, anarquistas italianos, Marc Rein, jornalista socialdemocrata, e o austríaco Kurt Landau, do POUM, para só citar alguns. No início da guerra, o grande anarquista Buenaventura Durruti havia sido morto por uma bala perdida, em Madri, em 20 de novembro de 1936, bala que muitos atribuem aos comunistas.

 

Mas a repressão também atingiu muitos stalinistas que voltaram da Espanha e foram em seguida presos e fuzilados. Por exemplo, o general Berzine, o general Goriev, o jornalista do Pravda, Koltsov, personagem do livro de Hemingway, Por quem os sinos dobram, e Antonov-Ovsenko, herói da revolução, que havia comandado a tomada do Palácio de Inverno em 1917, cônsul geral soviético em Barcelona, e que tanto trabalhou na Espanha pela repressão à esquerda.

 

Os voluntários das Brigadas Internacionais, sob o clima de medo e delação reinante na URSS, também sofreram censuras, expurgos, castigos sob a forma de tarefas militares praticamente impossíveis, levando à morte, e execuções sumárias, que aparecem em muitos relatos. O comunista francês André Marty ficou com a fama de ser um dos mais brutais. Ele é descrito no romance já citado de Hemingway como “el carnicero de Albacete”, cidade sede das Brigadas. No entanto, outras narrativas, mais detalhadas, evocam o regime de terror implantado pelo “General Gómez”, na verdade Wilhelm Zaisser, ex-membro do serviço secreto do Partido Comunista Alemão e que depois da guerra dirigiu a “Stasi”, polícia política da RDA (República Democrática Alemã - 9).

 

Esse clima transparece até em algumas frases dos brigadistas brasileiros que voltaram. Quando entrevistados pelo pesquisador brasileiro Paulo Roberto de Almeida sobre o destino de Alberto Besouchet, Gay da Cunha declarou que ele teria sido fuzilado por André Marty, enquanto para explicar um fuzilamento conduzido pelos republicanos José Homem Correia de Sá disse: “Havia muita incompreensão e ser fuzilado não denigre ninguém” (10).

 

As “jornadas de maio” e a morte de Andrés Nin

 

A operação que deu lugar ao episódio das “Jornadas de maio” na Catalunha foi concebida dentro da ideia de liquidar a esquerda - os “trotskistas” e os “incontroláveis” isto é, os anarquistas. O Pravda já anunciara, em dezembro de 1936, essa liquidação (11).

 

Era nessa província que os andaimes de uma estrutura socialista tinham avançado mais. Os líderes do movimento sindical e operário eram os anarquistas da CNT-FAI e o POUM. O prédio da Central Telefônica, em Barcelona, estava ocupado pelos sindicatos UGT (socialistas) e CNT, desde o início da guerra, juntamente a uma delegação do governo da Catalunha, a Generalitat.

 

Em 3 de maio de 1937, esse prédio foi atacado por guardas de assalto chefiados por Rodrigues Sala, que era Comissário da Ordem Pública e comunista. Houve resistência e um pequeno tiroteio. Em seguida, espontaneamente, em cerca de poucas horas, a região em torno, em um círculo que atravessava a cidade, foi tomada por operários e milicianos ligados aos anarquistas e aos poumistas. A população trabalhadora mobilizada queria resistir e conservar a posse do prédio. Começaram as escaramuças, narradas no filme de Ken Loach, e depois o combate violento. O serviço secreto russo, o NKVD, junto com comunistas espanhóis, organizava o ataque. Depois de tentar uma reconciliação entre as duas partes, as forças políticas do governo central, chefiadas pelo socialista Largo Caballero e com ministros comunistas, enviaram tropas e a repressão começou. Cerca de 1.000 pessoas foram feridas e 500 foram mortas. Além disso, houve muitos presos. A Telefônica foi desocupada (12).

 

Começou então a perseguição direta aos militantes do POUM e, em especial, a seu dirigente mais importante, Andrés NIn. Os soviéticos o conheciam bem. Em 1921, ele tinha sido eleito delegado da CNT para assistir ao 3º Congresso da Internacional Comunista e ao congresso de fundação da PROFINTER (Internacional Sindical Vermelha) em Moscou. Permaneceu nesse país trabalhando nesses organismos. Em 1926, aderiu à “Oposição de Esquerda” dentro do partido soviético, liderada por Trotsky. Só deixou o país para voltar à Espanha com a proclamação da República, em 1930.

 

A perseguição stalinista aos poumistas e a Nin foi estruturada pelo NKVD. Um dos seus principais agentes na Espanha, Orlov, conforme documentos já decifrados nos arquivos russos sobre a “Operação Nikolai”, confeccionou um documento falso que provaria que Nin agia em conluio com os franquistas (13). A ideia era fazer um “processo de Moscou” na Espanha contra um “complô POUM-franquistas”. Andrés Nin foi preso em junho e depois sequestrado da prisão oficial de Alcalá de Henares, perto de Madri.  Foi levado para uma das prisões clandestinas dos agentes soviéticos, chamadas “tchecas”. Torturado para confessar o script do documento falso, não confessou. Não se sabe como foi a tortura que levou à sua morte, mas o relatório de Orlov a Moscou, decifrado pelo filme já citado, encomendado pela Generalitat da Catalunha à Televisão Espanhola, indica os autores da operação e da morte: três espanhóis cujos nomes estão riscados, Orlov e dois outros agentes soviéticos sobre cuja identidade verdadeira se discute ainda. Cobrados publica e até internacionalmente, os comunistas alegaram que ele teria sido sequestrado de Alcalá por franquistas, seus aliados. Coube ao jornalista do Pravda, Koltsov, depois fuzilado, redigir esta explicação (14).

 

Desaparecimento e morte de Alberto Besouchet


A morte do brasileiro Alberto Besouchet se encaixa neste cenário. As referências à sua história são ainda hoje poucas e esparsas. Há o artigo do diplomata Paulo Roberto de Almeida (15), publicado em 1999, e que foi a base da audiência pública a que me referi no início. Trabalho de historiador, dedicado a retraçar a trajetória de todos os voluntários brasileiros na Guerra Civil Espanhola, ele constitui em si mesmo um capítulo sobre a censura na ditadura brasileira, já que sua primeira versão, concluída em 1979, teve de ser publicada sob o pseudônimo de Pedro Rodrigues, pois o tema era perigoso no Itamaraty. Paulo Roberto de Almeida pôde entrevistar vários combatentes ainda vivos e o irmão de Alberto Besouchet, Augusto. Referindo-se no início do artigo ao caso do seu desaparecimento como “o mistério dos mistérios”, ele retoma tudo que conseguiu averiguar entre as testemunhas que puderam contar alguma coisa (16).

 

O artigo do historiador Dainis Karepovs (17), escrito em 2006, pôde avançar mais na medida em que inseriu o desaparecimento de Alberto Besouchet no clima de medo e delação que cercou os anos 1936, 1937 e 1938 na URSS e na campanha dos agentes do NKVD pela liquidação do POUM. Utilizando documentos do agrupamento trotskista Liga Comunista Internacionalista, pôde entrar melhor na alma da luta que se travava.

 

É baseado nestes dois autores, principalmente no segundo, e também em algumas referências feitas por Apolônio de Carvalho em suas memórias (18), que consegui recuperar os elementos básicos da trajetória de Alberto Besouchet. Ele era filho de militar e optou pela carreira do pai. Era também militante do Partido Comunista Brasileiro, como seus irmãos, Augusto, Lídia e Marino. Como tenente, participou do levante comunista de 1935, em Recife e, embora ferido, não foi preso.

 

Voltou ao Rio de Janeiro e contatou seus irmãos que, entretanto, tinham sido expulsos do Partido por terem criticado a forma com que foi feito o levante de 1935, julgando-a irresponsável. Posteriormente haviam entrado em contato com a Liga Comunista Internacionalista. Eles tentaram ganhar o irmão para suas novas posições, mas não conseguiram. Em vez disso, Alberto Besouchet decidiu partir para a Espanha para colocar a serviço do povo espanhol seus conhecimentos militares. E não saiu do Partido.

 

No entanto, antes de viajar, escreveu uma carta aberta aos companheiros, entregando-a à direção, pedindo que a divulgasse, na qual conclamava todos, inclusive os presos, a persistirem na luta por “um regime mais justo e humano”. A carta não foi divulgada, mas, sim, respondida com termos grosseiros. Ele havia usado as expressões “Espanha soviética”, “Revolução proletária mundial” e “burguesia internacional”, que a direção considerou “esquerdistas”. Além do mais, já tinha os irmãos fora do Partido (19).

 

As fontes concordam em que ele foi o primeiro brasileiro a chegar à Espanha para lutar. Teve contatos com comunistas brasileiros na França, caminho para chegar ao território espanhol, onde entrou em fevereiro de 1937. As fontes dizem também que levava uma carta de Mário Pedrosa para Andrés Nin. Não está claro se integrou as Brigadas ou as milícias do POUM. Foi ferido em Guadalajara, quando já tinha o posto de coronel.

 

Sobre o seu desaparecimento e morte as informações são esparsas. Na documentação sobre os brasileiros na Espanha, contida nos arquivos russos da Internacional Comunista, há apenas, em um relatório assinado por um nome não identificado, a reprodução de uma informação do major Costa Leite, comunista e militar mais graduado a ir para a Espanha, de que Besouchet, além de ter tido relações com os trotskistas, teria sido morto nos acontecimentos de maio de 1937, na Espanha. Mas a família Besouchet recebeu a informação de que ele teria sido fuzilado durante a retirada final das Brigadas Internacionais, de Barcelona, em 1938, juntamente com anarquistas e trotskistas ali presos (20).

 

Estes retalhos de narrativas se encaixam com as breves palavras de Apolônio de Carvalho: “O tenente Alberto Besouchet, que eu conhecia de Realengo, foi o primeiro de nós a chegar à Espanha, ainda mal curado dos ferimentos infligidos em Recife, quando do levante de novembro. (...) Ascende a coronel em maio de 1937, momento de crise aguda no seio das esquerdas, e logo depois é preso como militante do partido de Andrés Nin. Fins de 1938, com os franquistas às portas de Barcelona, Besouchet é assassinado covardemente. Nada poderá apagar, contudo, a imagem desse comunista culto, modesto e bravo como poucos” (21).

 

É assassinado covardemente por quem? Obviamente por aqueles que detinham os presos do POUM. Lembrando que a queda da Central Telefônica durante as “jornadas de maio” de 1937 e a repressão que se seguiu a ela levaram à prisão muitos militantes do POUM, é forçoso deduzir que foi nesta situação que a morte o colheu. Lembrando ainda que Julián Gorkin, o segundo mais importante dirigente do POUM, relata que foi preso nessa época e, com outros poumistas, carregado de “tcheca” em “tcheca” durante 18 meses, até que, com a queda de Barcelona nas mãos dos franquistas, conseguiu fugir (22).

 

Notas:

(1) No folder distribuído com informações históricas está a lista de seus nomes: Alberto Bomilcar Besouchet, David Capistrano, Apolônio de Carvalho, Joaquim Silveira dos Santos, José Homem Correia de Sá, Eneas Jorge de Andrade, Nelson de Souza Alves, Roberto Morena, Dinarco Reis, Delcy Silveira, Eny Antonio Silveira, Nemo Canabarro Lucas, José Gay da Cunha, Hermenegildo de Assis Brasil, Carlos da Costa Leite, Homero de Castro Jobim.

(2) Apolônio de Carvalho, Vale a pena sonhar. Rio de Janeiro, Rocco, 1997.

(3) George Orwell, Lutando na Espanha – Homenagem à Catalunha. São Paulo, Ed. Globo, 2006

(4) Angela Mendes de Almeida, A República de Weimar e a ascensão do nazismo. São Paulo, Brasiliense, 1982, p. 108.

(5) Fernando Claudín, La crisis del movimiento comunista – De la Komintern al Kominform. Francia, Ruedo Iberico, 1970, p. 137.

(6) Angela Mendes de Almeida, Revolução e guerra civil na Espanha. São Paulo, Brasiliense, 1981.

(7) A. Rossi, Autopsie du stalinisme – Avec le texte intégral du Rapport Khrouchtchev. Paris, Ed. Pierre Horay, 1957.

(8) Nicolas Werth, L’ivrogne e la marchande de fleurs – Autopsie d’um meurtre de masse – 1937-1938, p. 16.

(9) Sigmunt Stein, Ma guerre d’Espagne. Paris, Seuil, 2012, pp. 209 e ss.; e Pierre Broué, Staline et la révolution – Le cas espagnol. Paris, Fayard, 1993, p. 359.

(10) Cf. Paulo Roberto de Almeida, “Brasileiros na guerra civil espanhola”, Revista Sociologia e Política, nº 12, jun. 1999, p. 50. http://www.scielo.br/pdf/rsocp/n12/n12a03

(11) Julián Gorkin, Las jornadas de mayo en Barcelona, http://www.fundanin.org/gorkin8.htm;

(12) Julián Gorkin, ibid.

(13) Filme de Llibert Ferri e Dolores Genovés, Operación Nikolai – http://www.youtube.com/watch?v=zLAfmtlCgTU; e Pavel Sudoplatov et Anatoli Sudoplatov, Missions Speciales – Mémoires du maître-espion soviétique Pavel Sudoplatov. Paris, Seuil, 1994, p. 76. Ao final da guerra, Orlov foi convocado para voltar a Espanha e, temendo ser fuzilado, desertou, fugindo para os Estados Unidos. Escreveu diretamente a Stalin, prometendo que nada falaria se não tocassem em sua velha mãe. E assim fez, só escrevendo memórias depois da morte do ditador.

(14) Julián Gorkin, já citado; Pierre Broué, Staline et la révolution – Le cas espagnol. Paris, Fayard, 1993, p. 183.

(15) Paulo Roberto de Almeida, op. cit.

(16) Op. cit., pp. 37-38 e 49-50.

(17) Dainis Karepovs, “O caso Besouchet, ou o lado brasileiro dos processos de Moscou pelo mundo”, Olho da História, 8/12/2006 - http://oolhodahistoria.org/artigos/ESPANHA-o%20caso%20besouchet-dainis%20karepov.pdf

(18) Apolônio de Carvalho, op. cit.

(19)Todas estas informações estão em D. Karepovs, op. cit.

(20) Cf. D. Karepovs, op. cit.

(21) Apolônio de Carvalho, op. cit., p. 125.

(22) Julián Gorkin, L’assassinat de Trotsky. Paris, Julliard, 1970, p.8.

 

Angela Mendes de Almeida é historiadora e coordenadora do site Observatório das Violências Policiais.

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Última atualização em Sexta, 24 de Outubro de 2014
 

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