O voto

 

 

 

Dilma e Aécio querem muito seu voto. O voto no Brasil é um cheque em branco, em que o beneficiado passa quatro anos usufruindo da ação do eleitor. Poderia ser diferente se, no meio do período, existisse uma nova votação para validar ou não a continuação do mandato, o chamado “recall”. Há anos, o professor Fabio Konder Comparato propôs esta validação, existente em outros países, como forma do político se tornar mais fiel ao seu discurso.

 

Muitas pessoas pensam que o eleito terá que corresponder à confiança nele depositada, senão não irá receber de novo aquele voto. Ledo engano, pois o eleitor comumente não se lembra das promessas do candidato, que o sensibilizaram, quando não ocorre de ele não se lembrar do candidato em quem votou. Por isso, vários congressistas ineficientes e corruptos são frequentemente reeleitos. Antecipando uma conclusão, muitos dos nossos eleitores são infelizmente pouco politizados e, portanto, não dão o valor que uma eleição como esta tem.

 

Neste momento, os candidatos buscam ganhar a sua aceitação, mas o eleitor define seu voto considerando diversos fatores e alguns deles só são processados no subconsciente. Um dos mais citados argumentos de convencimento usados hoje para escolha do candidato é a necessidade de alternância no poder. Este critério, usado à exaustão pela oposição que não tem conseguido chegar ao poder pelo voto, não resiste a uma mínima análise. Por exemplo: que louco decide largar a família simplesmente porque há necessidade de fazer uma alternância de família? O membro da família pode largá-la quando o relacionamento traz mais infelicidade que felicidade para os envolvidos.

 

Outra argumentação usada por engabeladores é o novo ser sempre melhor que o antigo. A racionalidade recomenda considerar a possibilidade de o novo ser bom ou ruim, assim como o antigo também. Para exemplificar, lembro-me de Fernando Collor quando se candidatou a presidente.  O argumento da modernidade durante a campanha era muito usado. Eleito, fez o governo que fez e, assim, tivemos uma modernidade péssima. Entrando em uma seara em que não sou especialista, será que alguns políticos não estariam querendo atuar sob a psique humana, principalmente a dos jovens, que crêem haver necessidade de os velhos saírem de cena para o crescimento da sua geração?

 

A corrupção denunciada atualmente por toda mídia comercial, que pertence ao capital e é grande aliada dos candidatos conservadores, deve ser totalmente averiguada, levada à Justiça e os culpados punidos. No entanto, é preciso ser honesto e desprendido de paixões para concordar que, se esta mídia é aliada política do grupo que é a oposição e quer chegar ao poder, ela irá denunciar os mínimos sinais de corrupção no atual governo e procurará conseguir o máximo de repercussão com estas denúncias. E, na época em que seus aliados estiverem no poder, o mesmo tratamento não ocorrerá. Infelizmente, a dura verdade é que não temos uma mídia comercial honesta.

 

O voto é conquistado por argumentações lógicas, pela escolha de bandeiras que sensibilizem o eleitor, mas também através da credibilidade transmitida na exposição dos argumentos e bandeiras. E dependendo da importância dada pelo eleitor à credibilidade, ela pode ser decisiva. Assim, um candidato ganha tanto mais adesões, quanto melhores são suas propostas e argumentações, e quanto mais crível ele demonstra ser. É óbvio que quem tem facilidade de expressão e sabe representar bem tem enorme vantagem. Não é por outra razão que grandes atores têm sucesso também na carreira política. Muitas vezes, não se precisa estar acreditando no que se fala, basta estar atuando bem.

 

A motivação do candidato a favor da coletividade ou apenas a um pequeno grupo é definidor do voto para muitos eleitores. Aliás, deveria ser um dos mais importantes critérios para definição do voto, pois aquele com interesse coletivo tende a ser um ótimo representante do povo. O grande problema é que alguns candidatos camuflam suas intenções, passando a ser difícil saber quais são as de interesse coletivo e as que irão beneficiar prioritariamente grupos de interesse da sociedade. Candidatos que pregam que a livre iniciativa consegue resolver os problemas sociais; que o grande problema da nossa sociedade é o custo Brasil e a carga de impostos; que o assistencialismo, mesmo para aqueles em situação de desespero, é reprovável; e que o Estado deve abrir mão indiscriminadamente de suas empresas, tornando-se o mínimo possível, além de outras teses neoliberais, é com certeza um candidato do poder econômico e de pensamento não coletivo.

 

Sugiro ao eleitor saber com detalhe o passado de cada candidato, os grupos aos quais pertenceu, como se comportou nestes grupos, como administrou algum órgão público, se foi o caso. Assim, o eleitor começará a ter uma idéia de como será o governo do candidato. O PT e o PSDB já detiveram a Presidência da República e, nestes períodos, existiram erros e acertos. Cabe ao eleitor avaliar quais acertos de cada candidato foram mais valiosos para a sociedade e quais erros foram mais penosos. Como a diversidade humana é rica, analogamente aos candidatos, existem eleitores com posições que miram atingir a coletividade e outros que objetivam só atingir interesses próprios ou de grupos aos quais estão relacionados. Estes últimos têm esperança de acumular muita riqueza, e as teses neoliberais são as regras mais propícias ao atingimento do acúmulo desejado, sem se importarem com o fato de que será necessário enganar seu semelhante e, também, de que poucos irão conseguir. Mesmo assim, o discurso neoliberal os atrai muito.

 

A racionalidade nos levaria a crer que as regiões mais carentes tenderiam a eleger os candidatos com posições mais coletivas. Em grande parte, isto tem ocorrido e, quando não ocorre, é por influencia da mídia comercial, que traveste os acontecimentos. Só com esta mídia não há liberdade de imprensa, pois o oligopólio que a compõe cerceia esta liberdade. Este fato permite compreender por que a classe média, que contém a parte da classe pobre que ascendeu, graças ao PT, declara maior intenção de voto ao Aécio.

 

Alguns partidos de esquerda focam em um mundo ideal e eu admiro o esmero dedicado à arquitetura da sociedade. Contudo, devido aos dois candidatos não representarem caminhos seguros para este mundo puro, eles recomendam voto nulo no segundo turno. Como a minha sobrevida não permitirá, em hipótese alguma, conhecer este mundo, porque irá demorar muito para a sociedade humana estar preparada para conquistá-lo, não recomendo o voto nulo ou em branco. Estes partidos deveriam, pelo menos, recomendar o voto nulo, em branco ou em Dilma.

 

Em outras palavras, o voto não deve ser dado ao Aécio em hipótese alguma, como declarou o Psol. Isto porque Dilma e Aécio não podem ser colocados no mesmo patamar, por inúmeras razões. Eu gosto mais destas: em respeito aos empregos gerados, ao aumento real do salário mínimo e do salário médio dos trabalhadores, à mobilidade social promovida e às vagas na educação superior criadas pelos governos do PT.

 

Paulo Metri é conselheiro do Clube de Engenharia e colunista do Correio da Cidadania.

Blog do autor: http://paulometri.blogspot.com.br

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