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Não declares que as estrelas estão mortas só porque o céu está nublado Imprimir E-mail
Escrito por Valerio Arcary   
Sexta, 10 de Outubro de 2014
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Saber não ter ilusões é absolutamente necessário para se poder ter sonhos.
Fernando Pessoa

Nada é mais fácil do que se iludir, pois todo o homem acredita que aquilo que deseja seja também verdadeiro.
Demóstenes


Construímos estátuas de neve e choramos ao ver que derretem.
Walter Scott


Escrevo este artigo como uma declaração de voto. Pouco mais de quinze dias nos separam do segundo turno das eleições presidenciais de 2014. Pela quinta vez, desde o fim da ditadura, haverá um segundo turno, entre um candidato do PT e um candidato de um partido orgânico do capital.

 

A campanha pelo voto útil em Dilma Rousseff aumenta de intensidade sobre os militantes e eleitores da esquerda anticapitalista. Sob a pressão de uma eleição ainda muito apertada e incerta, a direção do PT abraçou um discurso catastrofista que quer apresentar a disputa entre Aécio e Dilma como um armagedon político.

 

Pergunta direta aos petistas de esquerda: Dilma sinalizou algum interesse em discutir com a oposição de esquerda e seus quase dois milhões de votos? Dilma sinalizou a disposição de mudar de rumos, e romper com o PMDB de Michel Temer, José Sarney e Renan Calheiros? Dilma sinalizou que iria governar apoiada na mobilização da maioria explorada e oprimida, e não nos deputados das bancadas ruralista, evangélica e, sobretudo, nos representantes de empreiteiras e bancos que são a maioria do Congresso Nacional?

 

Se houvesse uma minúscula possibilidade de que, em um quarto mandato do PT, Dilma estivesse disposta a fazer uma reforma fiscal com impostos rigorosos sobre as grandes fortunas, manifestasse a intenção de romper com as chantagens do rentismo e, apoiada na mobilização dos trabalhadores, realizar uma auditoria e suspensão do pagamento da dívida pública. Se estivesse comprometida em garantir um aumento de verdade no salário mínimo, ou uma política de combate à privatização da educação, da saúde, do transporte urbano e da segurança. Se houvesse uma mínima possibilidade de que Dilma tomasse a iniciativa pela legalização do aborto, pela criminalização da homofobia, pela legalização do consumo de psicotrópicos. Se Dilma anunciasse a retirada das tropas do Haiti. Ou seja, se fosse possível, minimamente, uma mudança de estratégia... Convido meus amigos a admitir que estas são propostas plausíveis e razoáveis. Mas não há chance alguma.

 

A credulidade na vida não é, necessariamente, um defeito grave. O benefício da dúvida em relação aos outros, ou seja, alguma inocência nas relações humanas é uma forma de levar a vida com mais leveza. Mas, na política, a ingenuidade é fatal.  Não é verdade que a única forma de lutar contra Aécio é colocando o voto na urna para Dilma.

 

Dilma não corre o risco de ser derrotada pela posição de anulação do voto da oposição de esquerda. Dilma corre o risco de ser derrotada por si mesma, ou melhor, pelo que fez, e por aquilo que o PT não fez nos últimos quatro anos.

 

Não nos enganemos. A verdade nua e crua é que há vários pontos de contato entre o programa que ele representa e o programa de Dilma. Quais? Um exemplo? Voltamos a ter, em 2014, uma das maiores taxas de juros básicas do mundo, a exigência nº 1 dos rentistas. Não satisfeitos, Mantega, ministro do governo Dilma, e o Banco Central dirigido por Tombini, aquele que não é independente, mas tem autonomia, vêm sinalizando que estão dispostos a fazer um ajuste fiscal anti-inflacionário com redução de gastos, e superávit fiscal ainda maior. Derrotar o programa de ajuste que o capital exige só será possível, portanto, com a resistência que precisará ser construída em 2015 nas ruas.

 

O alarmismo quer nos fazer crer que Aécio seria do mal, Dilma seria do bem. Ai de nós, se não votarmos no mal menor. Essa campanha de dramatização não é educativa. O apelo emocional ao voto é muito eficaz, mas diminui o significado da disputa política. Sempre que há um segundo turno, de dois em dois anos, seguindo o ritmo do calendário eleitoral, que não devia ser sinônimo de democracia, assistimos a este espetáculo bizarro, cuidadosamente encenado, em que se cria um clima político irracional, em que a esquerda é convidada a regredir a uma infantilização política.

 

Que os partidos burgueses usem, contra o PT e Dilma, todos os recursos da manipulação emocional mais demagógica não devia ser o bastante para que a direção do PT e seus aliados façam o mesmo.

 

Aécio é, evidentemente, um candidato que provoca mal-estar, ou até ira e fúria em qualquer um que tenha compromisso com a luta pela igualdade social, que é o que define uma identidade de esquerda. Pelo que é, e pelo que representa. Merece o justo ódio de classe de todos os trabalhadores e jovens. Muito especialmente, os que tiveram a pouca sorte de ter que aturá-lo como governador em Minas Gerais. Aécio esconde o pacote de maldades que traz no bolso, e que é o sonho de consumo dos setores mais retrógados do capitalismo brasileiro. Quais seriam suas primeiras medidas de governo? Ajuste nos preços dos derivados do petróleo e álcool? Austeridade nas contas públicas e arrocho para o funcionalismo federal? Nova política para o salário mínimo, com reajustes ainda menores? Flexibilização trabalhista, com revisão dos poucos direitos presentes na CLT? Nova reforma da previdência reacionária, com introdução de idade mínima, de 60 ou 65 anos, além dos 35 anos de carteira assinada? Mais terceirizações? Inclusive no serviço público? E por que não, uma nova onda de privatizações? Um horror.

 

Merece, portanto, ser combatido. Não há por que ter medo das palavras: impiedosamente. Devemos todos denunciá-lo. A mão não deve tremer. Mas, para aqueles que lutamos contra a injustiça, não vale tudo. É preciso saber lutar, mas sempre com grandeza. A crítica deve ser política, demonstrando quais são os interesses de classe que ele defende. Uma linha de argumentação de classe que revele o lugar de Aécio, como porta-voz das reivindicações do capital: por isso a exigência de menos impostos e o silêncio diante da proposta de taxação das grandes fortunas. Devemos dialogar com nossos colegas de trabalho, em especial aqueles que, por fadiga e cansaço com os governos de colaboração de classes liderados pelo PT, podem estar inclinados a votar nele. Para tentar convencê-los do perigo que significaria uma vitória do PSDB.

 

Uma análise marxista abraça um método menos emocional que o alarmismo: é uma interpretação da realidade orientada por um critério de classe. Muitas vezes na história, os governos dos partidos reformistas com eleitorado entre os trabalhadores foram mais úteis para a defesa da ordem que os partidos da própria burguesia: protegiam o capitalismo dos capitalistas. Esse foi o papel lamentável dos governos liderados pelo PT nos últimos doze anos. Por isso Lula se transformou em uma coqueluche mundial em Davos, e recebeu o apoio dos governos mais reacionários do planeta. Porque foi o governo que garantiu a estabilidade social no país que foi, nos anos oitenta, o campeão mundial de horas de greve.

 

Os marxistas não indicam nunca a escolha do carrasco menos cruel.
Em 1989, os militantes que se organizavam em uma das correntes que constituiu o PSTU, a Convergência Socialista, chamaram a votar em Lula, e o fizeram novamente em 2002. Era outro contexto. O PT ainda não havia chegado ao poder.

 

Votamos em Lula em 1989, e em 2002, apesar de nossa discordância do programa do PT, porque a maioria dos trabalhadores confiava em Lula e não queríamos ser um obstáculo à sua eleição. Não tínhamos qualquer ilusão em um governo do PT, mas acompanhamos no voto, e somente no voto, a vontade do movimento da classe trabalhadora de levar Lula ao poder, depois de uma espera de vinte anos, alertando que estavam iludidos aqueles que tinham esperança que o governo iria romper com o programa neoliberal de ajuste dos governos de Fernando Henrique.

 

Depois de doze anos, nossa responsabilidade nos impede esse voto. Porque doze anos é um intervalo histórico significativo. Lula não só não rompeu com o modelo neoliberal, como o PT manteve durante mais de uma década o tripé macroeconômico intacto. Pequenas variações nas taxas de juros durante dezoito meses não foram uma mudança de rumos, como ficou claro no início de 2013, e Mantega deixou claro em quem prestou atenção. O capitalismo brasileiro não tem por que temer o PT.

 

Não terá sido por isso que a arrecadação de Dilma entre as grandes corporações foi até maior do que a de Aécio? Alguém minimamente informado ainda pode acreditar que esta eleição é uma disputa entre o capital de um lado e o trabalho do outro? Não são dois projetos de gestão do capitalismo, ainda que com diferenças de ênfase?

 

E agora, como em 2010, por que não votaremos em Dilma, se a maioria do movimento organizado dos trabalhadores deseja derrotar Aécio? Porque nos últimos doze anos o PT governou o Brasil a serviço do capitalismo. Uma parcela mais consciente dos trabalhadores sabe, também, que Lula e Dilma governaram ao serviço dos banqueiros, mas acham que não era possível uma política de ruptura. Os trabalhadores e a juventude, em situações políticas de estabilidade da dominação capitalista, não têm expectativas elevadas, ou seja, não acreditam senão em reformas nos limites da ordem existente. Não acreditam que é possível, porque perderam a confiança em si mesmos, portanto, na força de sua união e de sua luta.

 

O papel dos socialistas não pode ser o de reforçar essa prostração político-social, mas, ao contrário, o de incendiar os ânimos, inflamar a esperança, e combater a perigosa ilusão de que é possível regular o capitalismo. A história vem demonstrando de maneira trágica que não é possível. Os mercados não aceitam ser limitados pela via da negociação.

 

Quem decidir indicar o voto em Dilma, mesmo que na forma mais elegante de voto crítico, ou seja, com a mão no nariz, para derrotar Aécio, deve se perguntar como vai se sentir quando for anunciado o primeiro pacote de ajuste fiscal em 2015. Vai se arrepender e, infelizmente, se desmoralizar. A desmoralização tem um custo alto para a esquerda. Ela é o pântano que alimenta a decepção de que não há saída coletiva, porque, afinal, “todos seriam iguais”. Ela é o combustível do “cada um por si, todos contra todos”.

 

A tarefa daqueles que defendem o programa socialista consiste em demonstrar para os trabalhadores que era e é possível ir além. Era e continua sendo possível desafiar a ordem do capital. Às vezes, infelizmente, muitas vezes, é preciso ter a firmeza de nadar contra a corrente. Para defender uma posição firme e simples: nenhuma ilusão ou confiança no governo. Voto nulo.

 

 

Valerio Arcary é professor titular no IFSP – Página na web: http://marxismo21.org/wp-content/uploads/2014/09/Val%C3%A9rio-Arcary-dossie.pdf

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Última atualização em Terça, 14 de Outubro de 2014
 

A publicação deste texto é livre, desde que citada a fonte e o endereço eletrônico da página do Correio da Cidadania




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