Iêmen: nova crise pintando

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No domingo, 22 de setembro, as forças do movimento Houthis  entraram em Sanaa, a capital do Iêmen.

 

Eles haviam antes assumido o controle do norte do país, depois de, em seis anos de lutas, derrotarem seus rivais sunitas, apoiados pelos governos iemenita e saudita.

 

Xiitas, os Houthis há muito reclamavam que o governo do Iêmen aplicava, em sua região, muito menos do que arrecadava nela.

 

Penetrando em Sanaa, os Houthis tomaram quase sem resistência a maioria dos edifícios públicos da cidade, inclusive os postos de controle do aeroporto, obrigando a suspensão dos vôos Um Iêmen sob os Houthis poderia ser mais um az nas mãos de Teerã no jogo pelo poder no Oriente Médio.

 

De outro lado, esse movimento é um precioso aliado na luta contra a al Qaeda, pois a  vem combatendo ferozmente.

 

Isso pesa muito para Obama.

 

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Enquanto alguns oficiais superiores fugiram, a maioria do exército oficial declarou-se neutra.

 

E o primeiro-ministro Basingdawa renunciou atirando, com duras acusações ao presidente Hadi, retratado como um autocrata.

 

Foi por governar autocraticamente o Iêmen durante 30 anos que Saleh, o antecessor de Hadi, foi tirado do poder.

 

Em 2011, no embalo da Primavera Árabe, estudantes e outros ativistas promoveram grandes manifestações, protestando contra o desemprego de 35%. E exigindo a queda de Saleh, tido como corrupto, violento e indiferente aos sofrimentos da população pobre.

 

O presidente reagiu, mandando sua polícia fazer o que as polícias das ditaduras costumam fazer em situações assim: espancamentos, prisões arbitrárias e torturas.

 

Temendo que o conflito pudesse resultar num regime nacionalista e revolucionário, os países do Golfo Pérsico, liderados pela Arábia Saudita, promoveram um acordo entre partidários de Saleh, partidos de oposição e os manifestantes das ruas.

 

Saleh concordou em sair, desde que não o processassem, e os representantes dos países do Golfo, assessorados pelos  EUA, propuseram um governo de transição para a democracia.

 

Para agradar aos ativistas da Primavera Árabe, procedeu-se à eleição do novo presidente.

 

Não se pode dizer que foi rigorosamente democrática, pois, por razões misteriosas, só havia um candidato: o general Hadi, ex-vice presidente no governo Saleh.

 

Não deu muito certo.

 

Além das hostilidades com os Houthis no norte, provavelmente apoiados pelo Irã, e a al Qaeda em todo o país, Hadi precisou encarar a catastrófica situação social e econômica do Iêmen, legado do governo Saleh.

 

O Iêmen é o país mais pobre do mudo árabe e o segundo no mundo em desnutrição crônica.

 

Na desorganização que se seguiu à mudança de regime, houve uma grande diminuição da atividade econômica, que causou a elevação dos preços dos alimentos e commodities básicos.

 

Para sobreviver, a população mais pobre teve de vender seus poucos bens, inclusive gado que poderia ser uma fonte de rendimentos futuros.

 

Em 2014, o país mergulhou numa grave crise financeira.

 

Decidiu-se então cortar subsídios, em julho deste ano. Medida considerada essencial num programa para o desbloqueio de fundos estrangeiros e redução da pressão sobre o orçamento, cujos déficits cresciam assustadoramente desde 2011.

 

Ora, eram os subsídios dos combustíveis que impediam a elevação dos preços de transporte, água e alimentação.

 

Sem eles, os preços da gasolina aumentaram  60% e do diesel, 90%, onerando especialmente a população pobre.

 

Os compromissos de protegê-la, ampliando os benefícios sociais, não foram cumpridos. Pior: o pagamento desses benefícios já estava seis meses atrasado.

 

O próprio ministro do Planejamento admitiu que os cortes  em subsídios lançariam mais 500 mil iemenitas abaixo da linha de pobreza, somando-se aos doze milhões e 500 mil (metade da população) que já viviam nessa condição.

 

O povo de Sanaa não deixou passar  batido.

 

Saiu às ruas em manifestações, não só exigindo o fim dos subsídios, como também a queda do governo.

 

A polícia do presidente de Hadi reprimiu com a esperada violência, mas a população continuou revoltada.

 

Ao entrarem em Sanaa, os Houthis  adicionaram às suas reivindicações econômicas os pleitos do povo da cidade. Mais do que uma facção xiita, tornaram-se assim um partido nacional, de defesa dos interesses da população.

 

Sob pressão, Hadi topou um acordo com os Houthis, patrocinado pela ONU.

 

Anunciou a formação de um novo governo de tecnocratas, em um mês, com membros do movimento em ministérios-chave.

 

Por sua vez, os Houthis anunciaram a supressão dos cortes de subsídios e reformas econômicas para suavizar a situação dos iemenitas mais pobres.

 

Mas a crise não parece resolvida.

 

O anúncio dos Houthis tem um tom agressivo contra Hadi quando diz que:  “…este acordo também trará a mudança do governo, cuja queda o povo exige, porque ele se fundamenta numa base injusta e não-consensual”.

 

Eles também se recusaram a assinar um anexo ao acordo que determinava que retirassem suas forças da capital.

 

Pelo contrário:  prosseguiram avançando, tendo ocupado o Banco Central, uma base militar chave e a Universidade Iman.

 

Entregaram a forças neutras do exército e de comitês populares alguns edifícios que haviam tomado, os quais, porém, continuam ostentando as bandeiras Houthis.

 

Não é a toa que o presidente advertiu contra uma possível guerra civil.

 

A Arábia Saudita e os demais países do Golfo Pérsico, financiadores do regime Hadi, publicaram um manifesto, aprovando o acordo de paz.

 

Possivelmente aceitam a visível redução do poder de Hadi porque um dos partidos que o apoiam é ligado à Irmandade Muçulmana, perseguida pelos sauditas.

 

Há quem ache que, aplaudindo o acordo, eles ganham motivos éticos para intervirem militarmente caso os Houthis decidam derrubar de uma vez o governo Hadi.

 

Por sua vez, a atitude dos EUA, por enquanto, é uma incógnita.

 

Os Houthis condenam radicalmente a campanha de drones lançadas pelos americanos contra a al Qaeda.

 

Drones são muito temidos no Iêmen, alimentando o antiamericanismo  junto no seu povo.

 

Por isso mesmo, os Houthis têm se negado a manter contatos com representantes de Washington.

 

Eles são também acusados de receber armas do Irã e treinadores militares do Hisbolá.

 

O Irã nega, ainda mais porque seu objetivo atual é ganhar a boa vontade americana nas discussões finais do acordo nuclear.

 

Um Iêmen sob os Houthis poderia ser mais um az nas mãos de Teerã no jogo pelo poder no Oriente Médio.

 

De outro lado, esse movimento é um precioso aliado na luta contra a al Qaeda, pois a  vem combatendo ferozmente.

 

Isso pesa muito para Obama.

 

Ele já declarou ser a franquia iemenita da organização do extinto Bin Laden “a mais perigosa ameaça mundial”.

 

Todas estas dúvidas devem ser desfeitas nas próximas semanas, talvez dias.

 

Seja lá o que acontecer, pior dificilmente ficará para o povo iemenita.

 

Ele já é um dos mais pobres do mundo.

 

 

Luiz Eça é jornalista.

Website: Olhar o Mundo.


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