Estados Unidos: entre 100 anos de uma grande guerra e outras menores

 

 

Nos últimos dias, os Estados Unidos empreenderam mais uma ação militar no Oriente Médio, ao bombardear alvos vinculados a milícias integristas, de extração sunita, cuja atuação estende-se mais e mais no Iraque e Síria.

 

Os ataques não foram  precedidos de autorização do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas, ainda que Washington alardeie possuir o apoio político de dezenas de países. Até o momento, nenhum dirigente da América do Sul se dispôs a auxiliar a nova empresa, mesmo sem ser de maneira militar.

 

O presidente Barack Obama mencionou no dia 24 último a solidariedade de mais de quarenta governos, ao passo que horas antes o Departamento de Estado havia se referido a sessenta, sem considerar a postura favorável da Liga Árabe e da União Europeia.

 

Desde o encerramento da confrontação bipolar, a Organização das Nações Unidas, a não ser por breves exceções, como durante o transcorrer da Primeira Guerra do Golfo, tem sido valorizada – nem mesmo sua reforma se debate de modo consistente entre as principais potências.

 

Na prática, os norte-americanos restabeleceram o costume do diretório, ou seja, o da consulta a potências próximas, fossem aliadas – vínculos formais – ou alinhadas – laços informais –, para atuar em situações emergenciais de seu interesse.

 

Ressalvadas as devidas proporções, existe uma série de coincidências entre a liderança política dos dias atuais e a de um século atrás na sociedade norte-americana. Conduz os Estados Unidos um presidente do Partido Democrata como naquele período, tendo ambos obtido a reeleição.

 

Tanto naquela época como hoje o supremo mandatário da Casa Branca procede administrativamente do meio universitário, embora um deles, Wilson, tenha ido além de professor, ao chegar à reitoria da renomada Princeton – uma das oito da chamada Liga de Hera.

 

Em um intervalo de noventa anos, os dois presidentes foram galardoados com um prêmio Nobel da Paz, mesmo que tenham sido governantes belicosos, a despeito da falta de vivência em assuntos castrenses.

 

A Woodrow Wilson destinou-se-lhe a almejada distinção em virtude do esforço para constituir um organismo global permanente: a Liga/ Sociedade das Nações, de curta e malfadada existência, enquanto a Barack Obama a justificativa foi mais vaga, ao aludir o Comitê Nobel Norueguês ao fortalecimento da diplomacia internacional.

 

A diferença entre um e outro dirigente perante a história é o êxito de Woodrow Wilson diante da guerra maior, a despeito do revés anterior no México durante a malograda tentativa de capturar Pancho Villa, e o fracasso de Barack Obama em frente de dois conflitos de médio porte herdados, apesar do sucesso em eliminar Osama Bin Laden, ainda que o procedimento mais adequado fosse conduzi-lo a julgamento em solo estadunidense.

 

Virgílio Arraes é doutor em História das Relações Internacionais pela Universidade de Brasília e professor colaborador do Instituto de Relações Internacionais da mesma instituição.

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