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A semana só teve paz no cemitério Imprimir E-mail
Escrito por Gabriel Brito, da Redação   
Qui, 18 de Setembro de 2014
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Ainda não são 8 horas da manhã e o inconfundível rasgo das hélices ecoa por todas as ruas e correntes de ar do centro de São Paulo.

 

Entre as inúmeras ocupações por moradia que marcam o atual desenho da cidade, sempre tem aquela que tira o ‘bilhete premiado’ da reintegração de posse. Deferida por algum magistrado que, nem em sua era de república estudantil, suou frio para fechar o mês.

 

Ainda não são 8 horas da manhã e o time que veste vermelho no jogo da luta de classes está à beira de dar seu derradeiro adeus a uma de suas figuras imprescindíveis. Mas crianças em marcha na creche da USP nos lembram que novos combatentes surgirão.

 

Anda complicado o trabalho de discernir o real do virtual, o fundamental do fútil, o humano do bestial. Inversão de valores se revitaliza; fortalecimento do já poderoso e guerra ao historicamente fragilizado.

 

Em mais essa jornada na terra onde a “alternativa” eleitoral ao exterminador do Pinheirinho propõe mais militarismo em nosso cotidiano, não surpreende que mais uma duríssima operação militar seja tratada com essa ‘subversão de ideias’.

 

Nossos juízes de valor, diariamente cristalizando verdades em telas, rádios e escritos, se deram conta de que a opinião pública preferia a reivindicação à porradaria. Tiveram de engolir engasgando as manifestações de junho. ‘Relaxaram’ seu tom condenatório às ocupações urbanas, à medida que notavam o aumento do fenômeno e sua crescente incidência na vida dos que não madrugam para brilhar sob o holofote de quem trata a vida como show (business).

 

No entanto, aparecem minúsculos perante a estatura dos desafios de interpretar o mundo, que deveriam ser prioridade número um de quem opta por ganhar a vida comunicando e informando. E que tem o privilégio de dirigir-se às massas com frequência superior a qualquer chefe de Estado.

 

Ante as imagens de ruas fechadas, fumaça e correria, a dona do modesto salão de cabeleireiros logo lamenta o alcance da “confusão” - afinal, quem quer saltar do ônibus ou da estação de metrô, em mais uma manhã de pressa, para logo se deparar com uma batalha campal?

 

Ao lado, o senhor de sotaque espanhol concorda, “porque las cosas no pueden ser así, no es cierto, y es mejor que los saquen”. Tudo muito simples, como ensinam os bons moços e moças que nos traduzem o mundo. Não é possível saber se aportou aqui há muito tempo, mas certamente os canais que ‘mostram a realidade’ por trás do escudo de uma tropa de elite não lhe permitirão conhecer notícias das moradias de famílias ibéricas endividadas.

 

Já passa de meio dia e o helicóptero da sagrada e quase celestial corporação continua metralhando o tímpano de centenas de milhares. Se queriam impressionar, só podem ter conseguido. Cinco ou seis horas de transmissão ao vivo parecem insuficientes para alguém informar que o hotel Aquarius jamais abriu suas portas e, portanto, o prédio ocupado não cumpriu sua função social nem por um minuto.

 

Já passa de meio dia e percorre a notícia da partida precoce do fervoroso militante, tão habituado aos teatros de guerra, arbítrios e detenções ‘legalistas’. Dói em muitos corações a ausência de um dos mais incansáveis membros da linha de frente.

 

Os simpáticos transmissores da ‘verdade’ prosseguem a martelar a tecla do “conflito”, numa curiosa equiparação de famílias acuadas a brutamontes treinados nas mais variadas técnicas marciais e coercitivas, além daquelas criminosas que tradicionalmente aplicam. Não surpreende. Faz-se assim em escala global. Quando, por exemplo, da narração do “conflito” entre um povo desterrado e sem instituições regulares (tipo um exército) e um Estado armado até os dentes pela maior potência nuclear do mundo.

 

Como cães farejadores da melhor raça, logo encontram casos de vandalismo para relatar em tom de ‘lamento’. Não enxergam diferenças entre participantes ativos de um movimento social, e sua ação política, e os que foram desmiolados pela ‘droga da ralé’ e vagam pelo centro em sua desesperança. A missão é um fardo real a tais observadores.

 

“A tropa se organiza e tenta novamente avançar contra o pessoal desse movimento”, conta a repórter. “É uma pena, as pessoas correm assustadas. Todo esse cenário na esquina da Ipiranga com a São João, cartão postal da cidade, onde temos bares e restaurantes famosos”, completou. Teve o pudor de não nominar o Bar Brahma e o Sujinho, mas evidenciou que os conhecia perfeitamente, ao contrário desse movimento. Artigo definido para uns, pronome demonstrativo para outros.

 

Nada mais improdutivo do que se indignar e exigir desses jovens bem criados uma postura diferente ao tratar do tema. São incapazes, simplesmente. Suas antenas funcionam melhor em exemplos que dialogam com o mundo que vivem e sentem.

 

Registraram o ataque, invasão, interdição, como queiram chamar, da ciclofaixa em Higienópolis com toda a polidez e distanciamento que engavetam na hora de falar de movimentos sociais ou sindicais. A revolta que parte de quem anda em carros mais caros que o apartamento sonhado pelos “vândalos” sem teto tem, em seus raciocínios, causa justíssima por trás da coragem de se rebelar.

 

Esses são ‘jornalistas’ que não telefonam para militantes quando cobrem determinado assunto. Não sabem bem quem e como são os movimentos sociais, não os reconhecem no jogo de forças da sociedade. É assim e acabou.

 

“Agora vamos mudar de assunto! Vamos falar de reality show e mais uma edição da Fazenda!”, anunciam os animadores do programa matinal, já se liberando a sorrir após horas de transmissão do tenso, e nada cenográfico, “confronto”. Realismo mais do que fantástico.

 

A soldadesca bem vestida e maquiada do novo jornalismo entendeu as exigências do mundo ‘moderno’. Nada de convescotes com outros colegas de profissão, sindicalismo em tempos de pejotização, menos ainda boemia na calçada. O certo é passar duas horas na esteira da academia do bairro charmoso. Hoje, profissionalismo se comprova com corpo esbelto e selfies alegres com a ala famosa da redação.

 

Depois de horas ouvindo falar no “confronto” entre os sem teto e os militares, descobrimos que um ou outro policial até foi arranhado aqui ou ali. Mas a ‘outra mídia’ também promove seu reality show com fotos, vídeos e relatos de pessoas arrebentadas, sangradas, encurraladas, apavoradas ou literalmente tirando as crianças da sala.

 

Cercadas de tropas, no chão do pátio da delegacia, por excelência a sala de recepção de todo criminoso, as famílias, criançada incluída, amargam a consumação de sua derrota parcial. A cidade pode respirar tranquila, as ordens da eminência togada foram cumpridas à risca pelos mantenedores da ordem.

 

Já caiu a noite e a polícia tampouco aceita ficar sem exibir seu próprio reality show. A posse já foi reintegrada, mas ela volta à rua e começa a atirar bombas para todos os lados e pessoas. Ninguém entende, pois sequer há uma busca direta aos que se envolveram na ocupação. Mas quem compreende outro reality show, em cartaz até outubro, sabe que foi apenas uma boca de urna, ao vivo e a cores em rede nacional.

 

Já caiu a noite e a quadra do Sindicato dos Bancários continua recebendo gente de diversos grupos políticos e sociais, na emocionada despedida que varou a noite e terminou no cemitério da Vila Alpina.

 

O único símbolo possível de paz.

 

 

Gabriel Brito é jornalista.

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Última atualização em Qui, 25 de Setembro de 2014
 

A publicação deste texto é livre, desde que citada a fonte e o endereço eletrônico da página do Correio da Cidadania




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