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O quartinho escuro da política Imprimir E-mail
Escrito por Reginaldo Benedito Dias   
Segunda, 15 de Setembro de 2014
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Quando eu tinha seis anos de idade e cursava a primeira série do antigo primário, vivi uma experiência traumática. Em uma reunião disciplinar, uma funcionária da escola em que eu estudava, presumo que fosse a supervisora, advertiu-me: crianças que faziam bagunça em sala de aula ficariam de castigo em um quartinho escuro, repleto de insetos e bichos peçonhentos. O susto não foi pequeno. Meio aterrorizado e com meus próprios recursos, procurei saber onde se localizava o tal “quartinho escuro”, sem, evidentemente, ter vontade de conhecê-lo por dentro. Com o tempo, entendi o significado da pedagogia do medo e suas metáforas.

 

A principal lição que extraí do citado episódio, cuja compreensão aprofundei em meu ofício de historiador, é que o medo é um poderoso agente intimidador e mobilizador, seja no plano individual, seja na escala societária, como revelam incontáveis processos culturais e políticos. Seria dispendioso citar os muitos exemplos que a história da humanidade fornece. Fiz essa digressão inicial para comentar a incidência da pedagogia do medo em alguns fatos, relacionados com a corrida presidencial, da nossa recente história política.

 

Quando a atual campanha eleitoral teve início, uma peça da propaganda do PT veiculava a ideia de que eventual vitória dos tucanos seria a volta a um passado terrível. Os oito anos do governo do PSDB eram pintados com cores sombrias, quase um filme de terror. Essa peça era acompanhada de outras, que circulavam por outras mídias, em que os dados de cada período de governo eram sistematizados de forma conveniente, de maneira a fixar a imagem de que houve uma grande ruptura entre um ciclo e outro.

 

Um breve recuo no tempo demonstra que o atual partido governista sofreu, em seus primórdios, com esse tipo de anti-propaganda. Em 1989, por exemplo, diziam que eventual vitória petista espantaria 800.000 empresários do país. O Brasil estaria na fronteira do caos ou do comunismo. Em 2002, mesmo repaginada para exorcizar a imagem de radicalismo, a candidatura petista ainda enfrentou a especulação do mercado. Um dos sintomas foi a disparada do dólar. O novo ciclo de governo conviveu com a persistente advertência, divulgada por opositores, de que estaria sendo preparado um golpe de Estado no estilo bolivariano.

 

A recente ascensão da candidatura de Marina da Silva ao patamar de favorita introduziu novo capítulo nessa história. Vinda de várias direções, com presumida indução das forças políticas tradicionais, foi desencadeada a temporada de desconstrução de sua imagem. Circulam, pelo Facebook e por outras mídias, imagens terríveis do que seria o Brasil governado por ela. A mais recorrente é a de que sua vitória seria um passaporte para o caos. Em pouco tempo de seu governo, o país estaria em uma crise aguda, abrindo caminho para uma solução autoritária.

 

Como educador, abomino a pedagogia do medo, que saiu de pauta nas escolas, mas continua em alta no mundo da política. Ela deseduca e despolitiza. Até quando vão infantilizar os eleitores, ameaçando-os com o castigo do quartinho escuro? Nem as crianças de seis anos acreditam mais nisso. Vamos elevar o nível do debate!

 

Reginaldo Benedito Dias é professor do Departamento de História, Universidade Estadual de Maringá (DHI/UEM), e Doutor em História Social pela UNESP.

Originalmente publicado no Blog Revista Espaço Acadêmico - http://espacoacademico.wordpress.com/tag/reginaldo-benedito-dias/

 

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